CLARICE LISPECTOR: O MAR NUNCA SE FINDA

 




Se Clarice Lispector tivesse conseguido alcançar a tecnologia, ela seria a única autora que eu faria questão de compartilhar suas postagens… Sua obra visual seria imensamente poética, disso não tenho dúvidas.


Mas em vida, ao escrever, foi ainda mais memorável. Era um sinônimo de força e de energia, foi um tsunami inteiro, engolindo Brasil e mundo, em tragos largos e linhas retas. E é assim que nos fez apaixonar pelo seu existir.


O fim da Segunda Guerra foi apenas um alavancar… Clarice Lispector ainda tinha muito a nos contar sobre o ato de sentir.


BERNA, EM SILÊNCIO


Abençoada pelo tédio em Berna, na Suíça, escreveu a obra “A cidade sitiada”, em 1946, e por volta de 1948 focou em “Mistério de São Cristóvão” e “Laços de família”. Foi neste mesmo ano que se tornou mãe de Pedro, em 10 de setembro.


Em 1949, depois de anos na Europa, voltou ao Brasil. Já viajada por vários países, autora consagrada e mãe, Clarice Lispector publicou o terceiro romance, o primeiro escrito na Suíça (“A cidade sitiada”) e ficou pouco. Em 1950 voltou à Europa, para viver na Inglaterra por alguns meses.


Depois de curtir Londres, voltou ao Brasil em 1951 e aceitou o convite para escrever seis contos para “Cadernos de Cultura”, um projeto do Ministério da Educação e da Saúde. E emendou, em 1952, o trabalho como colunista feminina no semanário Comício.


Usando um pseudônimo, a coluna “Entre mulheres” deixava Lispector ao alcance do ofício que amava: escrever sem demora. Mesmo com pouco repercussão da mídia em seu terceiro e — até então — último livro publicado, nunca deixava de escrever. Era maior do que ela, e consumia a todos que se aproximavam… Berna, que tanto a entediara, já podia ficar em silêncio sem ela. Lispector dizia tudo, com o poder da escrita, em solo brasileiro.


O DIA 10, NAQUELES ANOS 50


Paulo nasceu em 10 de fevereiro, em 1953, nos EUA. Com os pais tendo se mudado para lá no ano anterior, a criança era um acréscimo feliz a família que nunca parava em apenas um lugar. E enquanto era gestante, Clarice deu força ao que seria seu quarto romance: “A maçã no escuro”.


Foi nessa época que estabeleceu uma amizade concreta com Erico Verissimo e sua esposa Mafalda, assim como escreve sete contos enquanto vai e vem, entre Rio de Janeiro e EUA, em viagens com os filhos.


Em 1959, Clarice volta permanentemente ao Brasil com os filhos. O relacionamento que já não ia bem, rui. 


Apenas no início de 1960 que volta a ser completa. Arrecadando trabalhos como colunista e ghost-writer, quase sempre sob pseudônimos, abandona a época turbulenta dos anos 50 e renasce mais feliz. Mais livre, com certeza!


Foi nesse momento da vida que Lispector ganhou o prêmio Jabuti. A carreira só crescia, sua excelência não parava de aumentar. E em 1962, recebeu o prêmio Carmen Dolores Barbosa, pelas mãos de Jânio Quadros, em São Paulo.


DE FRENTE COM UMA HISTÓRIA INCESSANTE 


“A paixão segundo G.H.” é publicado em 1964, depois de anos em silêncio como romancista, e em 1965 lança mais um livro de contos. A vida continuava a fluir sob seu tinteiro. Clarice Lispector era imensa, e se avolumava ao redor de si mesma.


E como tudo que cresce muito rápido, uma tragédia a atinge em cheio! Ao dormir com um cigarro acesso, causa um incêndio e é tomada pelas chamas. Com parte do corpo queimado, dois meses hospitalizada é pouco se comparada com a sequela que fica, especialmente na mão direita. Com um novo corpo que não entende e que não quer ver, a depressão a atinge com força em 1967, depois de meses de tratamento pelo incêndio em 1966.


1967 trouxe a Clarice o prêmio de melhor livro infantil, depois da publicação do livro “O mistério do coelho pensante”, que escreveu para o filho caçula quando ainda vivia com o marido nos EUA. Nesse mesmo ano começou a publicar crônicas e aumentou o repertório de produção, por causa de um convite de um amigo, se tornando ainda mais memorável.


Entre várias publicações que correram nos anos seguintes, Clarice Lispector ganhou prêmios, produziu obras infantis e lançou contos e crônicas. E em 1975, em no 1º Congresso Mundial de Bruxaria, que acontecia em Bogotá e onde leria seu conto “O ovo e a galinha”, passou mal e teve que abrir mão de ler o próprio conto.


Ainda em 1975, começou a pintar. Produziu uma média de 18 quadros e chegou a ser reconhecida como pintora no Instituto Moreira Salles, em 2009, em uma homenagem póstuma… Mas antes disso, entre 1975 e 1977 concedeu entrevistas populares, escreveu e publicou.


Em 1977, quase no fim, publicou seu trabalho mais famoso: “A hora da estrela”. Enquanto isso, tomava notar para um romance que chamaria de “Um sopro de vida”, mas a vida a nocauteia novamente.


Depois de uma cirurgia, sua família e amigos descobriram um câncer de ovário já avançado e a mantiveram internada. Sem saber de nada, Clarice Lispector teve companhia das irmãs e de amizades próximas nesse momento que antecedia sua despedida final, e foi o que fez.


Clarice Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário, e foi enterrada no domingo. Aos 56 anos, seu legado a fazia parecer ter 100 anos à mais.


Quando Clarice Lispector morreu, o mundo morreu um pouco também. É lastimável assumir isso, mas é real. Não há mais literatura nacional como houve um dia, porque não há história nova sem Clarice Lispector, e o que nos resta é aceitar. Porém, como foi muito celebrada em vida, é reconfortante saber que sua história não morreu com ela.


Adaptações de seus trabalhos seguiram existindo aos montes, mesmo que apenas em interpretações escolares. Sua obra completa continua rodando o mundo, suas traduções fizeram do brasileiro um povo mais propenso a ler obras que antes não conheciam, e seu trabalho como cronista uniu mulheres de todo o Brasil.


Clarice Lispector é insuperável!


Olive Marie ♥