HIGH SCHOOL MUSICAL: A TOXIDADE DE SER JOVEM
Eu sou uma pessoa que aprecia, verdadeiramente, o recebimento de newsletters pelo email. Não à toa, esse é o nome do meu blog…
Mas eu realmente coleciono inscrições em news de tudo quanto é assunto que eu gosto, e por mês leio uma média de 50 news diferentes. Não apenas nas que estou inscrita, mas também outras que consigo acessar por indicação de amigas ou links aleatórios do instagram. Adoro o dom de acumular cultura inútil, debater sobre futilidades breves e me alienar do mundo real com coisas saudáveis e divertidas.
Parece que quanto mais eu envelheço, mais quero me prender ao vazio dos meus dias e me isolar na vastidão do aleatório…
Curiosamente, foi nesse momento da vida que recebi uma news que falava sobre nostalgia e mencionava “High School Musical” com carinho, e isso me levou direto para a minha versão mais jovem.
A futilidade breve de ser jovem dialoga com uma versão minha que tentou ser “cool” do jeito errado. Literariamente errado, pelo menos.
DIFERENTE DAS OUTRAS GAROTAS
Posso determinar o momento em que descobri que a futilidade é uma arma de troca social… Quase posso tocar esse momento da minha existência, na verdade.
Eu tinha 10 anos e tinha sido convidada para o aniversário de uma colega de turma. Fui convidada por causa da regra da escola que convites de aniversário só poderiam ser entregues em sala se todos da turma fossem chamados, mas minha mãe achou que tinha sido convidada porque era bem-vinda e me obrigou a ir.
Se não bastasse me sentir um patinho feio no meio de todas aquelas garotas de quem não era amiga, achei que ficaria tudo bem me infiltrar em uma conversa besta sobre “As visões da Raven”, porque o grupo que estava conversando sobre não era tão excludente. E realmente teria ficado tudo bem, mas uma delas mencionou a série de Lizzie McGuire e eu comentei que não lembrava disso do filme…
Diferente de todas aquelas garotas, eu não tinha TV à cabo em casa, e só conhecia o filme em que Lizzie McGuire está em Roma. O SBT passava “As visões da Raven” e a Globo passava o filme de Lizzie McGuire de vez em quando, mas a série só existia no Disney Channel. Nesse momento tenebroso e totalmente “problema de menina branca e rica”, fui humilhada por nunca ter assistido a série e por achar que “Doze é demais” era o papel mais relevante da carreira da Hilary Duff.
Garotas de 10 anos, brancas e ricas estavam mais preocupadas em humilhar umas as outras por causa de uma simples TV à cabo do que brincar? Estavam. Eram filhas de empresários e de donos de sedes de franquias, e filhas de médicos, advogados que cobravam a hora do atendimento preliminar e chefes importantes de multinacionais. E o mais curioso é que, na época, eu não tinha a mesma vida que elas não porque era pobre. Eu não tinha a mesma vida porque meu genitor era mão de vaca.
Eu nasci de um homem que sempre gostou de brincar de pobre, que passou a vida se recusando a me levar para conhecer o mar porque “gastaria gasolina” e que pagava de “mesada” um belo valor de cinco centavos para cada um dos filhos a cada domingo. Mas tive a inocência de dizer que não tinha TV à cabo, apesar de ser filha de quem era (e todas sabiam que ele ganhava não apenas tanto quanto os pais delas, mas em alguns casos ganhava até mais) e recebi de resposta: “Você não tem vergonha de ser incapaz de ser nossa amiga por causa do pai que tem?”
Mal sabiam elas que a vergonha de ser filha daquele homem não era pela sua mania de fingir de pobre, mas engoli o desabafo e respondi que não tinha. Por dentro essa era apenas mais uma coisa que ele me trazia de trauma, mas por fora eu mantive a pose. Afinal, se há em mim um defeito corrosivo, esse defeito é o orgulho. Nunca admitiria algo assim para alguém como elas, mesmo tendo que ir chorar sozinha de raiva cinco minutos depois…
Mas aquilo me ensinou uma lição. Naquele momento eu entendi que era uma pária entre as minhas iguais. Entendi que não era o dinheiro no banco que me igualava a elas, mas sim a capacidade de conhecimentos inúteis que eu poderia ter. E as minhas futilidades não correspondiam com as delas.
SHARPAY EVANS E O TRAUMA DE SER MENINA
Antes daquela interação infeliz, uma peculiar variação do mesmo grupo de meninas me fez ter asco da cor rosa, da existência de vestidos, de música pop, do filme “O diário da princesa”, da existência de grupos de amigas, de garotas loiras e da Mia de “Rebelde”. Todas eram variações mais dramáticas, mimadas e reais demais do mesmo plot de patricinha metida de escola gringa. Até festa junina eu passei a odiar…
Com o sucesso de “High School Musical” naquele início de adolescência, a coisa só ficou pior. Eu tinha assistido o filme pela Globo, pouco depois de estrear no Disney Channel, e não tinha achado tudo isso. Lembro do meu genitor, no domingo à tarde, me chamando para assistir “filme jovem que eu poderia gostar”... Sharpay Evans foi um divisor de águas.
