ABAPORU: O BRASIL QUE SE MANTÉM
Me lembro que conheci a obra de Tarsila do Amaral ainda muito nova. Com o privilégio de estudar em colégios particulares, era fácil acessar qualquer coisa de arte, independente do conteúdo. E é triste pensar que esse é um privilégio de bolsistas e ricos, e é triste entender que o acesso ilimitado à arte existia porque as escolas em que estudei eram realmente boas.
E digo isso porque, anos mais tarde, ao conversar com uma amiga que estudou em colégio particular de menor porte, descobri que suas aulas de arte eram sobre os alunos criarem algo e não sobre conhecerem a história da arte… Curioso, porém não incomum.
No entanto, falar de Tarsila é sempre um reflexo automático para mim. Incansável até! Eu adoro sua obra, sou fã da forma como ela criava, e admiro sua força ao pintar coisas que, em seu tempo, mulheres não estavam tão habituadas a pintar. É poético!
Entre as obras que mais gosto dela, “Abaporu” alcança meu pódio. É realmente monumental a forma como existe… Eu adoro! Mas vejo mais do que seu tempo nessa obra, e talvez seja isso que a torne mágica para mim.
SERTANEJOS
Pintada para representar os trabalhadores sertanejos, com mãos e pés grandes refletindo o trabalho pesado e braçal, e cabeça pequena em contraste, deixando claro o pouco espaço de educação formal e acesso à cultura, a obra é revolucionária.
Tarsila do Amaral queria fazer uma crítica direta ao estado brasileiro, pincelar com classe a forma como o acesso à cultura e à educação era precarizado. E foi cirúrgica! Funcionou e se mantém atual.
Com vários trabalhos análogos à escravidão ainda permeando o país, com muito dissabores políticos e uma democracia que funciona apenas em partes, a tela segue sendo assertiva. Vivemos mesmo em um país com mão de obra barata (nosso salário mínimo é vergonhoso) e pouca distribuição cultural e educacional. Criticar um dos principais educadores brasileiros, responsável por abrir as portas da educação para analfabetos e semianalfabetos virou padrão.
É a época do analfabetismo funcional!
Mas tem gente que se orgulha, que acha lindo… Acha que atacar educadores e universidades, descredibilizar o SUS e virar advogado gratuito de bilionário resolve alguma coisa. Na maioria das vezes, pessoas que dependem desses mesmos sistemas públicos porque (surpresa!) o dinheiro está entrando apenas nos bolsos dos bilionários e educação e saúde paga saem caro demais. É ridículo!
E é tão triste que chega a ser engraçado, mas também é curioso… Quase um estudo social mesmo, ao entrar nas redes sociais e se deparar com esses discursos estranhos. E é antropofágico, como o próprio “Abaporu”.
ANTROPOFAGIA DIGITAL
A primeira vez que aprendi algo sobre o movimento antropofágico, fiquei muito empolgada. Cheguei em casa feliz pedindo uma tela e tintas, porque o dever de casa era reproduzir o “Abaporu” em um quadrinho para a feira de arte da escola.
Ninguém me contou que a palavra vinha de um conceito canibalesco, de homem devorar homem. Só disseram que o conceito do movimento era consumir arte estrangeira para criar uma identidade pessoal. Não entendi o peso disso na época… Eu era uma criança pequena desenhando um “Abaporu” imenso em uma tela minúscula, com um fundo que mais me apetecia. Eu não entendia nada de política. Eu não entendia nada de arte.
Mas algo eu entendia… Meu quadro tinha prédios de concreto e bicudos, irregulares nos topos, e a mão que toca o chão tinha um pequeno girassol. Lembro que tirei 10 naquela tela e depois que a reposição acabou, deixei ela na prateleira sob a escrivaninha do meu quarto por anos. Bem ao lado do meu porta CDs de menininha, que acumulava a coleção completa dos álbuns da Pitty e da Avril Lavigne.
Minha mãe disse que era bonito, meu tio-avô foi mais consciencioso. Ele me perguntou como tinha decidido fazer aquele cenário tão cinza e triste no fundo, e no auge dos meus sete anos de idade eu disse: “queria que ele parecesse estar em um lugar moderno”.
Canibalizei Tarsila do Amaral de uma forma bizarra. Completamente decadente. Sua obra já era moderna, abraçava os tempos atuais, mas eu ainda estava pensando no 11 de setembro, nos prédios da cidade em que morava, e em como a obra dela parecia feliz demais se o meu mundo era cheio de prédios altos em construção.
Eu não tinha noção concreta de tudo isso, é óbvio. Mas algo ali estava certo. No entanto, a antropofagia de tal quadro se adequa hoje ainda, mas de forma diferente. Agora estamos digitalizados, e as mãos e os pés grandes podem representar um comodismo social que tem membros pesados demais para se mover e aderiu ao consumo delivery em excesso, até mesmo o emocional.
Parece que a cabeça pequena é tudo que resta… Não precisamos pensar demais se podemos scrolar o feed.
O QUE AINDA DEVORAMOS
Eu passei a infância assistindo ao canal Cultura. Em especial, porque eu não tinha TV à cabo. Mas isso me fez bem.
Foi assistindo Cultura que eu aprendi sobre arte e história com “Castelo Rá Tim Bum”, aprendi sobre geografia e política com “Os camundongos aventureiros”, entendi algumas coisas de matemática com “Cyberchase”, biologia com “Zoboomafo” e ética com “O pequeno urso”. A canção “Fome Come” toca na minha cabeça até hoje e me ajudou a saber que mulher eu queria ser quando crescesse…
Acho que tudo isso me fez aprender que entretenimento pode sempre nos ensinar algo. Talvez venha daí essa minha obsessão por escrever sobre coisas que parecem tão inofensivas para todos. Tudo que me diverte e entretém, sempre me ensina algo. E sou feliz por isso, porque quando eu quero apenas me entreter, eu consigo diferenciar o que faz minha cabeça desacelerar e o que a alimenta.
Ainda estou devorando. Mas em um ritmo diferente… O resto do Brasil — e do mundo — está devorando coisas diferentes e vivendo em um ritmo em que os pés pesam para caminhar para frente, as mãos são longas e pesadas ao scrolar e a cabeça está tão consumida que vive em pensamentos de manada e baixa noção social.
O analfabetismo funcional fazendo efeito novamente. E é mesmo curioso!
Nos resta pouco para dialogar, porque tudo passa muito rápido no feed e um assunto engole o outro. “A fome come”, mas come o quê?
Temos um grande youtuber virando apresentador de um dos programas mais tradicionais da TV aberta, em um quadro para falar sobre saúde mental, em quadro que ainda nem estreou… E todo mundo já odiou. O pensamento geral é que ele não é qualificado e que isso vai gerar desinformação. E eu até concordo, mas também me pergunto: não é isso que nós mesmos buscamos?
Espero que esse exemplo seja tolo quando o quadro estrear e que o Felca tenha uma equipe responsável por trás, com informações de peso que realmente vão educar a população. Mas se não for assim: o que muda? As pessoas já estão acomodadas, seguindo e compartilhando influenciadores que divulgam golpes e usam de seus números para entrar para o meio dos bilionários e esperar que a sociedade inferior na pirâmide social siga se canibalizando entre si.
No fim das contas, o Brasil ainda é o mesmo. A antropofagia nunca foi tão atual. Mas dessa, Tarsila não teria orgulho.
Olive Marie ♥
