LÍLIA BRIK: A ROSTO DA REVOLUÇÃO RUSSA

 




Nunca tinha ouvido falar de Lília Brik até 2020, quando li um artigo sobre sua relação com Vladimir Mayakovsky. Dele, obviamente, eu já tinha ouvido falar.


E mesmo que que não tenha lido nada dele (ainda) e de repente me pegar pensando sobre como todos os autores russos de seu tempo morrem cedo e tragicamente, fiquei curiosa ao descobrir Brik… Saber que já a conhecia, descobrir que seu nome também faz sentido com tudo que houve na Rússia no século XX.


Por alguma razão, quanto mais descobria de Brik, mais ficava curiosa e intrigada. A fama que ela conseguiu, a forma como seu rosto virou um marco na Revolução… Tudo parece deveras interessante. E sei que tenho trazido muitas figuras russas por aqui, mas a pergunta é: como evitar Lília Brik?


ANTECEDENDO UM NOME


Nascida na Moscou tsarista de 1891, Lília se chamava Lília Kagan quando nasceu e não tinha destaque midiático. Apesar de não ser uma figura pública até então, sua vida foi regada de confortos e seu requinte para artes e sua vida cosmopolita veio dos pais.


De origem judia, a família Kagan era composta pelo pai advogado, a mãe professora de música e as irmãs Kagan, que tinham pouco tempo de diferença de idade. O treino para o bom gosto para artes foi entregue a ambas, mas foi Lília que o agarrou primeiro.


Por volta dos 19 anos, Lília trocou o sobrenome Kagan da família pelo sobrenome Brik do marido. E isso, por si só, já a tirava da cena de observadora de arte e o colocava como parte do processo. Afinal, Osip Brik, com quem se casou, era autor. E seria ao lado dele que Brik cresceria como grande figura da Revolução Russa, mas foi nessa mesma época que perdeu o pai e entrou em luto.


E enquanto sofria sua dor familiar e se envolvia em questões políticas de forma mais sutil, outra trama romântica se desenrolava em seu futuro não tão distante…


LÍLIA E ELSA E OSIP E VLADIMIR


Desnuda da ideia de lealdade à irmã, Lília Brik se encantou por Vladimir Mayakovsky depois de ouví-lo recitar sua obra, depois de um certo o achando uma figura desinteressante e pouco carismática. Mas a questão é que o sentimento de paixão foi recíproco!


Por não ter um casamento convencional para o seu tempo, Osip e Lília receberam Mayakovsky em sua casa, como membro da família de dois. O caso se tornou público imediatamente, mas com pouca comoção ou alarde. Afinal, Osip foi trocado de bom grado.


Elsa se afastou da Rússia e partiu para Paris, mesmo sem nenhum tipo de ressentimento contra a irmã, e manteve a proximidade com Lília por uma correspondência constante à medida do possível. Enquanto, na Rússia, Mayakovsky tinha sua obra em crescimento regular e deixava claro que sua inspiração vinha de Brik.


E enquanto o amante mais popular a colocava no centro de sua obra, Lília seguia seu próprio caminho para longe do marido escritor e do amante poeta. Lília criava seu próprio movimento não nomeado de arte feminina na — então — União Soviética.


Lília Brik dirigiu um documentário sobre fazendas coletivas na Rússia e um filme paródia sobre o que chamava de “cinema burguês”. Assim como também escreveu poesia, estudou ballet e se arriscou na atuação. Ela só não ficava parada.


TALVEZ, SEU PRINCIPAL FEITO


Depois do suicídio de Mayakvsky, Lília passou a ser acusada pela depressão do artista, e sua vida estimulante começou a ficar mais discreta aos olhos do público. Seus amantes famosos se tornaram mais reservados sobre sua participação em suas vidas e se divorciou de Osip.


O segundo casamento veio rápido e foi rápido. O homem era um general soviético e foi uma das vítimas das perseguições stalinistas, em 1937. No terceiro e último casamento, Lília já começou a ser uma figura reconhecida como precursora da arte construtivista pós-revolução.


Lília era comunista, e tinha marcado seu tempo com seu trabalho mais famoso: a modelagem para um cartaz que incentivava a leitura e tentava reproduzir o pensamento do governo que depôs a dinastia Romanov. Brik foi uma grande modelo não oficial do movimento, reconhecida como parte importante da cultura russa e nome inspirador para artistas que tentavam emergir na mídia russa.


Foi em 1978, ao descobrir um estágio terminal de saúde, que Lília Brik cometeu suicídio. Ela tinha 86 anos e deixou claro que não queria se tornar um peso e nem dependente de ninguém, e como seu grande amante Mayakovsky, escolheu como sair do palco que construiu para si mesma.


A verdade é que Brik se imortalizou na memória popular ao se transformar em no rosto do movimento. Enquanto os EUA faziam propagandas com a mulher se submetendo ao homem para que a sociedade prosperasse, Brik revolucionava o papel da mulher na nova Rússia que surgia (União Soviética, no caso), colocando a figura feminina como parte importante da política e da sociedade.


Reconhecida como Musa da Vanguarda Russa, Lília Brik fez efeito até mesmo na moda, sendo amiga de Yves Saint Laurent até o fim de seus dias. E a verdade é que Lília Brik jamais irá morrer, porque sua influência e sua história resistem ao tempo.


Olive Marie ♥