A DISSOCIAÇÃO: 29 ANOS DE PESO
Peguei um livro emprestado na biblioteca, e ele se chama “A dissociação”. Francês, para me lembrar que aprendi esse língua e que, em muitos momentos, foi ela quem me salvou da dor da permanência na vida.
Falar francês salva, eu descobri…
Mas não é isso que me comove no livro. O livro em si é só um detalhe que me fez pensar no quanto eu dissocio, e em quando descobri que isso não era normal. Novamente: a mágica de ser uma estranha dentro da multidão.
A escola não foi simpática. Eu tinha 10 anos, estava parada no começo da fila (eu ficava na frente porque era a mais baixa da sala e queria sumir por ser mais de 10 centímetros menor do que a segunda da fila), no fim do intervalo. A professora nos organizava em duas filas indianas para voltar para a classe. Na das meninas, eu ficava na frente, sempre no mesmo ponto do pátio.
Meu lugar era entre os dois quadrados coloridos do chão, as pontas dos pés alinhadas na depressão do piso que marcava o fim do quadrado azul claro e o começo do azul escuro. De frente com o meu posto diário, um lixo com cabeça de palhaço servia de tampa… Eu achava aquele palhaço bizarro, a boca aberta para engolir nossas mãos quando despejamos nossos restos nele.
Eu parava de pensar. Meus olhos ficavam vidrados em frente, sem um ponto exato, e eu não ouvia nada ao redor. Todo dia a mesma coisa. Eu não sabia que fazia isso… Até alguém me contar.
A MAIOR ARTE DE TODAS
Uma vez, completamente dissociada, uma garota da minha sala me pegou pelos ombros e me chacoalhou. Ela disse que já era a terceira vez que me fazia a mesma pergunta e descreveu o que eu estava fazendo. A cena parecia bizarra para ela.
Eu não sabia dizer no que estava pensando, meu cérebro entrava em combustão de ideias, pensava nos livros que estava lendo e nos que queria escrever, refazia os meus passos do dia anterior e repassava as coreografias do ballet mentalmente. Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. Era um luxo que, eu achava, todos tinham.
Quando ela me explicou como eu ficava, disse que isso a assustava e que eu fazia isso com frequência. Afirmei que todo mundo fazia, e foi então que ela disse: “não, só você faz isso. Parece que você está possuída. Todo mundo da sala acha isso.”
Odeie ser assim. Me julguei, me comparei, me ridicularizei… Tentava estar presente 100% do tempo. Não queria ser mais aberração do que já parecia. Mas só descobri o que isso era anos depois, já adulta.
Quando meu psiquiatra disse que isso era dissociar e que eu fazia isso para regular meu cérebro e meu comportamento, que minha condição psicológica exigia a dissociação, mesmo que eu não fosse atípica, relaxei. Mais pessoas eram como eu, eu só não as conhecia. Parecia plausível!
Revisitando minha vida, entendi que eu só fazia isso quando estava muito entediada, muito preocupada ou muito assustada. Quando o impacto de sobrevivência precisava agir, meu cérebro se defendia primeiro e eu abria a mente para mim mesma enquanto a fechava para o mundo.
A protagonista do livro faz a mesma coisa…
CARTAS E MAIS CARTAS
Você que está lendo isso pode não saber, mas eu comecei a escrever em blogs quando tinha 15 anos. Há bons 14 anos atrás…
Minha psiquiatra da época que sugeriu, como um diário virtual, para que eu escrevesse sobre livros e “tivesse com quem conversar”. Funcionou. Funcionou muito. Eu era solitária e isso me ajudou.
Criei o “A garota da página ao lado” e o usei por muitos anos. Vieram outros depois… Eu escrevia só sobre livros, como estou fazendo agora, com o novo blog que fiz especialmente para publicar resenhas. Não sei se me faz exatamente bem, mas me distrai.
Quando escrevi o último texto de 2025, abrindo o coração sobre a minha desesperança para 2026, estava falando sério. Estou ferida ainda. Não sinto que esse vai ser um bom ano para mim, mesmo que eu queira acreditar nisso verdadeiramente.
Outra informação que você, que me lê, não tem: meu psiquiatra lê esse blog. Na verdade, é mais uma longa conversa minha com ele, temas que eu elaboro antes ou depois de longas consultas intensas, regadas a choros copiosos, reclamações incessantes e aflições que parecem não aborrecer mais ninguém. E na maioria das vezes esses textos fecham ciclos de ideias que precisam ser curadas (como quando escrevo sobre minha adolescência), ou então, esses textos abrem minha mente sobre coisas que sinto e não sei nomear (quando surto e escrevo umas asneiras).
Faz eu me sentir menos sozinha. Sinceramente faz. Alaga dores, acalma saudades, abraça perdões… Me sinto livro, quase como uma borboleta recém-nascida. É cataclísmico!
Quando escrevi “Carta aberta”, não achei que fosse render…
ENTRE O LIVRO E A REALIDADE
Quando a protagonista de “A dissociação” fala da experiência de se desligar do corpo e ficar em um lugar sublime entre si mesma e o vão que é a vida ao redor, abraço a ideia e me entedio. Eu sei qual é a sensação de dissociar, e talvez seja isso que me irrita na história (ainda não acabei).
Mas isso não é uma resenha.
Esse texto é uma explicação… Quando vejo visualizações dos meus textos que veem da Rússia, da China, de Singapura e alguns outros lugares, me questiono. Eu não conheço vocês… Vocês estão mesmo me lendo? Sabem que o que estou escrevendo é um vão para ler minha alma? Entendem que isso aqui é quase como assistir às minhas consultas psiquiátricas?
Meu psiquiatra disse que, já que isso me faz sentir observada de um jeito peculiar, deveria não dissociar e entender isso como uma popularidade tardia, aquela mesma que não estava presente quando tinham festas de aniversário de meninas da escola e eu não era convidada porque não era popular. Pois é… Surpreendendo um total de zero pessoas.
Enquanto o livro francês fala de uma pessoa com nanismo, alguém que dissocia para sobreviver, reflito sobre o quanto estava dissociada quando escrevi aquela carta no fim de 2025. Para compensar, quero transformar esse lugar em um diário mais sincero. Sem usar nomes, claro, mas sendo mais aberta possível.
Falar abertamente sobre dor e mágoas, explicar algumas coisas. Me abrir! Fazer o que fazia com 15 anos… Vai que ajuda?!
Dito isso, minha versão de 15 anos fica contente ao te convidar para ler minhas observações sobre livros lá no meu novo blog, o Nouveau Chapitre. Eu juro: lá eu só escrevo sobre livros!
E quando eu escrevo sobre livros, eu não pareço uma doida completa. Não o tempo todo, pelo menos. Prometo! Que tal você me ler lá e, quem sabe, conversar comigo sobre livros de vez em quando. Preciso de dicas novas de livros, sério. Ando lendo muito o que me indicam e pouca coisa tem me deixado feliz.
Dito isso: vou inaugurar o mês do meu aniversário como um novo começo para o blog. A partir de hoje serei mais aberta e comunicativa, menos introspectiva. Eu começar a dar abertura, contar histórias com mais detalhes e tentar tratar tudo que dói. Preciso que 2026 seja bom em algo, e quero que seja nisso.
Olive Marie ♥
