O CONTO DA AIA: TRÊS MULHERES PARA UM HOMEM
Comecei a ler “O conto da aia” em uma leitura conjunta com uma amiga, uns bons 10 anos “atrasada” na moda da série. E gostei do processo. Realmente gostei.
Ainda estou terminando o livro e isso me impede de fazer uma resenha de verdade, no entanto, há algo na história que precisa ser mencionado agora. Nesse momento histórico de um Brasil em que o crime contra a mulher só cresce… A obra não é necessariamente distópica, como sempre ouvi falar.
Teoricamente, a história de “O conto da aia” é uma distopia sobre um mundo vivendo uma guerra muito complexa. Com efeitos de doenças e tóxicos expostos ao ar, algumas mulheres não podem mais ser mães e a população está reduzindo porque ninguém mais está nascendo. Então a religião tomou conta de tudo, as mulheres perderam todos os seus direitos civis e sociais, e cada homem poderoso pode ter, pelo menos, três mulheres.
Seria esse o sonho dos red pills?
BEAUVOIR AVISOU CEDO
Se não estou enganada, foi Simone de Beauvoir quem disse que as mulheres são sempre as primeiras a perder seus direitos quando algo bizarro está acontecendo com a sociedade. E estava certa. Nossos direitos não estão garantidos e nunca estiveram.
Iludir sobre uma suposta lei universal de que estamos protegidas pela lei é burrice. E é por isso que o movimento feminista ainda está lutando e gritando e tentando não se afogar. Nada nos é garantido. Não somos homens e o mundo não foi feito para nós.
Nosso direito ao voto não é uma certeza absoluta, nossos salários ainda são menores, nossos processos de recuperação pós-parto ainda são piadas e nossos dias de menstruação ainda são dados como frescura. Há mulheres na política lutando para que percamos nossos direitos, sem se darem conta de que perderão os seus também se conseguirem o que querem…
*insira olhos revirando aqui*
Em “O conto da aia” isso acontece. E acontece enquanto a guerra estoura e a vida dos homens muda aos poucos. As mulheres simplesmente são tragadas para lugares obscuros de uma sociedade que não é feita para elas.
Serena Joy, a patroa da aia que temos como protagonista, era uma mulher antifeminista antes da nova ordem social se instalar. Ela pregava a submissão feminina e todas essas atrocidades que, não notava, se virariam contra ela. Afinal, quando você concorda com ideias de submissão por gênero, sendo do gênero que deve se submeter, você também será uma vítima.
Síndrome de Estocolmo em dia, graças!
NÃO HÁ UMA QUINTA ONDA
“O conto da aia” fala sobre feminismo. Ele debater abertamente sobre política misturada com religião e como, supostamente, as mulheres estariam mais protegidas nessa nova realidade. Supostamente, elas não são violadas por homens nas ruas porque as roupas longas e as leis as defendem.
Mas as aias, que são mulheres destinadas a servir de objetos exclusivamente de reprodução, são violadas em rituais especiais, por homens que só querem engravidá-las. Romântico, não?!
No livro, o feminismo é crime, tal qual o comunismo era crime na Alemanha de Hitler, mesmo que o nome do partido sugerisse que eram comunistas. A quinta onda feminista é uma piada, ninguém se importa. E o aviso veio cedo!
A verdade é que muitos países, supostamente progressistas, estão virando ditaduras ocultas. E quando digo que eram progressistas, quero dizer que eram países que tentavam se orgulhar de suas leis a favor do sucesso de seu povo. É uma discussão longa e complexa… Não vai ter fim tão cedo.
E o mais curioso é que que o Ocidente se orgulha de dizer que países islâmicos são problemáticos porque os homens podem casar com até quatro esposas, se a primeira esposa for de acordo com mais três. No islamismo, se um homem casa com mais de uma esposa, ele precisa dar o mesmo tipo de vida para todas e nenhuma delas é necessariamente uma empregada do homem (a menos que a organização familiar a coloque nesse lugar). A cultura ocidental foca no extremismo islâmico como desculpa para a opressão das mulheres por usarem burcas…
De fato! O extremismo as obriga, nos anos 70 — se não me engano — não era obrigado que a mulher cobrisse o corpo e o cabelo. Mas existem mulheres que querem se cobrir, e isso já é outra questão. Malala nos ensinou isso. Mas o Ocidente diz que os homens terem mais de uma esposa é errado, enquanto seus homens velhos, ricos, brancos e “de bem” se orgulham de suas listas infinitas de amantes.
O SONHO MASCULINO
O livro “O conto da aia” é o sonho masculino de qualquer neandertal sem cérebro que acha que o antifeminismo defende as mulheres e que os homens deveriam ser os únicos a opinar sobre a vida. Os red pills amariam o conceito social estabelecido naquela realidade.
Nesse contexto, o homem poderoso tem uma esposa troféu, pelo menos uma empregada para a casa e uma mulher que precisa estar à disposição apenas para que ele transe e tenha herdeiros. Seria esse o sonho de todo macho alfa?
Seria! E sabemos que sim.
A verdade é que os homens são incapazes de ter apenas uma mulher. E não porque eles “têm necessidades diferentes”, como o discurso bizarro parece sugerir. Pelo contrário! Os homens são incapazes de terem uma única mulher porque — veja só que novidade: eles não querem.
Os homens querem mais de uma mulher. Para eles, isso é um tipo de ostentação de masculinidade. A sociedade nos cria diferente, então eles reforçam a ideia de quem merecem mais de uma mulher. E é mesmo nojento e estranho o quanto parece. É tudo isso, e ainda mais.
Ter três mulheres para cada homem… Atwood deturpou a visão islâmica sobre a poligamia mesmo sem ter esse desejo, mas para expor a incapacidade masculina de levar o mundo nas costas.
Sem as mulheres, o mundo não se procria sozinho. Sem as mulheres, as engrenagens não andam. A vida estaca. Mesmo que seja o homem que “saia para caçar e trazer a comida”. E Atwood fez piada disso com maestria.
Olive Marie ♥
