DOIS PAPAS: O CAMINHO QUE A FÉ SEGUE

 




Recentemente eu assisti ao filme “Dois papas” com a minha mãe, esperando encontrar uma visão idealizada da igreja católica e da bondade do papa Francisco… Estava enganada.


Você provavelmente não sabe disso, mas eu não sou católica.


Cresci em uma família religiosa, no entanto. Minha mãe teve uma criação muito enraizada no catolicismo e fui seguindo os passos da igreja. Batismo, primeira comunhão e crisma. Aí eu descobri que não era católica.


Sou uma fiel propagadora da ideia de que nós, independente da idade, somos escolhidos por uma religião. Você pode nascer em uma família da umbanda, e aí crescer e descobrir que tem vocação para ser padre ou freira. Ou nascer no pior ciclo religioso de uma família extremista de alguma ramificação evangélica, e crescer e descobrir que as crenças do vodu fazem todo sentido na sua vida.


Nós, como pessoas, temos livre arbítrio zero para a religião que vamos seguir. E também não acho que todo mundo tem uma religião… A vida não é preto no branco. Ponto.


Dito isso: eu tinha verdadeiro asco do papa Francisco.


A FÉ FAMILIAR


Não sei se já disse isso aqui, mas meu genitor é árabe. E dos bem complexos.


Apesar de ter origens que voltam no tempo para imigração de famílias inteiras que vieram do Oriente Médio por vidas melhores e menos ameaças de guerra, a família dele se dissolveu em sincretismo religioso com bastante facilidade.


O lado turco abriu mão da religião islâmica e se converteu ao catolicismo, mas as tradições continuaram por gerações. O entendimento familiar geral é o de que as mulheres gerem a casa enquanto o homem traz o sustento; assim como a regra geral é de que as mulheres não façam as unhas – ou usem esmaltes muito claros, já que não são obrigadas a rezar –, o corpo feminino não é “exibido” por aí e os homens se portam de formas distintas dentro e fora de casa.


Isso quer dizer que, apesar de ter uma criação religiosa completamente católica, tradições islâmicas e criação rígida foi tudo que restou ao redor da fé.


Quando eu cresci e disse que a igreja católica era um saco aos meus olhos, que eu achava a Bíblia completamente machista e que não concordava com nada do que tinha sido ensinada (seja religiosamente católica ou tradicionalmente islâmica), causei um frenesi.


Minha mãe ficou tranquila, mas minha avó surtou completamente e deu diversas reprimendas de como eu estava “vivendo errado”. Meu genitor, já longe de nós todas por causa do divórcio, foi informado das minhas visões sobre religião e cismou que tinha que “me converter” me dando sermões bíblicos em qualquer pequena oportunidade.


Foi um saco!


Mas virou um hobby falar mal da igreja e da Bíblia para quem estivesse disposto a ouvir e se estressar – ou não. Foi o mais perto que cheguei de ser uma adolescente rebelde. Por isso, quando mamãe e eu decidimos assistir “Dois papas”, eu já tinha um discurso pronto.


CRISMA, UM PAPA E UM GRUPO DE JOVENS


Eu fui do grupo de jovens. E não, eu não me orgulho.


E não me orgulho não só porque eu já não concordava com aqueles ensinamentos e ia lá só para poder ficar julgando meus “professores” em silêncio, mas não me orgulho porque eu entrei no grupo de jovens só para ficar perto das minhas amigas.


Eu não ia à igreja no domingo, mas no sábado eu estava lá com as minhas amigas, fofocando sobre a semana, comendo salgadinhos no fim do encontro e conversando sobre música e filmes.


Passei esses últimos anos fazendo graça de quem se diz muito religioso, porque é realmente uma piada engraçada (para mim), ir na igreja de domingo e passar os outros seis dias da semana sendo o maior estorvo na vida alheia.


Fiz minha crisma obrigada e isso não é um segredo. Fiz parte do grupo de jovens para continuar vendo minhas amigas, e isso é menos segredo ainda. E abri a minha boca, no porão da igreja, para soltar um sonoro: “quanto dinheiro só para ir para outro estado, ver um papa que nem parece tão carismático assim”.


Além dos “professores” da crisma, dois padres estavam nesse encontro. E eu continuei criticando e fazendo piada. Ninguém do grupo ia mesmo, mas essa nem é a parte mais peculiar.


A parte peculiar é: eu achava o papa Francisco uma alma sebosa. Mesmo entendendo tudo que ele fez para as minorias dentro da igreja, eu tinha um total descaso e desprezo pela pessoa dele.


Curiosamente, eu sou uma grande fã do papa João Paulo II. E não achava o Bento XVI tão inconveniente assim, apesar de mais rígido e preconceituoso.


O SEXTO SENTIDO


Eu também não vou com as fuças do novo papa, que eu nem vou me dar ao trabalho de pesquisar o nome porque, bom… Estadunidense.


Todo mundo sabe que a igreja é como a política e que a escolha de um homem dos EUA para o papado, que é a principal liderança religiosa da igreja católica (que ainda é uma das religiões mais importantes e populares do mundo) só tem duas histórias pregressas: ou o Vaticano quer amenizar a balbúrdia que o Donald Trump está causando, usando da imagem de um estadunidense para afirmar que é possível alcançar paz e sabedoria religiosa independente de seus conterrâneos; ou eles só querem mandar o recado de que apoiam pensamentos preconceituosos e que os ideais do papa Francisco foram só um momento pontual na história da igreja.


Me lixei para ambas as possibilidades.


Se, socialmente falando, parece que João Paulo II foi escolhido para dar voz ao povo polonês depois da invasão alemã e da transformação de suas terras em marcos de extermínio, e parece que Bento XVI foi escolhido, logo em seguida, para limpar a imagem alemã, insinuando que não são todos assassinos em massa e tudo isso. Obviamente, esse novo papa parece uma tentativa desesperada de limpar a cara estadunidense, dizendo que eles também são um povo misericordioso e tudo isso.


Mas o Francisco não parecia ter uma razão… Até eu assistir ao filme.


Francisco era um hipócrita. E não ligo de como isso vais soar arrogante, porque é a verdade. Ele se “elegeu” usando pautas de massa, defendendo as minorias e focando em melhorias ao acolhimento geral. Mas, quando jovem, abandonou sua ordem e abraçou regras do regime ditador da época, jogando (mesmo que sem querer) milhares de pessoas em um buraco sem fundo da repressão.


Seus amigos incluso.


Ok, ele foi devidamente perdoado por quem quis perdoá-lo, e eu não tenho nada que me meter ou me preocupar, porque ele não precisava do meu perdão. Só que tudo fez sentido: eu não gostava dele porque o lia muito bem, via nele algo de falso e hipócrita, e agora eu sei nomear a situação.


Dito isso: a fé é curiosa.


Eu prefiro sempre depositar minha fé nas pessoas, e se eu não gostar delas, não gosto e ponto. E o mais curioso é que o caminho da fé não é linear… Minha questão com a fé diz mais sobre mim do que sobre a igreja, mas a verdade é que a fé segue por caminhos difíceis de compreender.


Esse foi um filme muito esclarecedor, tanto sobre a história do papa Francisco, quanto sobre mim.


Olive Marie ♥