Sharpay reunia tudo que eu mais odiava, era a caricatura perfeita de tudo que aquelas garotas da minha escola queriam ser e eu tinha arrumado um apelido – ao meu ver – pejorativo que fazia jus ao comportamento asqueroso delas. Mas “High School Musical” virou uma febre descomunal e eu fiquei ainda mais irritada.
Eu tinha uma lista de coisas que eu odiava em ser mulher, e a frase “ter que conviver com Sharpays” estava circulada com caneta vermelha com cheiro de maçã a ponto de perfurar a folha em alguns pontos.
No mesmo ano, cinco “amigas” fizeram festas de aniversário com o tema Sharpay, fui convidada a participar do Show de Talentos da escola (só para substituir uma colega que não poderia participar) para dançar uma música da Ashley Tisdale; e, se isso já não fosse sufocante o suficiente, uma professora pediu para escolhermos uma música em inglês para cantarmos e dançarmos em uma apresentação que valia nota. Meu grupo escolheu “We’re all in this together” em uma democrática votação de 5 contra 1. Sendo eu o voto solitário.
Decidiram que eu deveria ficar em uma posição de destaque na apresentação, sem o meu consentimento, porque eu era – supostamente – mais parecida com a Gabriela. Perder a apresentação desfalcaria a coreografia e faria o grupo todo perder nota. Faltar seria mesmo uma lástima para todas as cinco que se digladiaram pelo papel de Sharpay.
Só que elas não contavam que, além de orgulhosa, eu sou rancorosa. Se tiver a mínima chance de eu devolver a gentileza da humilhação que me causaram com juros e correção, eu vou agarrá-la. Sou boa em devolver favores, e se a pequena nazistinha tinha me humilhado por não ter TV à cabo no ano anterior, achei de bom tom acabar com seu sonho de uma manhã em ser Sharpay Evans.
Nota escolar é o equivalente a dinheiro para o estudante do ensino fundamental, então eu arrumei um jeito de ganhar meu processo de minúsculas causas de garota branca… Participei de todos os ensaios, decorei a música e a coreografia, e na noite anterior a apresentação, esperei pacientemente todos dormirem em casa e sai da minha cama pé ante pé. Abri a porta da geladeira, cronometrando o tempo de porta aberta sem apitar pelo meu relógio da Hello Kitty, e enfiei a cabeça embaixo da saída de ar frio, bem atrás da jarra de suco.
Acordei na manhã seguinte com febre, garganta inflamada e ganhei uma visita ao pediatra, sete dias da semana tomando meu xarope preferido para a garganta e um belo atestado médico para não afetar minha nota. Foi a única vez na vida que induzi uma doença, e fiz isso como último recurso já que não poderia pedir para faltar sem dar uma explicação. E todo o meu grupo perdeu nota.
SER JOVEM É UMA DOENÇA
“Não se nasce mulher, torna-se mulher” é a frase mais célebre de Simone de Beauvoir. E também é uma das mais sinceras frases do mundo. Só que Beauvoir esqueceu que se tornar mulher é um trauma espiritual e emocional sem precedentes.
É um trauma porque o mundo é moldado para os homens, e a maioria das mulheres compra essa ideia e revende em doses homeopáticas contra outras mulheres.
As situações que me ocorreram poderiam ter acontecido em qualquer cenário, com qualquer pessoa, apenas mudando a argumentação por algo mais relevante ou mais datado, ou mais específico. Mas se fosse sobre o universo masculino, não seria considerado fútil, então era apenas algo sobre a futilidade breve de ser mulher. Mas também é sobre juventude.
É curioso que eu tenha entendido, tão nova, que não era feita para fazer parte. E é peculiar porque, enquanto eu me impunha contra tudo que parecia ser “cool”, eu tinha muito medo de não ser aceita como uma garota.
O discurso “eu não sou como as outras garota” nunca me ganhou, porque minha mãe me fez ter orgulho de ser mulher. E apesar de saber que a amizade masculina é mais simples, passei a vida tentando me adaptar para ser amada pelas meninas. Não queria ser como elas, mas queria queria que gostassem de mim. E fui arrumando substituições…
Substituí o rosa pelo lilás, ouvia cantoras femininas que não eram exatamente divas do pop, usava salto ao invés de vestido e fui me ajustando como dava. Eu só queria sobreviver ao ambiente em que fui inserida, e não me envergonho de ter sido quem fui. Mas também não me orgulho completamente.
Fazer as pazes com várias dessas coisas me tirou anos de vida, me causou um punhado de cabelos caindo e horas intermináveis de uma terapia que poderia estar sendo gasta com tópicos mais relevantes. Mas a real é que ninguém gosta de adolescentes, nem mesmo os próprios adolescentes.
É curioso que tudo que traz nostalgia para as minhas iguais — e até para algumas amigas —, me cause traumas terríveis. E entendo que aquelas garotas achariam outras coisas para me constranger, afinal era eu o problema, não o meu estilo de vida. Mas ser jovem é ser tóxico mesmo, ser meio burro, atolar em ideias estupidas e traumatizar e ser traumatizado. Mas na pele feminina a coisa fica mais complexa, porque já sentimos que nunca somos o bastante.
“High School Musical” é algo que jamais farei as pazes, mas acho que o clichê existe… Todos estamos juntos nessa. Mas quando somos jovens, estamos juntos em ser tóxicos, não importa quando, onde, como ou com quem. Apenas estamos juntos sendo péssimos seres humanos.
Olive Marie ♥
