FUNNY LITTLE FEARS: RECOMEÇOS E TÉRMINOS

 




Eu estou viciada no álbum “FUNNY little FEARS” desde seu lamento. Não consigo parar de ouvir… E tenho a péssima tendência a ser repetitiva de um jeito irritante, então isso se amplia quando o assunto é música.


Curiosamente, minha versão de 10 anos atrás jamais assumiria isso em voz alta. Não desse jeito, pelo menos.


Recentemente vi que viralizou no TIKTOK um vídeo sobre uma garota falando que tinha vivido uma amizade tóxica… Achei engraçado. Nada do que ela disse sobre a amiga era tóxico aos meus olhos, e não era porque tive tipos bem peculiares de amigas nessa vida. 


Algumas queriam que eu vivesse a vida como elas. Algumas achavam que ser caseira era quase um crime, e eu deveria ser mais ativa na vida social. Outras acharam que eu era como uma tábua de salvação quando as coisas não iam bem em outras amizades delas… Poderia passar o dia listando.


Mas isso não quer dizer que seja apenas isso. Eu tive amigas ótimas também. Ainda tenho, na verdade. Algumas pelas quais eu daria minha vida, e que eu sei que dariam suas vidas por mim também. E também tive um outro tipo de amizade, um tipo mais bizarro. Eram amigas medianas, nem boas nem ruins, apenas normais, e eu mesma fui tóxica para mim.


E falar de música, publicamente, se encaixa nisso. Especialmente porque agora vejo com outros olhos a coisa toda.


A VIDA NÃO É O ENSINO MÉDIO


No último sábado minha última amiga da época do Ensino Médio casou. Sophie não estudou comigo, mas estudou com uma das minhas melhores amigas na época, e isso nos aproximou. Tempos depois, fizemos um curso juntas, e nos tornamos grandes amigas desde então.


Passei muito perrengue com esse meu grupo específico de amizades. Dos mais banais aos mais inusitados. Perrengues que fariam nossas mães enfartariam se soubessem todos, e a maioria não é sobre sair sem casaco em um dia frio.


Quando li “Tudo o que eu sei sobre o amor”, fiquei com um gosto amargo na boca, porque senti que aquelas coisas todas eram ridículas. Pareciam falas de uma adulta que não superou envelhecer e que não entende ao certo o que o amadurecimento pode fornecer. Mas também entendi algumas coisas… Coisas que não sinto que são, necessariamente, um orgulho.


Eu sempre fui a amiga sóbria, e isso me proporcionou momentos impagáveis e quase canônicos, especialmente quando envolvia salvar uma amiga de um enrosco. Mas a maioria dessas coisas aconteceram bem no off, entre nós, e não em ambientes públicos a ponto de câmeras de seguranças nos identificarem. E eu sei que parece suspeito, mas sempre fomos meio caseiras e quadradonas…


A questão é que meu Ensino Médio foi um saco. Amizades falsas, pessoas que eu pagaria para não ver nunca mais na vida, histórias pessoais péssimas e traumatizantes. E, com uma boa dose de bom senso, uma amizade em especial que me faz ter arrepios até hoje.


E faz não porque ela fosse especialmente ruim, mas porque eu era ruim para mim mesma quando estava com ela. E era assim porque realmente não sabia como agir, e tinha medo de perdê-la, então me fechava e virava uma marionete bizarra. E música era o meu pior aspecto nesse contexto; mas só foi com os anos que eu notei: a vida não é mesmo o Ensino Médio.


PEQUENOS MEDOS ENGRAÇADOS 


Sou introvertida e tímida. E isso quer dizer que eu não sou fã de muitas interações sociais, mas também quer dizer que eu nem saberia como agir em várias situações sociais mesmo que quisesse.


Ser assim me rendeu pequenos medos… Alguns que enfrento de frente todos os dias. Mas o principal era na escola… Por ser tímida, tinha dificuldades em fazer amizades, e por ser introvertida, tinha aflição sincera com a ideia de conseguir fazer alguma amizade que fosse o meu completo oposto. E eu fiz mesmo algumas assim, que eram opostos perfeitos, em diferentes aspectos.


