JULIUS E ETHEL: CASO ROSENBERG E O FANATISMO QUE VIVEMOS
Na última semana conversei muito sobre política com uma amiga… Nos encontramos aleatoriamente na rua, e como não mantivemos contato nos últimos anos, pareceu adequado conversar amenidades e fofocar sobre o país.
Somos distantes politicamente. E quando notamos isso, as amenidades voltaram ao assunto principal e nos despedimos com a certeza de que não queremos mesmo manter contato.
Eu acho ela burra e ela me acha burra de volta, e a vida vai seguir linda com cada uma reconhecendo a sandice da outra e decidindo que não servimos para estar perto, afinal, o mundo já tem atritos demais e não precisamos causar mais um de graça.
Mas encontrar com ela me fez pensar no fanatismo político, que por si só já é uma doença, e em como radicais escolhem não ouvir o outro lado da história, e em como pessoas sãs escolhem não debater para não surtar. E eu sou do segundo time, porque não há nada que compre a minha paz de espírito.
JULIUS E ETHEL
Descobri sobre Julius e Ethel Rosenberg quando estava estudando sobre Guerra Fria, na época da escola. É uma memória nublada que tenho sobre qual professora os mencionou, mas lembro que foi de forma bem superficial a menção.
Anos mais tarde, ouvi sobre eles em uma conversa jurídica que tiveram perto de mim, em uma cafeteria que frequentava. Mais recentemente, vi algo sobre eles em um livro (desconfio que foi em “O álbum branco”) e decidi pesquisar mais sobre… Quanta atrocidade política em um caso só!
Basicamente, Julius e Ethel se conheceram em eventos do partido comunista em Nova York e se tornaram espiões e informantes. O trabalho deles era passar informações sobre projetos nucleares para a União Soviética e isso fez com que fosse possível ter testes nucleares soviéticos com informações que deveriam ser restritas dos governo dos EUA.
É crime? É.
É grave? É. Especialmente porque era de uma bomba nuclear e não uma receitinha de bolo de laranja com calda.
Mas matar na cadeira elétrica? Absurdo, aos meus olhos.
Nem mesmo o Barack Obama, que foi muito querido por várias classes da população estadunidense, concedeu um perdão póstumo para o casal, quando seus filhos entraram com uma petição, em 2017. E fica mais bizarro quando descobrimos que Ethel foi morta apesar de não haver evidências claras sobre seu possível envolvimento na espionagem.
Julius e Ethel, ao que me parece, foram fanáticos pelo socialismo e o governo capitalista os usou de exemplo para que mais ninguém no país tentasse repetir seus atos. Mesmo porque, os estadunidenses de um modo geral, são fanáticos pelo que chamam de “sonho americano”.
Para Julius e Ethel, o fanatismo os levou à morte. Para os EUA, o fanatismo levou ao Trump e a tudo que tem acontecido lá recentemente. Para os alemães, o fanatismo levou ao Holocausto e para os russo, levou à Revolução de 1917.
Seja de esquerda ou direita: o fanatismo vai te matar.
TUDO MEIO LÍQUIDO MESMO
Eu me irrito muito com relações líquidas, mas sinto que tudo se tornou líquido nos últimos anos. E lembro de sentir isso desde os protestos que levaram ao impeachment da Dilma. Lembro de olhar para aquele momento político e pensar o quanto era assustador que tudo estivesse tomando o rumo que estava tomando, mas na época pensei em Beauvoir… O direito das mulheres é a primeira coisa a ser tirada da população em momentos de crise.
A prova é que tiraram uma mulher, estudada e sobrevivente da Ditadura Militar, do cargo mais importante do país, usando a desculpa do dinheiro, mas quando um movimento parecido surgiu exigindo a saída do Temer ou, anos depois, quando vidas foram ceifadas mesmo com a possibilidade de impedir e enviar ajuda, homens continuaram exatamente no mesmo lugar em que estavam, com as regalias de seus cargos, independe se eram responsáveis por tudo que estava dando errado.
Assusta! Porque ser mulher assusta por si só, mas assusta mais quando vivemos em um ambiente de fanatismo.
É apenas a liquidez das coisas se apresentando de forma clara. Afinal, quanto mais apontamos algo em nossas mãos, mais tudo nos escapa pelos vãos dos dedos.
Política, tecnologia, relações pessoais e a própria existência têm se tornado mais líquido a cada dia. E, como parte do sintoma, eu também sou parte do problema. Somos todos parte do problema, inevitavelmente.
E acho que os Rosenberg são a prova disso. Mesmo que isso tenha acontecido durante a Guerra Fria, ainda se mantém atual, ainda choca e cria licença poética para teorizar sobre tudo… Alemães nazistas não perseguiram apenas judeus, mas qualquer pessoa que discordasse do governo deles, incluso socialistas. O que pode parecer irônico, já que o nome original do seu partido mencionava o socialismo.
Os EUA ficaram do lado dos vencedores durante a Segunda Guerra, mas também perseguiram e mataram pessoas do partido socialista, tal qual os alemães… Temos que aprender sobre história para não repetirmos os erros passados dos outros, mas também precisamos aprender sobre história para termos senso crítico, noção de espaço e direitos e para peneirar os problemas mais sérios das coisas.
Novamente: o fanatismo vai te matar. Ou melhor: vai matar a todos nós.
FANATISMO, EXTINÇÃO E DECADÊNCIA
Não sou fã de nenhuma ideia política que envolva “ismo”, porque isso sempre dá errado. Pronto!
Com exceção ao feminismo, que compartilho de 90% das ideias gerais do “ismo”, de resto, eu dispenso. E dispenso porque tudo isso leva, em pequena ou grande escala, à morte de grupos e sou contra a morte não natural ou acidental. Afinal, morrer vamos todos, mas não entendo porque devemos levar a morte uns aos outros.
A verdade é que estamos travando pequenas guerras. Tudo no ambiente pessoal mesmo, de forma completamente desnecessária.
Como seres humanos, estamos fadados ao erro. Como animais, estamos destinados à extinção e à aniquilação. Não há espécie capaz de sobreviver ao ser humano, incluindo nós mesmos. Ponto!
De novo: faço parte do problema.
Também sou fanática, mesmo que não política ou religiosa, tenho minhas cotas de fanatismo, assuntos que não vou querer ouvir o outro lado da história e momentos em que vou sair como uma surtada insana e problemática. Assim como sempre causo uma primeira impressão péssima e não faço questão de ter boas impressões dos outros também, afinal, sem expectativas eu não me frustro.
Mas agora estamos apenas no processo da extinção, que será causada pelo nosso fanatismo desenfreado por nós mesmos. Então estamos apenas sendo decadentes.
Sou fanática por justiça, por igualdade, por civilidade, por gentileza e por boa educação. E sou fanática pelo direito das pessoas, independente de quem sejam, poderem viver. Mesmo que, em alguns momentos, eu pense que essa ou aquela pessoa nem deveria ter nascido…
Só que não tenho memória curta e prezo mais pelo meu sossego do que por estar certa, até mesmo quando estou certa.
Mas o casal Rosenberg me ensinou uma lição valiosa: o fanatismo, seja ele qual for, precisa ser preservado. Dosado e utilizado com parcimônia, mas preservado. Porque ele vai nos matar, mas também pode ser a única resposta para nos salvar de nós mesmos e de nossas ignorâncias bitoladas e restritas.
Olive Marie ♥
