Nadejda Durova: o único homem a biografar
Nascida mulher e criada para servir ao sexo masculino com graça e silêncio, Mulan foge de casa para servir ao exército chinês no lugar do pai.
Grande herói de guerra, o pai de Mulan está frágil e debilitado, por isso, a filha imperfeita para o papel de mulher do lar toma o lugar como soldado, assume um nome masculino, corta o cabelo e aprende a cavalgar e a controlar uma espada. Mulan se torna símbolo de força e resistência, destrói o exército Huno e é reconhecida pelo imperador chinês.
A lenda é milenar na China. Mas não é a única. Na Rússia, a história aconteceu e foi documentada em diários, com detalhes sobre uma vida que poucos teriam coragem de olhar até o final…
Nadejda Durova é uma versão russa de Mulan, foi permitida pelo tsar a ser reconhecida como homem e abriu espaço para a comunidade trans em um país onde, ser gay, já é uma grande questão.
UMA MÃE E UM DESTINO
Nascida como a primeira filha de um casal destinado a não acontecer, no ano de 1783, Nadejda Durova cresceu entre soldados, aos cuidados especiais de um oficial do mesmo batalhão de seu pai.
Ainda na infância, uma criança nasceu e foi quando o pai decidiu abandonar o serviço militar, mas Nadejda já tinha se apaixonado pela cavalaria e ganhado apreço pelas armas, de fogo e brancas. E enquanto a mãe criticava os comportamentos dela, o pai acreditava que era apenas uma fase juvenil.
Durante o dia, aprendia bordado e escutava da mãe palavras cruéis sobre o sexo feminino, aprendendo aos poucos que ser mulher era como uma maldição. O pai reforçava a ideia, afirmando que se fosse homem, Nadejda lhe seria mais útil. Durante a noite, aprendia a domar o cavalo do pai, sem que a mãe soubesse.
O cavalo, Alkid, a acompanhou pela vida… Em especial quando partiu de casa para se juntar ao exército.
UM COSSACO SEM NOME
Com o cabelo cortado bem curto, um uniforme cossaco que tinha conseguido e uma visão de si que deixava claro que não se via como mulher, Nadejda trocou o nome de batismo por Aleksandr, ao fugir de casa, e se alistou.
Quando notaram que não era um homem entre eles, os soldados tomaram distância de — agora — Aleksandr e isso lhe deu espaço para seguir sozinho. Completamente no corpo que se via e não no que o nascimento tinha lhe dado. E ninguém questionava, porque não havia o que questionar. Aleksandr era um homem!
Sozinho, seguiu caminho até uma tropa polonesa (que na época era parte do império russo) e lutou contra tropas napoleônicas. Depois disso, escreveu ao pai pedindo perdão pela fuga e deixando claro que tinha tomado para si uma identidade masculina.
A carta emocionada chegou ao tsar Aleksandr I, que convocou o soldado que diziam ser mulher. Depois de agradecer os serviços de Aleksandr (Nadejda) pelo país, o tsar permitiu que ela mudasse oficialmente seu nome e se tornasse homem diante da sociedade russa. E assim nascia o direito do corpo trans em uma sociedade tradicional e rigorosa.
O HOMEM TRANS QUE REBATEU NAPOLEÃO
Depois de sofrer ferimentos em uma batalha contra Napoleão, Aleksandr se desentendeu com seu oficial direto e buscou asilo ao lado do superior do campo de batalha, Kutuzov, que o aceitou imediatamente, por sua bravura e sem se importar com o que diziam sobre ele.
Quando precisou se recuperar dos ferimentos, Aleksandr foi persuadido por seu pai a se aposentar do exército. Com os diários prontos, os enviou ao poeta Aleksandr Púchkin por intermédio de seu irmão, que era amigo do poeta.
Oficialmente instalado como escritor, depois de anos de glória em uma brilhante carreira no exército, Aleksandr ficou revoltado com a publicação de seus diários que o apresentavam ao público como mulher. Uma carta foi escrita à Púchkin, exigindo que a tiragem de seus diários com seu nome morto fossem tirados de circulação, mas foi em vão.
Ainda assim, pelo resto de toda a vida, Aleksandr deixou o nome Nadejda morrer e usou apenas roupas e pronomes masculinos. Seus livros que seguiram a publicação de seus diários abordavam o status da mulher na sociedade com críticas ácidas e visões amplas.
Aos 82 anos, em 1866, faleceu sem muito que fosse seu. Seus últimos anos foram dedicados à literatura e a trabalhos de benfeitoria a grupos vulneráveis e marginalizados. Aleksandr Sokolov, uma vez Nadejda Durova, sumiu do mapa e do contexto popular com o passar do tempo, tendo sua história contada e recontada quase como uma lenda.
Sua importância é óbvia! Sem a sua existência, o direito de igualdade e as análises feitas sobre as mulheres, durante a Revolução, provavelmente nem teriam existido. Somos gratas por ter havido alguém como Aleksandr Sokolov, por sua história ter resistido, mesmo que bem pouco falada diretamente.
Olive Marie ♥
P.S.: agora você também me acha no blog Nouveau Chapitre, onde escrevo sobre todas as minhas experiências literárias. É novidade aleatória de 2026, que resgata minha versão de 15 anos, que tinham um blog chamado “A garota da página ao lado”.
