JOAN DIDION: ENTRE O JORNALISMO E A TRAGÉDIA

 




A primeira vez que ouvi falar de Joan Didion foi durante a leitura de “Aos dezessete anos”. A protagonista a lê e a menciona constantemente, por meio da obra “O álbum branco”, e quando pesquisei sobre ela… Fiquei viciada!


Busquei algumas coisas por curiosidade no começo, mas acabei querendo ler e saber mais sobre sua história. E não me arrependi. Ela escreve muito bem e tem ótimas histórias para contar…


Foi quando eu descobri que Joan Didion mudou a forma de fazer jornalismo.


Com ela é assim: fica mais interessante a cada nova descoberta.


O RETRATO ESTADUNIDENSE 


Nascida em 5 de dezembro de 1934, filha do casal Frank e Eduene Didion, Joan estava destinada a viver aventuras. Com uma infância cheia de mudanças por causa do trabalho do pai como oficial do exército, Didion e sua irmã rodaram parte dos EUA com os pais e tiveram uma infância de instabilidade em escolas e constância em amizades.


Talvez tenha sido isso que a fez escrever…


Original de Sacramento, Joan Didion tem origem em uma família pioneira que habitou a região da Califórnia, tendo antepassados que fizeram parte da Caravana Donner. E foi durante a Segunda Guerra Mundial, quando estava crescendo, que os picos das mudanças de bases do pai ficaram mais intensas.


A família Didion passou por Washinton, Colorado e Carolina do Norte, e só voltou para Sacramento com o fim da guerra, quando Joan já estava na adolescência. Foi nessa época que focou mais seus escritos, mas desde a infância ela já tinha o hábito de criar histórias e personagens.


Na década de 1950, se formou na Berkeley e passou em um concurso que a permitiu trabalhar na Vogue. Foi graças ao trabalho que conheceu John Gregory Dunne, um dos principais roteiristas de Hollywood. E enquanto se preparava para casar lá pelos anos 1960, buscava conseguir sua primeira publicação.


A VIDA QUASE PERFEITA 


Ao estudar a biografia de Joan Didion é fácil entender que ela mesma se autobiografou sem perceber, por todos os seus ensaios e textos jornalísticos. E enquanto o mundo via retratos pequenos da sua vida morna e luxuosa, as coisas ruíam.


Escrevendo sobre o mundo ao seu redor com sinceridade, cabe a Joan Didion o crédito de escrever matérias jornalísticas com doses extras de caprichos pessoais… Ela conversou diretamente com uma das assassinas de Sharonn Tate, que era sua vizinha na época do massacre Tate-LaBianca cometido pela família Manson.


Todos estavam de olho nas obras e nos textos de Didion, mas a vida pessoal não era esse show de glamour que esperavam. Seu casamento ia de mal à pior, sua filha estava enfrentando problemas com vícios e alcoolismo, e o tempo não estava desacelerando.


Quando a prima de Quintana (filha adotiva e única de Joan e seu marido John) foi brutalmente assassinada pelo ex-namorado, Joan tomou uma atitude de destoava da sua busca constante por falar das coisas trágicas com abertura e sinceridade: ela fugiu para proteger. Levando Quintana para longe, o caso da própria sobrinha — que era atriz — parece ser o único que Joan Didion não escreveu sobre com abertura e liberdade.


A carapaça que todos achavam perfeita e glamurosa, regada a champagne e hotéis luxuosos disponibilizados pela vida rica que Didion tinha ao lado de Dunne, começava a rachar. Mas a carreira consolidada e os rumos do jornalismo já tinham sido trilhados.


O SILENCIOSO FIM DA FRASE


Em 2003, faltando pouco para completarem 40 anos de casados, a dúvida eterna sobre o que fazer com o casamento que estava em fiapos foi respondida cruelmente pelo destino: John teve um infarto. E Joan ruiu pela primeira vez.


Incapaz de lidar com o luto sem sofrer pela internação da filha, que ainda lutava seriamente contra seus vícios, Didion se pôs a escrever e fez um livro inteiro sobre a dor de viver sem John e a incerteza da nova vida que levaria.


Um pouco mais de um ano depois, Quintana faleceu por complicações na saúde. E Joan Didion voltou a escrever sobre a perda e o luto, e finalmente se abriu sobre a morte de Dominique, a sobrinha destruída por um homem que não aceitava um fim.


Como um fim de um texto bem escrito, esse era o começo do fim da frase de Joan Didion: a vida se descortinava sobre ela de formas reveladoras…


Se recolhendo em Nova York e finalmente abandonando sua versão californiana, que remetia a tudo que tinha vivido e sofrido, Didion escreveu e ganhou prêmios. E descobriu o Parkinson.


Por complicações na própria saúde, causadas pela doença que a tinha lentamente afastado da vocação da escrita, Joan Didion pontuou sua última frase em 23 de dezembro de 2021, poucos dias depois de completar 87 anos.


Em uma tentativa de resgatar sua força, pessoas próximas decidiram postar seus diários de terapia em 2025, abrindo registros que parecem invasivos demais para serem lidos. Mas que completam de forma surpreendente toda a sua carreira.


Em pouco menos de um século, Joan Didion se provou inevitável. Ela foi o reflexo do próprio mundo, e a voz da forma nova de fazer jornalismo.


Olive Marie ♥