Judite decapitando Holofernes: um reflexo da América Latina
Quando Artemisia Gentileschi pintou “Judite decapitando Holofernes”, ela estava retratando a busca feminina por justiça. E falava com conhecimento de causa…
No fim da adolescência, Gentileschi foi violada por Caravaggio enquanto tomava aulas de pintura com ele. Seu pai tinha encarregado-o de lhe ensinar arte, mas a lição foi outra: a justiça falha.
Caravaggio já era um conhecido assediador. Ele tinha antecedentes, mas como nunca nada tinha lhe acontecido, foi fácil abusar do seu poder de professor para roubar a paz de Gentileschi. Mas ela revidou!
Depois de um processo complexo, com testemunhas e tudo, as coisas se acertaram e ela até mesmo se casou e mudou para longe da cidade natal. E com a mudança, ela começou a ganhar fama.
Pinturas encomendadas não paravam de chegar, e algumas de suas obras mais famosas provam isso pelo uso do azul caro que usava em suas pinturas. Mas mais do que isso: Artemisia Gentileschi começou a pintar o feminino barroco de uma forma não vista antes.
Ela pintou Madalenas, pintou Judites… Gentileschi pintou, majoritariamente, a visão sacra do homem tentando devastar a vida feminina — e preferencialmente jovem.
VIOLETA
Eu faço leituras conjuntas com uma amiga, e para janeiro escolhemos a obra “Violeta”, de Isabel Allende. Despretensiosamente, encontrei uma referência a obra “Judite decapitando Holofernes” logo nos primeiros capítulos, quando a protagonista descobre um corpo desfalecido na sua casa.
Ainda criança, ela encontra o corpo com um tiro e o associa à obra. Sem direcionamento claro, fica ambíguo sobre que versão ela tenta incutir ao seu ouvinte quando menciona a obra: Caravaggio ou Gentileschi?
Curiosamente, Caravaggio era um pintor barroco, e por isso ele pintava obras do gênero. Quando Gentileschi conseguiu que ele fosse de fato acusado por tê-la violado, uma forma de se vingar foi reproduzir pinturas que ele mesmo já tinha feito, mas de forma muito mais bonita e profunda.
Na versão dele, o músculo do pescoço está mais exposto, mas o sangue do abusador ditador é quase teatral. A cor e o ângulo do jorro são caricatos, como um esguicho. Um esguicho que corre em linha reta, mas só suja o travesseiro.
Gentileschi, como é possível ver, fez diferente.
REFERÊNCIAS LATINAS
Quando Gentileschi pintou Holofernes perdendo a cabeça, na sua vidinha artística daquela Itália antiga, ela pintava Caravaggio. Não é segredo!
Se olharmos a Judite de Gentileschi e as suas versões de Madalena — que alguns historiadores alegam poder ser autorretratos —, entendemos que era ela dando fim ao seu algoz. Sua Judite também é mais velha, está buscando vingança…
Ela não tinha como saber que, séculos depois, a obra ainda faria referência em uma obra literária da América Latina. Ela, provavelmente, nem sabia que sua arte resistiria tanto.
E afirmo que é a obra de Gentileschi, e não de Caravaggio, que Violeta faz menção no livro de Allende porque a descrição gráfica do corpo encontrado parece mais com o de Gentileschi. É o que sinto… Eu simplesmente sei que essa é a referência.
Ainda assim, ao falar da queda da bolsa de 1929, do impacto capitalista quase imperial dos EUA sobre a América Latina e a forma como eles nos enxergam como seu quintal… Violeta deixa claro que ela é uma mulher jovem lidando com a catástrofe de homens velhos cedo demais. A América Latina é aquele corpo no chão.
3 DE JANEIRO DE 2026
A América Latina sempre teve suas próprias guerras para lutar. Isso é um fato!
Tivemos — e ainda temos — que lidar com ditaduras impostas por nossos próprios políticos. Descasos, questões de rombos em cofres públicos, países inteiros descendo e sucumbindo na fome e na agonia.
Os golpes brasileiros de 1964 e 2016, a tentativa de um golpe mais direto em 2022… O Brasil sabe o que golpes querem dizer. E a América Latina inteira tem suas próprias versões disso. Nosso povo sabe, nossa memória social se lembra.
E nós sempre resistimos
Quando um governo de fora decidiu invadir a Venezuela em 3 de janeiro de 2026, todo mundo se indignou. Mas não porque eles fizeram o que sempre fizeram (se meteram em ditaduras latinas, seja com financiamentos ou “jogos de azar”, com intuito de tirar proveito próprio), agindo como se a América Latina fosse seu quintal de casa. Mas nos indignamos porque isso nos tirou do mapa da paz.
Historicamente, nossas guerras são nossas. Travamos guerras contra a Europa apenas em épocas de conquista pelo nosso território e sua soberania, mas estar direta e abertamente envolvidos em guerras com outros territórios… Isso não. Isso nunca.
E mesmo que não pareça uma guerra, porque ainda não há pânico absoluto, ainda assim é guerra. Não só do povo venezuelano que morreu naquelas explosões e que vai continuar sofrendo mesmo com Maduro e sua ditadura fora; mas porque agora a América Latina não é mais neutra.
Sabemos que, a partir do momento que um governante de outro país nos invadiu, sequestrou um de nossos líderes (unicamente por causa de petróleo e ouro, e narcotráfico não tem nada a ver com isso), estamos todos em alerta. Se deu certo lá, uma vez, pela primeira vez na história, o que nos garante que não vão tentar de novo?
Roubar a soberania de um povo, seja com jogos capitalistas ou com intervenção direta, é errado. Não há outra forma de encarar isso. É errado, e seria errado mesmo que fosse uma real tentativa de ajuda e libertação de um povo. Quem deve lutar batalhas contra seus governantes é o próprio povo, não os países ao redor. Ponto!
Ler “Violeta” nesse momento, tocar essa referência visual… Acho que está na hora da América Latina se tornar Judite. Está na hora de mostrarmos aos impérios do Norte que não somos dobráveis, negociais e nem manipuláveis. Está na hora de honrarmos nossa soberania.
E com nossos poderes de riquezas (ouro, petróleo, alimento), podemos decapitar Holofernes sem derramar uma única gota de sangue.
Olive Marie ♥
