MERGULHANDO NO SEU SORRISO: O IMPACTO DE SER JOVEM
Não me lembro se já mencionei isso alguma vez, mas quando eu era nova, o jeito de paquerar era bem específico. Vivi um início de adolescência em que MSN tinha muita popularidade, depois as redes sociais se tornaram Facebook e Instagram, e por fim vieram os aplicativos de namoro.
E sim: essa é a escalação do romance virtual, quer você queira quer não.
Pelo menos, essa foi a escalação do romance virtual para mim, no contexto em que vivia. E eu era uma bela patricinha que fingia que não era como as outras garotas… Eu era bem estranha! Porém, o amor também estava me contagiando.
Lembro que minha escola, todo ano, levava as turmas do ginásio (6º ao 9º anos, que para mim sempre vai ser 5ª a 8ª série) para o parque Hopi Hari. Lá, durante o dia, as escolas que faziam parte dessa excursão se misturavam, ficavam de namorico e trocavam contatos de MSN. Durante a noite, curtiam as brincadeiras da noite de halloween que o parque proporcionava.
Foi assim que todas as minhas amigas ficaram com alguém. Foi assim que uma amiga tentou me arranjar o amigo de um carinha que ela tinha beijado lá no parque, e foi assim que eu levei o meu primeiro fora virtual, que não tinha nem mesmo sido solicitado por mim.
No Facebook e no Instagram isso nunca aconteceu, porque eu nunca fui paquerada lá. E dei graças por isso! Porque foi nessa época que eu entendi que o sistema de conhecer alguém (romanticamente) e ter essa pessoa por perto virtualmente era meio esquisito.
Mas tem mais…
HABBO
Foi mais ou menos nessa época que o site Habbo ficou popular entre as minhas amigas. Como boas garotas desocupadas e cheias de interesses jovens, quase todas eram assíduas leitoras da revista Capricho. As que não liam Capricho, liam Atrevida. E as que eram “alternativas”, liam Toda Teen.
Eu lia as três!
Eu era desesperada por atenção de amizades que poderia a ter, louca por ter um pouco de afeto amistoso que era muito compartilhado entre todas elas, mas nunca direcionado verdadeiramente a mim. E foi assim, lendo tudo isso de maneira compulsiva, que eu descobri o Habbo.
Não sei o que ele é hoje, mas naquela época, era uma grande página online de adolescentes cheios de hormônios, que em sua maioria tinham 14 anos, mas fingiam ter 17. Bem saudável! Bem na vibe “li os termos e concordo com eles”.
Para a minha humilhação na época (e para o espanto da minha mãe que vai descobrir isso lendo esse texto) eu criei um perfil no Habbo. Que a divindade me ajude a expurgar esse momento da minha memória, porque é um daqueles tópicos que se passam anos (15 anos agora) e a gente ainda lembra momentaneamente e faz uma careta de desgosto. Mas aconteceu!
Eu queria muito ser vista, ser considerada atraente, que o algum menino me achasse fabulosa… Fiz um perfil sem ninguém saber, criei uma bonequinha toda fofinha e fui tentar fazer o que o jogo se propunha: interagir.
Todas as pessoas que me aproximei tentando fazer amizade, me ignoraram depois da primeira interação básica de mensagens. E, na minha cabeça, se nenhum cara da minha vida real me achava bonita, atraente e me via como uma possibilidade, talvez no jogo, que era um ambiente controlado, eu teria mais sorte…
Não tive! E aí eu entendi que não funcionaria para mim.
EXTRA! EXTRA! INTERNET SÓ TEM PROBLEMAS
Habbo era um tipo de chat da UOL, mas na versão de jogo. Aquilo era um jogo, para todos os efeitos… Muito dificilmente algo evoluiria daquilo para um romance de verdade. Mas eu me decepcionei quando não aconteceu comigo.
Não apaguei a conta, pelo que me lembro, mas depois de uns dias na completa solidão de apenas existir no jogo, eu nunca mais entrei. Faço careta de dor toda vez que lembro desse período sombrio. Estou fazendo careta de dor agora!
