ANNA KARENINA: A POSSIBILIDADE DO CLÁSSICO INÚTIL
Li “Anna Karenina” esse ano e fiquei decepcionada. E decepcionada com bastante força.
Eu realmente queria gostar, mas não gostei… Enquanto lia, me sentia traída pela própria expectativa de que seria uma história que faria sentido para mim. Especialmente porque minha história com a obra é longa.
Há anos, quando estava aprendendo russo, tentei ler o livro, mas como estava muito doente da depressão, eu realmente empaquei e não consegui mais ler. Mas nesse ano eu decidi que leria. E li mesmo!
Me empenhei, mesmo durante o AVC da minha mãe e o caos da vida pessoal, me coloquei no dever de terminar o livro para descobrir se a história mexia comigo. Mas não mexeu. Foi triste!
UM BOM ENREDO
Diferente do que minha percepção negativa possa fazer parecer, a história do livro é realmente muito boa. A abordagem de uma traição cometida por uma mulher, na Rússia tsarista, bem na época em que o divórcio ainda precisava ser analisado por toda uma conduta social, Anna Karenina vira a pessoa contra a maré.
Ela roda a cidade sem timidez, mesmo saindo de casa para viver com seu amante e pai da sua filha caçula. E isso quebra diversas paredes narrativas de seu tempo e espaço.
A maternidade incalculada, o amor e o dever, o social e a expectativa… Tudo sendo analisado friamente pela mente impulsiva de Anna. É um show!
Personagens secundários muito bons, um enredo político que abre espaço para falarmos sobre disposições intelectuais e muito espaço para interação. A história não deixa parênteses abertos de forma alguma. Tudo é muito bem amarrado. O que é ótimo, porque assim o livro não fica com pontas soltas.
Mesmo quando senti que a história desandou com preocupação política de direita e esquerda em excesso, sem que isso levasse a qualquer lugar, ainda achei a história boa. Só que tudo tem um porém…
O FIM DE UM LEGADO
Quando a história terminou, senti que a obra toda tinha evaporado como fumaça por entre meus dedos. Nada naquele final é previsível, mas existem várias possibilidades que nos fazem colocar a mão na consciência e abrir espaço para entender o que quer dizer.
Talvez Anna fosse borderline… Talvez Karenin estivesse colapsando antes mesmo de ser traído. Talvez Vrosnky só quisesse uma desculpa. Ninguém ali era inocente e todos lidaram bem com suas escolhas, mesmo que isso os destruísse ao longo do caminho. Mas não para por aí.
Quando a obra acabou, senti que um legado histórico tinha morrido em mim. De repente eu não queria mais lidar com tudo aquilo que perdurou por séculos como boa literatura. Simplesmente porque eu discordava.
E entendo o que “Anna Karenina” representa. Entendo verdadeiramente!
Enquanto revisito a obra mentalmente, consigo enumerar umas dez razões que o fizeram se tornar um clássico que se estende e é abraçado por tantas pessoas. Mas a ânsia de amar clássicos não me abraça da mesma forma que abraça o bookgram.
Entendo as razões do clássico ser clássico, respeito a obra e o autor. Mas a verdade é que precisamos assumir quando algo não funciona para nós… “Anna Karenina” foi um dos primeiros clássicos que não gostei na vida, e olha que já li vários.
A PERMISSÃO DA ARROGÂNCIA
Quando eu falei em voz alta que “Anna Karenina” é irritante porque seus personagens são infantis e chatos, fui tirada de arrogante.
Aparentemente, há um consenso geral de que, só porque é um clássico, está proibido falar mal, apontar defeitos completamente possíveis e assumir que não funciona. Se fizer isso, você se torna alguém que lê livros de coach.
Pelo menos, foi o que eu senti.
Teve gente me elogiando pela suposta coragem em falar publicamente que, para mim, a obra não funciona. E o questionamento surgiu…
Será que não estamos sendo apenas muito chatos?
Só porque sou adulta, só deveria ler clássicos? Só porque gosto de clássicos, deveria gostar de todos? Só porque é um clássico, eu deveria relevar as falhas de escrita do autor ou de conduta das personagens?
Existe a possibilidade de um clássico ser algo inútil. Existe sinceramente essa possibilidade, e dizer isso em voz alta não te torna menos leitor ou alguém arrogante. Te torna apenas alguém que sabe do que gosta e o que funciona para si.
Se me consideram arrogante por não gostar de um clássico, unicamente porque não tenho “teor intelectual necessário para o apreciar”, que assim seja. Fico com a minha arrogância.
Olive Marie ♥
