MISS SIMPATIA: FEMINISMO EM ESSÊNCIA

 




Recentemente eu reassisti “Miss Simpatia”, pela milésima vez. Nunca me canso! É uma das minhas comédias românticas de conforto e eu acho ela sensacional.


Mas assistir “Miss Simpatia” recentemente, tendo estado tão online quanto minha falta de paciência com a internet e meus olhos cansados de telas permitem, me fez notar a importância do discurso central da história pela primeira vez. E isso foi curioso!


Tudo começou quando eu notei o sobrenome escolhido pela protagonista em um tom de deboche… “Freebush”. Levando em consideração que o ano era 2000 e Bush não só concorreu a presidência como ganhou e entrou em mandato em 2001, a ironia da coisa toda é fatídica.


Outras pequenas alusões são bem curiosas… Lady Di tinha falecido em 97, depois de uma traição absurda de Charles com atual esposa, Camila. A atriz escolhida para o papel de vilã era semelhante a Camila, e estava fazendo tudo pelo poder, como entendedores da monarquia dizem que Camila fez. Obviamente, a rainha consorte Camila jamais colocaria uma bomba na coroa de ninguém, mas tem aí um humor ácido e meio debochado do patriotismo estadunidense. 


Curiosamente, o nome da protagonista ser Freebush e resolver um atentado com bomba não pega legal quando pensamos que, em 11 de setembro do ano seguinte, com Bush no poder, uma “bomba” realmente explodiu em Nova York. A estátua da liberdade tendo a cabeça detonada nos reflete, pensando no contexto histórico, uma sensação ruim. Todo mundo lembra do que estava fazendo naquele dia, quando os aviões destruíram as Torres Gêmeas.


Mas o meu surto histórico e associativo é só parte do processo. A trama real é tão premonitória quanto todas essas infelizes coincidências… O feminismo tendo sua essência distorcida.


SANDRA BULLOCK


Se você conhece apenas um pouco da carreira da Sandra Bullock, encontra facilmente o pico de crítica que a fez topar o papel. Todos os seus papéis, especialmente os de comédias românticas, satirizam alguma coisa da vivência social corriqueira que todos parecem ignorar. É até satisfatório.


“Miss Simpatia” tem o mesmo padrão! O mesmo. Sem tirar nem por. E coloca ela no centro de um debate que atravessou décadas, ondas do feminismo e discussões de portões de mulheres casadas e submissas, quase sempre rebaixadas à donas de casa.


Quando Grace afirma que não gosta de concursos de beleza e se nega a ser a agente infiltrada, ela taca uma bomba para o colega que faz seu par romântico: “é por que eu sou mulher?”


No início do filme essa piada já veio pronta, quando sua versão infantil retruca um garoto da escola que diz que não bateria nela porque ela era mulher, com a “madura” afirmação: “ah é? Se você não fosse mulher, eu bateria em você.”


Ser mulher era um fardo para ela. Porque ela sabia que a sociedade a via como uma cidadã inferior e dispensável. Ela passou a vida lutando para não ser o sexo frágil… Ela passou a vida tentando se afastar da ideia visual que “ser mulher” representa. E, usando essa carapaça “masculinizada” e pouco vaidosa, ela se agarra a ideia do feminismo como se ele fosse o mesmo que o machismo. Quando não é.


E ter a Sandra Bullock cutucando essa ferida é o mais divertido!


FEMININO E FEMINISMO


Se você pesquisar sobre Sandra Bullock nos anos 90, vai descobrir que ela sempre usou sua feminilidade a seu favor. Roupas claras, rendas, maquiagens bem feitas, cabelo impecável e unhas claras. Ninguém nunca questionou suas ações como uma mulher feminina. E ela sempre foi uma figura que falou abertamente sobre feminismo, mesmo que de um jeito descontraído.


