MEU DEMÔNIO FAVORITO: O PADRÃO ASIÁTICO

 




Recentemente vi uma matéria sobre uma brasileira que se casou com um coreano e acabou sofrendo violência doméstica e sendo expulsa de casa. Isso saiu mais ou menos na mesma época que o caso de Kim Soo Hyun. E as reações aos dois episódios foram as mesmas…


Majoritariamente, quem defende comportamentos masculinos são, quando não homens, mulheres de mais idade, que foram ensinadas que abuso e violência masculina é apenas uma parte inerente do comportamento masculino, e que acabam culpabilizando as vítimas. Óbvio que nem toda senhorinha vai compactuar com isso, mas todos esses pontos levantaram questões fortes sobre o comportamento dos homens em kdramas ou outras produções asiáticas.


Entre os principais discursos usados nesse tema, houve o principal e mais óbvio: “homem é homem em qualquer lugar do mundo. As ocidentais, em especial as brasileiras, estão apenas sendo compradas por um discurso fofo de um comportamento masculino inventado exatamente para isso.”


Pouco depois, com o lançamento do kdrama “Se a vida te der tangerinas”, os próprios homens coreanos corroboram com essa questão, afirmando massivamente em suas redes sociais que os comportamentos do protagonista da trama não condiziam com a realidade. E é verdade. Mas é também burrice – ao meu ver – determinar que o debate sobre esse tema deve parar por aí. E existem diversas razões para isso…


“HER PRIVATE LIFE”


Estrelado por Park Min Young e Kim Jae Wook, a história do kdrama que dá nome a esse sessão do post conta sobre como uma curadora de arte de uma galeria famosa tem duas vidas distintas. Em público ela é uma curadora madura e racional, que anda de roupas bonitas, está sempre de salto e não conversa sobre frivolidades. Na sua vida privada, ela é uma tiete.


Ela não é uma tiete no sentido mais obscuro da palavra, mas é uma das boas. Usa roupas pretas, tênis e conta com um equipamento profissional para monitorar a vida do seu idol preferido, enquanto coordena um fã-clube só para ele. O discurso clássico de que a mulher deve ser racional e ser boa mãe e esposa surge em vários momentos da trama, revelando a verdade machista e impositiva presente no mundo real, nas casas reais, de toda as famílias coreanas.


A Coreia do Sul, antes de qualquer outra coisa, é machista. É uma sociedade enraizada em discursos tradicionais, baseados em honra familiar, “pureza racial” e silenciamento feminino. E é aí que entra o marketing bem feito sobre o tema.


Vender e comercializar a vida coreana como um padrão para fora do território nacional pede muito de um discurso mais moderno. E isso ultrapassa muito o conceito, já popular no Ocidente, de: “homens perfeitos escritos por mulheres”.


Afinal a verdade é essa: homens incríveis, gentis e sem defeitos é uma questão midiática. E eles são escritos por mulheres. E isso acontece justamente porque nós, mulheres, estamos cansadas de já ver e lidar com um monte de “Jurandir” no mundo real. É por isso que o discurso do cara compreensivo, amável e romântico nos compra tanto ao assistirmos histórias asiáticas. Eles entenderam esse mercado e pronto.


E isso surge não apenas na narrativa completamente extrapolada de “Se a vida te der tangerinas”, Her private life” ou “Dali and cocky prince”. Até o novo kdrama, “Seguro para divorciados” ri dessa piada interna, trazendo um elenco manusculino que é conhecido publicamente por reverter as regras do jogo machista com falas ou ações que quebram o padrão masculino esperado.


E venda dessa ideia foi tão boa que faz até a mais avisada do movimento feminista se apaixonar pela Desgraça, por ceifadores, por goblin e gumihos… E até pelo Demônio.


O CAPIROTO COREANO


Não vejo beleza no Song Kang, mas entendo o apelo da imagem dele no cenário de dramas românticos. Ele tem a aparência esperada de um ator coreano, tem um físico que enche os olhos das mulheres cansadas de ver as panças de cerveja ou os caniços de caneta ao invés de canelas, e fala manso e parece gentil. Ele é a dose perfeita para interpretar qualquer entidade maligna que até a senhorinha mais crente do mundo vai querer assistir ele tomar um banho cinematográfico em cinco segundos de tela, completamente escondida das irmãs da igreja, enquanto o marido verdadeiro coça a barriga peluda e dura de álcool e grita com a televisão porque o jogador de futebol fingiu cair.


Se o que a mídia está vendendo é um cara minimamente fofinho, prestativo e sinceramente preocupado com a sua parceira, a mulher vai comprar. Em especial porque o homem do século XXI conseguiu proezas inesperadas… É a primeira vez na história que estudos comprovam que meninos no auge da adolescência se comportam com machismos mais violentos do que homens no auge dos 50 anos de idade. Eis a série “Adolescência” que não me deixa mentir.


