SE A VIDA TE DER TANGERINAS: SOBRE PLANEJAMENTOS
Terminei de assistir “Se a vida te der tangerinas” essa semana e achei que fosse sucumbir. Passei o kdrama todo me poupando de chorar porque, depois dos 25, chorar por qualquer coisa causa uma dor de cabeça tão intensa que seria o equivalente a morrer mais rápido. Mas não foi fácil…
E entre todas as coisas que poderia pensar sobre, como ciclos familiares e histórias de amor épicas, o que mais me chamou atenção na trama foi o planejamento. Ou, no caso, como se planejar é bobagem. Ninguém ali teve a vida que queria, e mesmo assim ainda teve macho adulto surtando por causa do protagonista.
Quando conversei sobre o fim da história com algumas amizades mais próximas, só consegui sentir certa aflição. As coisas parecem ter sido diferentes para mim… Enquanto todo mundo viu a poesia da coisa toda, eu vi dor. Mas não uma dor lastimosa que encerramentos de boas histórias causam, e sim uma dor mais pessoal. Ainda estou digerindo a obra, assumo.
Mas preciso falar dela também. Preciso entender em palavras como isso tudo é uma lição de vida. E tenho tentado, desde então, entender como seguir em frente.
SEJA POSITIVA!
Acho que o que mais escutei durante a minha adolescência foi isso: “seja positiva!”
Era uma imposição de todos ao meu redor, porque quando eu dizia que estava sendo realista, me chamavam de pessimista. Mas eu aceitei o fardo. Se sou pessimista, então sou. Tudo bem por mim.
Mas ser positiva também não é garantia.
Quando converso com minha amigas sobre a vida acontecendo, entendo que aquele papo de que os planos dão errado sempre para que algo melhor aconteça é real. Mas quando essa regra se aplica a mim, eu discordo. E não porque eu seja a vítima, porque não sou vítima de nada há muito tempo, mas discordo porque não consigo olhar o copo meio cheio.
Eu me ressinto com muita facilidade, sou amarga e só deixo vacilarem comigo uma vez e nunca mais. Enquanto isso acontece, olho ao redor e vejo meus planos desmoronando com facilidade. Mesmo os de curto prazo, e foi por isso que eu parei de planejar. Parei até de ter expectativas.
“Se a vida te der tangerinas” é, antes de mais nada, um reflexo disso. Afinal, todos os personagens planejam suas vidas com exatidão, e todos falham miseravelmente. Em especial, a protagonista.
SER MULHER
De todos os personagens, os que mais conquistaram coisas que estavam em seus planos foram os homens. O protagonista masculino, interpretado por Park Bo Gum, foi o que mais teve o que queria, apesar de toda a tragédia ao seu redor.
Quando vi os homens coreanos criticando a trama só porque ele parecia ser um homem ilusório demais e que poderia elevar demais as expectativas femininas, dei risada. Isso só confirmava ainda mais a minha teoria: ser mulher é aceitar migalhas, independente dos seus planos.
A mulher moderna, especialmente a brasileira, está cansada de ser tratada igual lixo por seus parceiros. Desde que sou nova, vejo a glamourização da ideia de relacionamentos com homens estrangeiros, porque isso parece mágico. Eles parecem totalmente diferentes… Mas não são. Homens são homens em qualquer lugar, e por mais que seja doloroso aceitar, é necessário que as mulheres entendam que os coreanos não só são homens normais, como são ainda mais machistas do que os brasileiros.
A cultura deles é mais complexa nesse tema do que a nossa. Ponto! Não quer dizer que todos eles vão ser um poço de machismo, mas há sim as suas ideias…
Quando vemos um protagonista masculino sendo irreal em seu papel de “macho” e mesmo assim conquistando as coisas que quer (esposa, casa própria, carreira e filhos), entendemos que o planejamento só funciona quando certos tipos de privilégios existem. E, em sua maioria, o privilégio que te dá tudo isso é nascer homem cis. Ponto!
O planejamento não é feito para mulheres. O planejamento não vai nos salvar. A vida acontece como tem que acontecer, e os fatos não ligam a mínima para o planejamento de cada um.
AS TANGERINAS
Quando eu era mais nova, tinha um plano. Desenhei meu vestido de noiva aos oito, escolhi o nome das filhas ainda na juventude (eu nunca desejei ser mãe de menino, porque minhas experiências em casa não eram boas sobre isso). Eu achava que conheceria o homem da minha vida aos 22 (no fim da faculdade), me casaria aos 24 e aos 25 já seria mãe. A vida não aconteceu assim…
O ditado é “se a vida te der limões, faça uma limonada”. Mas e quando a vida nos dá tangerinas? Temos que fazer um Gatorade?
E o kdrama leva para esse caminho mesmo… Quando não temos o que esperamos, mas sim algo similar, temos que nos virar e, sozinha, a vida encontra seu rumo. Tudo se ajeita, geralmente para o melhor, mesmo que estejamos sendo pessimistas ou realistas sobre as coisas e que tudo pareça desmoronar.
Colocar esse tipo de perspectiva no olho do furacão, bem nesse momento de “turismo sexual” que tem acontecido na Coreia do Sul em relação aos homens parece interessante. É só mais um alerta de que a vida não segue um roteiro, porque se planejar não muda em nada o resultado.
Vi a história como um reflexo. Entendi o recado! Acho que é crucial que seja visto como um aviso e também como uma agenda… É quase premonitório, no fim das contas. Planejamento funciona para homens, e funciona quando eles realmente tomam um golpe de sorte. Para além disso, a vida apenas vai nos tragar e nós que nos viremos para fazermos a limonada.
Olive Marie ♥
