SENHORITA PENDLETON: O DARCY DOS MEUS SONHOS

 




Eu nunca tinha tido o mínimo interesse em ler manhwas. Isso porque eu fui a criança mimada que tinha um irmão mais velho que lia mangás.


Curiosamente, nós dois tínhamos tendências asiáticas afloradas… Uma de minhas tias por parte de mãe tem horror a japoneses. Dado seu histórico problemático com a família do próprio marido que tem parentes asiáticos, ela surtava todas as vezes que via alguém minimamente parecido com um japonês. Para ela: ter olhos inclinados e cabelos muito escuro já basta.


Minha avó seguia à risca a recomendação da própria filha a ter horror emocional a amizades asiáticas, porém, meu irmão e eu éramos duas ovelhas desgarradas. Esse preconceito nem chegou a tocar nos nossos pés.


Pelo contrário!


Nosso dentista é japonês, tínhamos vários amigos asiáticos no período da escola e consumimos massivamente a cultura oriental. Nosso genitor era muito amigo de japoneses, nossa mãe incentivava o desbravar da cultura… É preciso dizer que houve um surto de preconceito quando nossa tia descobriu que ele colecionava figuras de ação de “Cavaleiros do Zodíaco” e eu de “Sakura Card Captors”, que nosso hobby nos fins de tarde era assistir animes e que, olha só que coisa: ambos tínhamos tendências a achar asiáticos atraentes?!


Mas houve uma ruptura…


ENTRE A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA 


Meu irmão foi o culpado por me fazer gostar muito do Japão. Ele era apaixonado por animes, lia mangás e colecionava figuras de ação. E meu irmão era meu herói.


Quando eu entrei na adolescência e comecei a ter permissão para ler mangás e assistir os animes violentos que ele assistia (porque ele já era adulto e podia, e finalmente minha mãe me deixaria consumir as mesmas coisas), meu irmão se tornou uma pessoa horrível.


Obviamente ele sempre foi, mas foi nesse momento que ele “colocou as garras de fora” e eu passei a demonizar tudo que ele gostava. Meu tratamento fez efeito sobre isso recentemente apenas, e já se passaram anos demais da minha adolescência. Como consequência da ruptura com o meu irmão, animes e mangás se tornaram causa de asco.


Só que eu fiz amigas que me deixaram perturbada. A maioria gosta de manhwas, que são “mangás”, só que coreanos. E o problema disso é que uma delas em específico, pegou no meu ponto fraco…


L. fez questão de achar um manhwa que tem uma história ao estilo Jane Austen e eu me senti obrigada a ler. Essa peste, sem saber, tocou em um ponto peculiar da minha busca pessoal por paz: ela trouxe meu eu da infância e da adolescência de volta.


ENTRE AMIZADES E “AMORES”


Tenho muitas amizades asiáticas. O único cara que eu achei atraente na adolescência é japonês e eu finjo que nada disso acontece. Depois da questão de ruptura com meu irmão, lidar com as minhas amizades asiáticas se tornou algo que eu fazia sem olhar nos olhos da questão.


Amo imensamente todos e todas, mas jamais encarei de frente suas culturas, mesmo que eu coma comidas coreanas, japonesas e chinesas. Mesmo que eu tenha participado ativamente de suas festas de casamento. Mesmo que eu assista alguns animes e mesmo que eu adore kdramas de romance. Mas eu me resguardo o máximo possível com várias questões culturais, porque o peso emocional de lidar com isso é esmagador.


Parece bobagem, mas são questões mais complicadas… No entanto, essa amiga me sugeriu esse manhwa, que eu obviamente iria amar.


E eu obviamente amei.


Ler esse manhwa me trouxe lembranças diretas do meu irmão deitado ao meu lado na cama dos nossos pais, lendo mangás enquanto eu ficava olhando os desenhos bonitos e ouvindo Sandy e Junior.


Meu primeiro amor foi o Shiryu, porque meu irmão assistia “Cavaleiros do Zodíaco” e eu achava fascinante o Shiryu ser um dragão. Tinha o Lee Shang antes dele, e obviamente eu tenho o Kurt Cobain como auge do homem ideal (tirando a questão das drogas e tudo isso), mas o Shiryu foi o meu grande amor.


Teve o Toya também, depois… E a coisa só piora. Mas a questão é que existem três homens que me desequilibram os chakras (e sim, essa é uma piada constante entre as minhas amigas): Kurt Cobain, Shiryu e mr. Darcy.


Um é real (apesar de falecido já), o outro é o auge da beleza em 2D e o outro é o meu par literário ideal. Todos os três, como você vai observar, são figuras sérias, emocionalmente difíceis de lidar e com total espírito de gato preto. Dito isso: eu tenho um padrão.


A TERAPIA ‘TÁ PAGA


L., que é uma das minhas melhores amigas, me deu meus três homens ideais em um só: a história do mr. Darcy, com o comportamento rendido do Kurt Cobain (ele era um grande filhotinho de golden perto da esposa) e com a aparência MUITO similar ao Shiryu. 


Foi assim que ela me levou a óbito! Aquela safada…


Mas a terapia está em dia. E eu quase caí das pernas quando reclamei disso na terapia e tive que escutar: “você reclama disso a sério aqui e não para ela, porque é mais fácil rir de si mesma com suas amigas do que assumir que seu desconforto é culpa de um padrão”.


Adorável, minha psicóloga, é claro!


Mas ela está certa. Obviamente eu não estou brava com a L., estou desconfortável porque meu padrão triplo foi alcançado com sucesso, mas no emocional eu só vejo o irmão — que eu amava ter e hoje odeio que exista —,  porque é assim que meu cérebro funciona.


Ler o Darcy dos meus sonhos tocou na ferida familiar de uma mulher nunca curada, apesar de tratada, medicada e controlada. Meu desconforto com isso mexe em áreas que não consigo evitar tocar, o que me frustra e me dói. Mas a vida segue e tudo bem eu ter que lidar com o meu desconforto a longo prazo.


Não preciso dizer que estou amando o manhwa e que entrei nesse mundo com o pé direito. Mas é preciso deixar registrado que, a longo prazo, os danos psicológicos serão irreversíveis.


Olive Marie ♥