O mundo real oferece homens carecas exigindo mulheres com cabelos até as cinturas. O mundo real oferece alcoolistas dizendo que mulher boa não bebe. O mundo real oferece homens que são adultos disfuncionais dizendo que só querem meninas que saibam cuidar da casa e dos filhos. O mundo real oferece homens que ganham um salário mínimo dizendo que os 200 reais da pensão alimentícia do filho, que era o “sonho” dele, é dinheiro demais. O mundo real não oferece homens, oferece fedelhos que tratam os próprios comportamentos asquerosos como um grande favor às suas respectivas parceiras.


A Ásia oferece CEOs que não ligam a mínima para quanto vão gastar só para sair com a garota que eles gostam. A Ásia oferece homens que decidiram viver o resto da eternidade sem vantagens de reencarnar – e que ainda se ajoelham no inferno –, só porque perderam seu grande amor. A Ásia oferece homens que desacreditam em relacionamentos fechados e destino usando itens de casal e entregando até a alma para mulheres que se interessaram. A Ásia oferece o Demônio, que é a máxima maligna das religiões baseadas na Bíblia, sendo mais afetuoso e prestativo do que aquele marido meia-boca que você escolheu casar depois de passar oito anos namorando no sofá dos seus pais.


Até eu, que não sou cristã e não acredito em Demônio, iria preferir me casar com ele do que ficar esperando a “benção de Deus” decidir se vai sair de casa com camiseta de time ou camiseta normal.


É mentira que os asiáticos são assim. Ponto!


Claro que lá as questões de relacionamentos são mais fortes e existe mesmo a coisa de sair na rua usando roupas combinando, cobrirem as pernas das namoradas quando o frio está intenso e tudo isso. Mas não, eles não são o que a mídia quer que você ache que eles são. Porque ninguém é. Mas isso cria um padrão…


DE UMA PONTA A OUTRA NO MAPA


O Ocidente nos vende homens ao estilo Jurandir a vida toda, então estava óbvio que ao primeiro sinal de um tipo diferente a gente ia migrar.


O Brad Pitt foi o galã do fim do século XX, e foi acusado de ser violento com a esposa e os filhos. Johnny Depp era lindo aos olhos do público, e foi processado por violência doméstica. Justin Bieber foi tido como o namoradinho de uma geração, e degringolou de um jeito que até a fã mais fiel ficou sem argumentos. E isso sempre se repetiu até no cinema.


Sou a maior fã de comédias românticas, mas é fato que só existe “Legalmente loira” porque a protagonista quis seguir os passos do homem que ela achou que era o amor da vida dela. “De repente 30” é sobre a Jenna pautando a vida dela pelo cara que ela decide ou não ficar. “Comer, rezar, amar” é sobre uma mulher precisando realinhar sua vida porque tomou a decisão romântica errada. E é claro que esses filmes não são só sobre isso, mas é sempre uma garota se humilhando um tanto imenso por causa de um cara que, bom, nem era tudo isso. Afinal, nenhum deles redefiniu as próprias rotas por causa delas.


Na Ásia você vai encontrar o mesmo tipo de sujeito. Você não vai casar com o Demônio do kdrama, nem com o Lee Dong Wook – que diz que, se casasse, faria os serviços pesados de casa – e nem com o Jackson Wang – que sempre fala de mulheres com um tom gentil e se assume como um “filhinho da mamãe” porque via o quanto a própria mãe penava para criá-lo. Se você conseguir um asiático, a notícia ruim é: ele, provavelmente, vai ser um Jurandir. E não, ele nem vai se parecer com aquele carinha que você acha atraente no BTS.


Sinto muito!


Mas eu entendo o apelo. E adoro o apelo! Não porque eu compre a ideia, mas porque “Meu Demônio favorito” e seus conterrâneos conseguiram uma proeza que pouca gente conseguiu: eles fizeram os caras ficarem putos com um conteúdo completamente feminino. Genial!


Na verdade, eu acho que os homens deveriam assistir aos kdramas. Aos cdramas também e até a alguns dramas de outros cantinhos da Ásia. A mídia de lá não vende mulheres indo atrás dos homens, mas sim homens correndo atrás das mulheres. E posso garantir que depois de assistir um drama asiático que tem conteúdo romântico e reproduzir o comportamento do protagonista com a garota que te interessa, seu relacionamento vai ser mais promissor do que se você reproduzir comportamentos de coach de relacionamento que te cobra 5.000 reais para dizer que mulher é um lixo.


Mulher é artigo de luxo e a mídia asiática entendeu isso. Só falta as mulheres entenderem que isso é marketing e os homens entenderem que não deveria ser marketing.


Olive Marie ♥