STRANGER THINGS: O REFLEXO ÓBVIO DE NOSSA ERA

 




Assisti “Stranger Things” com um pequeno atraso de uma semana, mas precisei de mais tempo para elaborar como dizer o que vou dizer sem ofender os direitos humanos digitais…


Eu gostei!


Polêmico, mas realista. Especialmente porque me parece óbvio que fosse ter quebra de expectativa geral da obra depois de quase 10 anos. Fora o tempo de espera, os atrasos, a pandemia… Só eu que recebi mais do que esperava?


Gostei bastante da história final, na verdade. Cumpriu bem seu papel, teve sutilezas óbvias para mim, coisas que encerram perguntas que as pessoas parecem ainda estar buscando respostas na internet. Porém, o que mais gostei não foi a finalização de cada personagem, mas sim a complexidade de debochar do estado de sítio que a internet tem estado nos últimos 10 anos.

PEDOS E SILÊNCIOS 


Seja pela lista “politizada” do Epstein ou pela sinistra queda de P Diddy, o mundo ruiu nos últimos anos com acusações sobre pedof***as, abusos de vulneráveis e silêncio bem pago dos poderosos.


Temos um monarca e pelo menos dois presidentes estadunidenses mencionados em um dos casos, e nomes imensos da indústria do entretenimento em ambos, mas mais escandalizado no outro. É um caos nada surpreendente, porém enojante.


No Brasil, a abordagem foi tão avassaladora quanto, e a denúncia veio de quem ninguém esperava: um youtuber conhecido por fazer humor da bizarrice alheia. E para nossa surpresa, ninguém se calou dessa vez.


O mundo está mudando, essas denúncias não são mais abafadas pela mídia e o poder não as compra mais, mesmo que vários deles ainda estejam soltos. Mesmo porque, todo mundo conhece seus rostos.


Ter o Vecna roubando crianças, ao melhor estilo serial killer, expõe um pouco mais de um cenário crítico e mais silenciado. Os “pedos” são pessoas, normalmente, como o sr. Fulano se intitula. São “defensores dos bons costumes”, com suas apreciações pelo passado e o discurso quase convincente de que estão fazendo mais bem para as crianças do que mal.


Para mim, ficou bem óbvio que a provocação poderia ter essa interpretação metafórica ao notar que adultos e adolescentes (RIP Barbie) são instantaneamente devorados quando passam para o outro mundo, mas as crianças são usadas de “alimento” intelectual e emocional. 


“Stranger Things” é uma série de ficção científica, e a principal meta do gênero é usar de metáforas para denunciar dores do mundo real e problematizar com amplitude temas que ninguém parece estar notando. Nesse quesito, para mim, deu match.


Até a narrativa do Will traumatizado, se questionando se ter sido usado pelo Vecna e pelo Devorador de Mentes, o torna igual a eles. É como uma cadeia maligna… O Devorador de Mentes é um pedo velho, talvez até já falecido, enquanto Henry (que foi sua vítima), sofreu um trauma tão potente e se igualou a ele, não aceita que foi de um abuso que notou suas tendências também abusivas.


Will foi só a ponte para ele descobrir que queria mais. Mas o Will não é como eles. Will é um denunciante deles para o mundo real. Ponto! 


O FEMININO DOS BASTIDORES


Não apenas o MeToo, mas também os protestos feministas e as manifestações abertas contra governos ditatoriais que buscam calar a voz e os direitos femininos são tópicos que também se intensificaram nos últimos dez anos.


Quando a série foi lançada, ter uma protagonista poderosa que ajuda a salvar o dia parece só mais uma narrativa ok. Nada demais, afinal, “O conto da aia” e “Fleabag” são tópicos já conhecidos de seu tempo. Mas quando temos uma temporada final inteira protagonizada por mulheres, talvez a narrativa precise ser analisada com calma.


De novo: ficção científica tem como meta usar de metáforas para cutucar o mundo real.


Temos Karen debilitada salvando os protagonistas, temos Max aprendendo a derrotar o Henry, temos a Eleven se sacrificando pelo bem maior, temos a Nancy fazendo estragos, temos a Robin descobrindo caminhos, temos a Érica sendo um crânio, temos a Holly guiando as crianças sozinha e temos a Joyce decapitando o mal encarnado.


E que cena linda… Joyce lavou a alma de todo mundo naquele final!


Talvez o ponto seja exatamente esse: lavar a alma. Ter mulheres, que estão em minoria nessa equipe, fazendo mais do que os homens é revelador. É um grande alívio, eu assumo.


Outro acerto que cutuca uma base bem sólida dos discursos estadunidenses no momento: mulheres podem e vão falar, e ninguém vai fazer nada sobre isso.


LGBTQIA+ E O DISCURSO DIRETO


Quando a Robin se abre sobre ser lésbica e quando o Will se abre sobre ser gay, estamos abraçando uma Nova York revolucionária nos anos 80. O auge da liberdade sexual, dessa vez, não ao estilo hippie que abraça a versão “paz e amor”, mas sim a liberdade sexual da discussão de gênero e de abertura sobre relacionamentos não heteronormativos.


O discurso direto faz todo sentido também. Na verdade, “Stranger Things” inteira casa bem com o discurso da metáfora de “ter que se assumir”.


Uma amiga fez piada sobre a Holly e o Derek serem as únicas crianças que mais usam roupas coloridas naquelas 12, e que talvez esse seja o caminho deles para se entender. Derek sendo homo e Holly sendo bi. E apesar de ter sido só uma piada, até que faz sentido.


Na fritada dos ovos, a série toda parece bater nessa tecla da descoberta sexual durante a adolescência, de como as coisas acontecem, do enfrentamento dos hormônios e de como lidar com isso a longo prazo.


Quando Nancy fica com o Steve na primeira temporada, a Barbie morre. É pela Nancy que ela grita, antes de continuar com o Steve, é na Barbie que a Nancy pensa. Seria uma demonstração da dúvida normal desse momento da vida?


Will também era o que usava roupas mais coloridas na infância, seus amigos usavam cores neutras. Enquanto Nancy e Barbie usam roupas pastéis no começo, os assumidamente heteros usam roupas neutras, as crianças assumidamente homo abusam do colorido? Outra metáfora bem estruturada?


Não há amarras para teorias sobre o que a série quer dizer em linguagem do mundo real. Ficção científica é isso aí… É crítica. É abordagem e interpretação. Somos livres para deduzir.


O mundo mudou nos últimos 10 anos, o mundo se rachou como Hawkins, há puritanos querendo endeusar o passado e há revolucionários com força para esfregar o presente e o futuro nessas regras ridículas de “bom comportamento”. 


Polêmico, mas sincero: eu gostei. Fez sentido. Seja na metáfora ou na diversão pela diversão. 


Olive Marie ♥