1965: A MULHER DE 1950

 




Essa semana eu ouvi de tudo. Não musicalmente falando, mas em questão de conversas. Todos os tipos de atrocidades maldosas sobre relacionamentos.


No trabalho que tenho, fazendo unhas, a gente ouve de tudo. Como manicure, atendo muitas senhoras. Muitas mesmo! E recentemente o tópico de amor e família foi muito levantado.


Ouvi senhoras julgando “golpe da barriga”, afirmações maldosas sobre membros da família serem apenas as ligações de sangue, e até comentários pegajosos sobre distorções de discursos políticos que fazem famílias harmoniosas racharem. É um caos!


Mas quando olho todas essas mulheres casadas, só consigo pensar que foram elas que sobreviveram. Que ninguém, no lugar delas, teria suportado. Eu não teria. Já teria perdido a vida no primeiro comentário que fizesse. Minha paciência é curta, em absoluto, para certos comentários e comportamentos, especialmente os masculinos…


Passei a vida esperando o príncipe encantado. Mas na versão Austenana. No entanto, admiro todas essas senhoras que resistiram. Aguentar os anos 1960 deve ter sido difícil.


O INÍCIO DO CAOS


Estamos voltando aos anos 1950… Sobre isso, eu não tenho dúvidas. De verdade.


Minha avó, que se casou por essa época, conta histórias dela e de suas amigas que me chocam. Mas não me surpreendem. E não porque eu entenda o contexto histórico, mas porque eu vejo as mesmas histórias, todos os dias, saindo dos lábios de amigas minhas.


Parece surreal! 1950 já está lá no passado… Foi quase há 100 anos, mas é perturbadoramente recente. A história feminina não mudou. Ainda estamos, como mulheres, aceitando demais.


Quando as mulheres se relacionavam antes, tinham que se calar sobre os abusos e sobre os comportamentos masculinos porque não tinham opções. Elas não podiam trabalhar… Hoje, elas ainda não podem.


Me viciei na canção “1965”, da Jessie Murph, justamente porque eu sei sobre o que ela está falando. Não na minha própria pele, mas nas vidas que vejo se descortinarem na minha frente.


A FAMÍLIA


Eu nasci em 1950. Não literalmente, óbvio, mas tive uma criação espartana. 


Como uma criança criada em qualquer família italiana, e tendo a avó que tenho, sou um caos. Esteticamente um caos. 


Fui ensinada a apreciar pérolas, roupas de alfaiataria, sapatos de salto, macarronada aos domingos e a boa educação à mesa. Não se levanta sem pedir licença, não se entra na casa de ninguém sem permissão prévia e não se discute com o marido sobre dinheiro. A menos que o cara seja um completo troglodita ou que se recuse bancar a própria família que ele fez, quem ganha o pão é o homem e quem cuida da casa é a mulher.


Com sangue árabe do outro lado, cresci pelo lado familiar paternal ouvindo que mulheres que fazem as unhas, estudam e usam da vaidade são descartáveis. A mulher se cuida para agradar ao homem, e só. 


Estávamos nos anos 1990, mas minha educação foi fabricada em 1950. E eu aceitei isso. Entendo o peso familiar, o discurso geracional, ambas as culturas mais fortes que minha criação foi gerada. Entendo. E passei a debater isso estruturalmente. Mas não tudo. E eis a terapia para me julgar…


JESSIE MURPH QUEM DISSE


Quando ela diz na música que aceitaria até uns tapas… Ter um marido compensa, mesmo que ele não preste. Esse era o plano.


E talvez ainda seja.


Minhas amigas estão aturando de tudo, e eu sigo olhando ao redor e amando a música de Murph, porque entendo sobre o que ela está dizendo.


Eu não aceitaria apanhar. Não aceitaria um homem que controlasse meu dinheiro e meus passeios. Mas eu entendo que tornei assim porque discordo da ideia central de relacionamentos baseados na auto anulação. Especialmente a feminina.


A vida me ensinou que as coisas não funcionam assim e que essas relações não dão certo. Murph está certa quando afirma isso: as mulheres ainda estão aceitando.


Ainda estamos em 1950, e há quase 100 anos que nos separam daquelas jovens que casavam porque seus pais as obrigavam, afinal, não se podia namorar mais de um durante a vida.


Esse álbum de Jessie Murph fala muito sobre o lugar da mulher dentro de relações em que ela permanece porque decide ficar, porque ama, porque perdoa. Mas essa música ressalta isso com violência realista: ser mulher é padecer em relações.


Olive Marie ♥