Nunca contei isso para ninguém. Parece humilhante demais dizer que minha adolescência foi povoada por uma imensa bola de feno rolando no deserto quando o assunto era romance. É mais humilhante ainda saber que isso aconteceu no plano real e no plano virtual. Deve ter algo de kármico ou cósmico… Mas a questão é que até minha terapeuta vai descobrir isso agora.
(Olá, doutora! Pode agendar mais 50 consultas aí…)
Para além da descoberta simultânea da minha médica e da minha família sobre meu mico pessoal, preciso admitir que eu entendi que conhecer gente na internet, especialmente com a intenção de namorar, é muito estranho. Muito mesmo!
É leilão! A diferença é que você não está vendendo uma carne, mas sim você mesma. E tudo bem se você realmente leu e concorda com os termos de uso de se dignar a flertar “mandando foto de agora” ou ser vista como uma mercadoria em que alguém vai te escolher em um rodízio. Mas a questão é que isso abre debates…
Mas existe um tipo diferente de leilão! Ele é virtual, é interativo em tempo real, não exige uma bio elaborada e tem quase o mesmo esquema do Habbo… Os jogos online!
SORRINDO EM PIXELS
O cdrama “Mergulhando no seu sorriso” é um dos meus preferidos da vida! Muito fofo, muito delicado, muito inocente (a medida do possível) é muito moderninho.
O casal principal se conhece porque passam a fazer parte da mesma equipe de jogadores profissionais. Ele tem a vibe quietão, meio nerd, porém muito fofo, e ela tem todo o jeito de menininha fofa, mas é mandona e observadora.
Escancara uma versão real da coisa por trás dos jogos… Geralmente os caras são solteiros e focados em jogar, ficam meio desconcertados com a presença feminina e todo esse clichê. Escancara também a versão feminina disso: meninas que são exatamente como todas as outras, mas como gostam muito de jogar, se escondem em versões mais fechadas de si mesmas (zero maquiagem, zero preocupações com moda e direcionando o gosto por coisas fofas em função de personagens de jogos e animes). E até aí tudo bem! É até reflexivo se deparar com isso.
Mas o curioso é que eles se apaixonam um pelo outro ao vivo, mas usam o jogo para se expressar e passar tempo juntos. E isso se reflete em muitas relações que vejo hoje.
Quando converso com pessoas mais velhas, ouço discursos curiosos sobre como suas netas ou netos conheceram o respectivo par em salas de jogos online. Em como isso evoluiu e deu certo, e em como o casal compartilha mais o computador do que uma vida romântica. E é aí que me pega!
Pensando nisso, tenho observado que é um sintoma social que tem aumentado. E não apenas em casais que se conheceram em jogos online… O debate, no entanto, sobre como temos valorizado mais as relações no virtual do que no real é imenso e já falei muito de amor por aqui. Mas ainda me assusta.
Ser jovem ainda parece meio aterrorizante! Nitidamente um casal mais velho vai preferir aplicativos de namoro do que jogos online para se conhecer e formar um lar, e isso diz muito sobre como a minha geração (a primeira a lidar diretamente com o grande impacto da transição do analógico para o digital) assentou a terra para que as próximas pudessem caminhar. O filme “Her” nunca pareceu tão próximo…
Se as pessoas estão se apaixonando quando as outras sorriem em pixels, como isso impacta o futuro? Como vamos lidar com a existência humana daqui há alguns anos?
O impacto de ser jovem ainda parece um risco eterno para a existência da terra. E a cada nova geração, ser jovem fica ainda mais visceral e disruptivo. Pelo menos para mim, que não vejo o mundo com os olhos muito velhos e cansados, reflexo de uma vida inteira em uma família velha demais para ter me permitido ser jovem quando eu era.
Acredito que o impacto de ser jovem tem se refletido em pontos curiosos de inteligência e de interação humana. E acho que o novo jeito de amar é primeiro virar uma skin.
Olive Marie ♥