Por comodismo, me tornei amiga de uma pessoa que (assim como eu) era tímida e introvertida. E por anos pareceu ser perfeito. Nossas mães se tornaram amigas, nossos interesses eram os mesmos e nossas aspirações para o futuro também. Éramos quase completos perfeitos para a vida longa das velhinhas fechadas e amarguradas que criam gatos.


Mas ela também tinha expectativas para mim… Sabendo que eu gostava das mesmas músicas que ela, usava sempre isso para nos unir. E quando eu percebi que ela esperava de mim certo gosto e temperamento, eu me moldei.


Mesmo que eu gostasse de algumas músicas que não fossem do gosto dela, simplesmente não dizia isso para ela porque ela se ofendia sinceramente. Primeiro fazia caretas perguntando se eu gostava mesmo daquela x música, depois enaltecia outro grupo ou artista que ela sentia que fazia mais sentido. E se eu não “perdia” a batalha, ela fazia birra, como fazia sobre tudo que ela não gostava…


Filmes que ela não via? Sempre ruins, mesmo sem que ela tivesse lido nem mesmo a sinopse. Grupos que ela considerava “poser”? Piadas de péssimo gosto ao elevado tipo musical que deveria existir no mundo. Equipes de esportes que ela não torceria? Lixos ambulantes com esportistas sem talento algum.


E isso se repetiu por anos!


Para não perder a amizade dela, alimentei esse monstrinho do medo de não ser aceita por ela, de perder aquele minúsculo porto seguro que a vida estava me oferecendo, e me tornei quem ela queria. Pelo menos na frente dela, para não ferir seus sentimentos.


Um medo ridículo, mas que foi revivido recentemente pelo álbum em questão.


ADULTA AGORA


Com 17 anos ela tinha poder direto sobre mim, porque eu não queria não ser amiga dela. Mas com os 30 batendo na porta, eu apenas fico aflita com quem fui.


Gostei sempre de me gabar que não fui uma jovem difícil… Como tive muitos problemas familiares durante a adolescência, fiquei amortecida. Não sobrava tempo para ser mimada, petulante, rebelde ou seja lá o que for. Não pude ser intensa, nem fazer birra ou curtir normalmente, então ela era a amiga com quem eu podia contar para ser muito caseira comigo.


Afinal, apesar de caseiras também, minhas outras amigas tinham vidas sociais mais ativas que a minha. Enquanto isso, ela se recusava a ter uma vida minimamente social porque era uma grande antissocial, com tendências fortíssimas para agressividade leve quando contrariada, dificuldade em ter empatia e muito, mas muito egocentrismo social.


Eu era o oposto dela nesses sentidos, mas era a única que topava passar o carnaval assistindo filmes e rindo de besteiras, então era minha salvação. Mas quando eu estava com ela, eu tinha medo de ser eu mesma.


Fui me tolindo…


Era mais fácil aceitar o que ela queria do que impor, e isso fazia com que eu me anulasse e desse a ela apenas o que ela queria: material para ser maldosa sobre as pessoas ao nosso redor em conversas sigilosas, alguém para ouvir os problemas dela e alimentar seu ego de superioridade intelectual.


Ela jamais exigiu isso de mim. Mas como ela demonstrava que era o que queria, eu escolhi ser assim por ela. Virei sua pequena minion, porque isso a deixava feliz e porque me permitia ter paz… Quase 13 anos depois disso, entendo que foi gradual minha melhora, mas que ela existe.


Hoje em dia eu gosto de ouvir músicas como as de Damiano David e aceito isso em voz alta. E mais! Sou apaixonada por como esses músicas falam de formas melancólicas e um pouco dançantes sobre o ciclo da vida.


Na ideia central, as canções são sobre amor e um pouco confessionais. Mas para mim elas falam de ciclos… De términos e de recomeços, da finitude da vida como um ser, e de como a existência é caótica enquanto está acontecendo, mas poética quando fica triste e muito morna quando se esvai.


Quando ouço “FUNNY little FEARS” penso na finitude e em ciclos. E sinto que é um álbum que me representa nesse momento da vida, porque caiu perfeitamente com quem me tornei lentamente… Sinto que é uma junção importante de fatores, e que me ajudou a verbalizar como vejo a existência de todos os amores que existem.


Olive Marie ♥