OS AMANTES: COMO NOS APAIXONAMOS
Em 1928, René Magritte dava ao mundo a minha pintura preferida da vida: “Os amantes”.
Me lembro de quando a vi pela primeira vez, me lembro do que senti… E mesmo depois de adulta, sendo fã de carteirinha de Artemisia Gentileschi, sempre encho a boca para dizer que sou apaixonada por “Os amantes”. E tenho feito essa afirmação há uns bons 20 anos, sendo completamente incapaz de desacreditar no amor completamente; tudo por causa dessa pintura.
Vou passar o resto da vida querendo vê-la pessoalmente…
Mas existe uma razão imensa para essa ser a minha pintura preferida, e destoa muito do que acredito como pessoa, olhando para o mundo real… A honestidade do amor. Magritte pintou com a alma, e mesmo sendo parte do movimento surrealista, sua crítica ultrapassou a ideia do tema.
E, em “Os amantes”, há muito para se debater sobre isso.
O QUE QUEREMOS VER
No filme “O amor é cego” (2001), o personagem de Jack Black é um homem sem quase nenhum atributo físico que o faça ser considerado atraente. Mas como todo homem que faz parte do jogo da sedução do século XXI, ele quer se relacionar apenas com garotas extremamente bonitas, magras e “perfeitas”. Depois de uma sessão de hipnose, ele passa a ver a aparência das pessoas de acordo com seus corações e não com a sua imagem real.
Ele, tão superficial, descobre o amor da sua vida na personalidade de Rosemary (Gwyneth Paltrow), uma garota que, só pela sua aparência, jamais seria considerada uma opção por um cara como ele. O final, claro, é uma grande lição de vida.
Antes de se casar, uma amiga me disse: “depois desse relacionamento desastroso de sete anos que acabei de sair, ninguém mais vai me querer para casar. Estou calejada demais para aceitar qualquer porcaria, sou exigente demais para aceitar qualquer imbecil e tenho amor próprio demais para aceitar qualquer variante de red pill. As opções são quase nulas.”
Um ano depois, ela se casou. O homem em questão foi um dos últimos decentes, e o casamento dela com ele foi o resumo do ditado “quem casou, casou, e quem não casou não casa mais.”
Em ambos os casos, como uma pintura de Magritte, ficar com o amor da vida foi uma escolha do que cada um queria ver. Por uma ou outra razão, o amor foi cego. O personagem de Jack Black não viu o peso de Rosemary, minha amiga não viu as questões de pele do seu marido. Assim como em “Os amantes”, que tem uma proposta inicial de demonstrar o quanto o amor é cego…
EM TEMPOS DE AMORES LÍQUIDOS
Socialmente, a ideia aceita é de que a pintura representa o poder humano de se apaixonar por alguém sem se importar com o visual. Mas há algumas outras versões possíveis…
Tenho um conhecido que descarta a ideia. Para ele, “Os amantes” é uma resposta provocativa à sociedade pós Arte Nouveau das décadas anteriores, que apreciava obras como “O beijo”, de Gustav Klimt. Segundo ele, a obra debocha de uma arte explícita e coloca em questão hábitos puritanos do pós Primeira Guerra.
Surpreendentemente, não discordo dele.
Acho sim que Magritte riu do comportamento social da Europa naquele pós Guerra. Quando os países rumavam lentamente para uma crescente linha de raciocínio extremista sobre patriotismo e pureza civil, todos sucumbiam.
Vou além. Afirmo que foi a primeira onda de amores líquidos. Foi durante os anos de 1920 que relações abertas surgiram com mais despudor social, a Europa abrigava a Geração Perdida enquanto se recuperava da Primeira Guerra Mundial e o surrealismo ria na cara da arte clássica, enquanto criava repertório social para alimentar revoluções jovens.
O conservadorismo virou uma piada. E foi bem nesse momento de impacto de uma onde de amor líquido que a arte parou de pintar mulheres nuas e as chamar de Vênus só para a crítica não pegar tão pesado, trocando tudo isso pela vida real.
IMAGEM E AÇÃO AMOR
O ser humano se apaixona pelo que vê. E a sua opinião “descolada” e politicamente correta não importa, porque independente do que você queira argumentar, ainda será mentira.
“É dos carecas que elas gostam mais” e “os homens preferem as loiras” são apenas dois dos argumentos mais conhecidos que tocam no reflexo da nossa forma de criar interesse. Dizer que o amor é cego é afirmar que o amor existe apesar da aparência ou dos defeitos da outra pessoa. Veja bem: amar apesar de algo.
E por mais alecrim dourado que você seja, a realidade é que você só se interessou — e se interessa — por causa de um atributo físico. Seja o olhar, o sorriso, a ousadia na forma de se vestir ou o “conjunto da obra”, a imagem importa, relacionamentos são um reflexo do que queremos possuir (quase como uma mercadoria mesmo) e até o amor ficar cego, algo na imagem alheia tem que ser interessante o bastante para gerar a ação de amar.
E sim, a ação de amar. Afinal, amor é verbo.
Se não fosse assim, não haveria tanto comércio ao redor do amor. Nosso cérebro se apaixona pela ação meio voyeurista de espiar o amor alheio, seja em filmes, livros ou biografias. Observar o amor alheio é um hobby humano, e a arte sabe disso.
Magritte quebrou essa regra ao tirar de nós o conhecimento da identidade desses amantes. A sensualidade do corpo também é drenada, já que só podemos ver parte do braço da mulher…
E a pergunta que fica é: sem o visual, como nos apaixonamos?
Olive Marie ♥