Agora, se fizer a mesma pesquisa sobre Julia Roberts, vai descobrir que ela sempre usou a imagem “masculinizada” como uma provocação direta ao sistema social que esperava que, “a prostituta que virou madame” em seu papel mais famoso, fosse toda delicadinha. Ela teve axilas peludas, beijou um ator negro ao vivo na televisão quando disseram que não podia, fez críticas diretas ao sistema opressor de mulheres e, mais recentemente, afirmou que não achava que tinha sido assediada em Hollywood porque era distraída, mas que estava lá pelas mulheres que foram.


Junto delas, ícones como Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Cameron Diaz e várias outras que eram brancas que queridinhas da América, estavam criticando algo em suas comédias românticas e provocando o jeito de ser mulher que o mundo esperava delas. Comédias românticas dos anos 90 e do início dos anos 2000 eram tão viciantes por causa disso.


Sou de uma geração que cresceu vendo esses filmes… Vi Julia Roberts sendo feminina em “Uma linda mulher”, enquanto contava uma história que abria as portas para que prostitutas mostrassem sua realidade sofrida e a dor de ser mais uma “em uma lixeira”. Vi Nicole Kidman ser fatal em “Da magia à sedução”, enquanto mostrava ao mundo que seu casamento aparentemente perfeito era uma fraude emocional. Vi Reese Witherspoon zombar da inteligência de um homem que a abandonou por ser loira, em “Legalmente loira”, enquanto começava sua carreira como uma das mais importantes produtoras de filmes que contam a vida das mulheres. Vi Cameron Diaz ser a namoradinha da América, enquanto envelhecia sem nenhum procedimento estético e ainda dizia que isso era um privilégio.


Foi fácil para nós, meninas da geração que viu tudo isso em tempo real, entender que feminismo era (veja só!) a busca por igualdade e por liberdade de escolher ser exatamente o que queremos. E não que o feminismo era o oposto do machismo.


RAINHAS DA BELEZA


Tenho algumas amigas mais novas, tenho filhas de amigas e amigos… Meninas que estão crescendo com ícones femininos do TikTok. Mulheres padronizadas, que usam a internet a seu favor em vídeos curtos e muito bem editados, consumindo e reproduzindo discursos estranhos. Novas mulheres que acham que o feminismo é o vilão e que os anos 50 deveriam voltar.


Vejo políticas públicas regredindo no país que amo… Vejo mulheres que ocupam cargos públicos dizendo que querem o direito de serem esposas e mães. Quando a verdade é o que estado nunca as proibiu disso. Quando a verdade é que, o feminismo, prega exatamente isso: que as mulheres possam escolher serem esposas e mães, e não que sejam obrigadas a isso porque é a única escolha que resta.


“Miss Simpatia” faz essa piada ácida sobre a aparência. Quando a rainha dos concursos de beleza afirma, para Grace, que sempre lutou contra mulheres que desaprovam concursos de beleza (feministas, ativistas e “mulheres feias”), ela afirma que toda mulher politicamente engajada com os direitos das mulheres é, não apenas feia, como burra. Ela afirma que são ativistas assim que acham que mulheres não devem ser vaidosas.


Ninguém estava dizendo isso! Ninguém nunca disse.


Quando a própria Grace afirma, no fim, que entendeu que o feminismo não tem nada a ver com aparência, vem o respiro de alívio. Ela entendeu! Precisou de 30 anos, mas entendeu.


A propaganda ante mulheres segue firme… A ideia é separar e conquistar. Fazer que mulheres rivalizem. Enquanto os homens não estão rivalizando em grande escala. As pautas deles são sempre como roubar ou não roubar a população. Enquanto nós ainda estamos discutindo qual movimento social que quer controlar nossos corpos e nosso direito de escolha social.


É bizarro!


Não estou dizendo que o discurso feminista não seja rebuscado. Não estou dizendo que não existam feministas que confundem as coisas (porque também não entenderam o movimento ao todo) e acabam causando mais mal do que bem. Mas estou dizendo que é preciso analisar as coisas antes de reproduzi-las, e “Miss Simpatia” mexe nesse ponto.


Comédias românticas deveriam mesmo ser consideradas patrimônios sociais… É uma pena que todo mundo ache que elas são “coisas de mulherzinha”, como se isso fosse uma ofensa.


Olive Marie ♥