CHOCOLATE COM PIMENTA: O DESEJO FEMININO
Eu não gosto de novelas. Durante a vida, assisti muito poucas. E isso, provavelmente, é cultural…
Apesar de ter nascido em um ramo familiar de noveleiros (minha avó, minhas tias e minhas primas assistiam novelas desesperadamente), em casa o consumo intelectual era outro.
Mesmo tendo um genitor que assistia muito jornal e uma mãe que me deixava assistir TV Globinho quando faltava na escola, minha casa era majoritariamente dos filmes. Especialmente os antigos.
Cresci em um lar em que programas de crimes reais eram assistidos no fim da tarde pelo meu genitor e séries de mistério e suspense eram assistidas na madrugada pela minha mãe. Às sextas assistíamos o filme da vez que tivéssemos alugado na locadora. Não havia espaços para novelas.
No entanto, teve uma novela que entrou na televisão da minha casa no fim das tardes de 2003: “Chocolate com Pimenta”.
APEGO EMOCIONAL
Minha mãe gostava tanto da estética retrô, que foi a única novela que acompanhou do começo ao fim. E eu assistia junto.
Apesar da cena em que a protagonista engravida, a coisa toda era uma comédia meio pastelão com um enredo romântico bem inocente. A beleza visual das melindrosas também me encantavam, então assistíamos sem perder um capítulo.
Em uma sociedade tão noveleira, eu só tenho apego emocional em uma novela que marcou minha infância. Isso é curioso! Minha família não me ensinou a consumir isso, então eu não consumi. E fico até feliz: realmente não gosto de novelas.
Mas “Chocolate com Pimenta” tem algo meio inocente. Algo como os kdramas que estão tão em alta. E talvez essa seja a magia da coisa. Deduzo, claro…
Mas o fato é que tenho apego emocional. E recentemente fiquei com vontade de assistir de novo. Então mamãe e eu decidimos maratonar como uma série. Ficamos encantadas de novo. Tudo é muito bonito.
Mas também, tudo é diferente.
OS ANOS 1920
Há um século as mulheres começavam a mostrar os tornozelos e cortar os cabelos. As cinturas das roupas eram mais baixas e a estética era mais melindrosa, apesar de ter a França há uma distância longa de navio.
Me fantasiei de melindrosa no Carnaval de 2002, então fiquei viciada na coisa toda quando a novela estreou. Algo nisso tudo me faz suspirar!
Mas tem mais. Os anos 1920 também marcam a reviravolta feminina. Mesmo que as ondas de feminismo só tenham surgido depois, há sempre um peso estrutural do papel da mulher na sociedade. E essa chave que girou foi nessa década.
Mostrar mais as pernas não era nada. O espaço para o desejo feminino estava apenas nascendo. E eis todas as amantes de Hemingway e Picasso para provar. O filme “Meia-noite em Paris” reforça essa observação óbvia: as mulheres estavam se libertando.
Em “Chocolate com Pimenta” temos a Olga usando da ideia do sensual para conquistar favores do soldado Peixoto; temos a Graça usando do imaginário do sexual para casar; temos a Márcia falando abertamente sobre sexo com a prima; temos a senhorita Mocinha se apaixonando depois de uma certa idade; e temos a Aninha, a protagonista, tendo uma reviravolta social só por causa de uma noite.
Nem as mais velhas escapam… Margo teve amores, Jezabel era conhecida como uma mulher “saída” e Bárbara fugiu com o circo por causa de uma paixão.
A liberdade sexual feminina alcançava o seu auge. Mesmo que ninguém, além das mulheres, estivesse notando.
DESEJO X LIBERDADE
Sou defensora da ideia de a novela ser um estudo complexo sobre a posição feminina naquela sociedade.
Em uma cidade pequena, com homens abastecidos com um ego inabalável e mulheres despedaçadas, tudo colapsou. Era óbvio! Elas passaram a entender seus corpos como uma arma de libertação, usando o desejo delas e dos homens a seu favor.
Ainda assim, o contraste é gritante: o mundo é feito para os homens.
Enquanto as mulheres são tragadas pelo desejo próprio e alheio, os homens se aproveitam das armadilhas para se abraçarem na mediocridade da própria existência. Eles abusam da inocência feminina ao seu redor para provar que o desejo feminino é uma piada de mal gosto para eles.
Seja o Vivaldo tendo amantes, mas exigindo compostura da esposa que fugiu com o circo; seja o velho conde que usufrui do vício de um homem quebrado para conquistar uma esposa jovem e virgem; e até o próprio Danilo, que brinca de pingue pongue com os afetos da Aninha e da Olga.
Enquanto isso, todas as mulheres exibem os mais variados graus de inocência sobre si e sobre os homens que escolheram para compartilharem a vida.
“Chocolate com Pimenta” é um estudo e tanto. E eu amei revisitar esse conceito.
Olive Marie ♥
