MATILDA: O ÁPICE DA TRISTEZA PESSOAL
Eu não gosto do Harry Styles. Não gosto mesmo. Acho ele uma fraude emocional, e tudo bem. Não tenho nada com a vida que ele tem ou que decide ter. Só não gosto dele.
Harry Styles me cheira a esquerdomacho. Sinto que ele força demais ser um cara legal… Tenho razões fortes para ter essa visão.
Mas Mariana o amava. E o amava intensamente.
Quando essa praga morreu, eu fiquei irada. Fiquei brava com as amigas dela por terem escolhido caminhos que eu odiava; fiquei irada com ela por não ter me pedido ajuda; e fiquei ainda mais irada porque ela tinha morrido.
O luto, meus caros, é um saco!
Fiquei ainda mais irritada com o Harry Styles…
NADA COM NADA
O coitado não tinha nada com o meu luto. Pobrezinho! Sem nem saber de nada, recebeu uma dose extra do meu ódio emocional.
Fui cruel! Passei momentos inteiros ficando irada porque ela tinha morrido, e ele continuou existindo. Mas não porque ele existia de fato, mas porque a existência dele me lembrava, permanentemente, que ela não existia mais.
Obviamente que ela existe. Sempre vai existir.
Enquanto eu estiver viva — e pouco me importa que ninguém mais se lembre dela —, Mariana sempre vai existir também. Vai existir na voz que eu ouço no pé do ouvido quando estou prestes a surtar, vai existir na gargalhada que eu escuto quando vejo um vídeo besta na internet, vai existir quando eu me irrito quando descubro que mentem sobre ela e que ela aceita isso.
Mariana vai sempre viver em mim. Eu sou imensamente incapaz de abandonar ela. Ela me prometeu que estaria aqui por mim, para sempre, e não pode mais cumprir a promessa de corpo presente. Mas eu posso. E vou!
Então, como toda pessoa enfrentando o luto: eu tive raiva.
Raiva das situações, raiva dela e raiva do Harry Styles. Como ele ousava me lembrar que ela não estava mais aqui?
Então eu ouvi “Matilda”.
YOU CAN LET IT GO
Eu sempre vou odiar esse cara. Sujeito besta!
Um eterno lembrete irritante de uma perda insuperável. Um eterno lembrete de um amor que, provavelmente, ela não sabia de todas as profundezas.
Mas quando eu ouvi “Matilda” eu chorei como uma condenada à morte. Era a minha própria força sendo montada… Eu poderia seguir em frente.
Obviamente eu segui, mas também não segui.
Depois de um tempo, eu voltei a trabalhar. Depois de um tempo, eu dei a primeira risada. Depois de um tempo eu abracei a perda. Aprendi a lidar com o luto, não a superá-lo.
Ainda estou aprendendo como é um mundo sem ela, mas “Matilda” me disse que eu deveria seguir em frente. E pela primeira vez na vida, Harry Styles fez sentido para mim
Só que sempre que eu ouço essa música, eu ouço a voz dela cantando. Não a dele. Na minha cabeça perturbada, quem me diz para seguir, para tentar ser feliz e para tentar construir coisas novas, independente das antigas, é ela.
E sempre que eu ouço Harry Styles, eu ouço Mariana.
O PICO
O luto é como uma montanha. É quase como um vulcão…
A gente sobe tudo aquilo sentindo os processos negativos. Vem a negação, a raiva, a barganha e a depressão. Quando alcançamos o topo, surge a aceitação.
Eu fiquei na negação uns bons 20 minutos. Eu não aceitava. Eu não entendia. Eu não conseguia assimilar e nem conceber.
A ideia de passar dias sem saber piorou tudo… O descaso e o deboche de determinadas pessoas me fez demorar mais para absorver. A negação foi rápida.
Quando surgiu a raiva, eu apaguei. Virei um monstro insuportável que passou mais de sete dias habitando a minha própria vida sem a capacidade básica de interagir. Eu só conseguia ter raiva. Em especial, dela. Eu fiquei insana de ódio de ela não estar cumprindo a promessa de ficar ao meu lado para sempre.
Quando a barganha chegou, lá pelo segundo mês, foi assustador. Eu apostava coisas comigo mesma para trazer ela de volta. Eu tentava barganhar com Deus, fosse ele da fé que você queira imaginar. Se qualquer coisa fosse dar sinais de que ela poderia surgir de novo e gritar “BRINCADEIRA”, eu aceitava.
E quando finalmente eu entendi e entrei em depressão, eu morri junto. Passei um ano e meio nessa fase. Eu era incapaz de falar dela sem chorar, não podia nem dizer seu nome em voz alta. Tinha dores físicas, não conseguia sair da cama em vários dias e me culpei por “estar exagerando”. Eu tentei voltar a barganhar e dizer para mim mesma que eu não deveria sentir, que eu precisava lutar contra, que ela não ficaria como eu (se fosse o contrário)… Mas eu sempre acabava chorosa, inerte e silenciosa.
Eu aceitei, em 2024, quando visitei seu túmulo pela primeira vez. Eu aceitei porque eu a vi. Eu aceitei porque ela era só uma foto numa lápide. Eu aceitei porque eu precisei aceitar, não porque eu entendia ou queria.
Não sei se ainda aceito… Tem dias em que passo por todos os 5 passos do luto em questão de minutos. É sufocante até. Mas eu aceitei como pude. Definitivamente, não porque quis.
Olhei para dentro do vulcão e desejei que ele explodisse. E sempre que visito ela, eu regresso até o momento da raiva e a xingo, só para poder chorar depois (ou durante) e depois voltar a aceitar.
Sempre que isso acontece, eu ouço Harry Styles. Ou aquela música indecente das melancias, ou “Matilda”. Porque quando o dia fica difícil, quem me conforta é “Matilda”.
E foi assim que eu descobri que o luto tem uma fase 6. Uma que ninguém comenta… A substituição. Quando aceitamos, substituímos a dor intensa pela saudade e aí damos nome, forma, cor e gosto. Para a minha substituição, eu dei som. Quando eu não consigo entender que a aceitação basta, eu substituo a dor por “Matilda”.
E esse é o pico da minha tristeza. O fim do meu Everest pessoal.
Olive Marie ♥
PS: por coincidências absurdas da vida, as últimas duas semanas se superaram no peso da saudade. E foi assim que eu fiquei duas sextas sem postar, e assim também que mudei a imagem de fundo dos posts. Preciso de mais efeitos Matilda, e menos desgaste pensante.
