ANÁLISE: DADDY ISSUES

 




Podemos fazer a análise terapêutica que quisermos… Estamos todos no limbo. Esse temido umbral emocional.


Enquanto crescia, fui diversas vezes confrontada com a figura paterna como algo que eu deveria adorar… As meninas ao meu redor que não tinham um pai, seja por ausência voluntária ou involuntária, me questionavam a relação de desprendimento emocional que eu tinha com a minha figura paterna. Corrigindo: com o homem que cedeu a genética para que eu nascesse.


Não me leve à mal! Meu genitor esteve presente na mesma casa que eu durante todos os 12 anos e 9 meses iniciais da minha vida. Mas viver na mesma casa não quer dizer constância, nem permanência. E muito menos presença.


Tenho diversas histórias peculiares sobre minha relação com aquele homem, mas a que coroa todas elas é: eu não o suporto. E nunca suportei. Desde quando nasci, as histórias de quando era só um pequeno ser humano não colaboram para dar vantagens à ele. Minha mãe e minha avó são categóricas sobre o quanto eu chorava de desespero quando ele me pegava no colo e o quanto eu repudiava, abertamente, sua existência.


UMA AUSÊNCIA PRESENTE


Antes de falar sobre o tão popular daddy issues e as questões que o livro “análise” me rendeu, quero contar quatro histórias distintas que marcaram para sempre minha relação com o homem que me fabricou geneticamente. Elas são importantes para o tema, eu juro.


História 1: tinha me mudado há menos de dois anos para um condomínio enorme que tinha um clube dentro de suas dependências. Meu irmão mais velho tinha liberdade para conviver com os vizinhos da sua idade livremente pelas dependências do condomínio. Eu não.


Minha mãe não queria que eu me misturasse com aquelas garotas (obrigada, mãe!), mas de tanto eu encher o saco dela, ela permitiu que eu fosse ao parquinho do prédio um dia à noite. Meu irmão estava no mesmo lugar, conversando com algumas garotas da minha idade (apesar da nossa extensa diferença de idade, meu irmão é a pessoa mais inconvenientemente comunicativa do mundo). Mas eu só poderia descer se meu pai fosse junto.


Para resumir: no auge dos meus 9 anos, mandei aquele sacripantas calar a boca, em alto e bom som, na frente de todo mundo. Mal educada? Sim. Mas ele merecia… Quando uma das garotas da roda, um ano mais velha, me corrigiu (sem nenhuma autorização), afirmando que eu não deveria tratá-lo assim: mandei ela calar a boca também.


História 2: minha inimiga da infância estava no mesmo parquinho que eu, aquele mesmo em que mandei o patife calar a boca. Ele me empurrava na balança e ela, sozinha ali, pediu por favor para ele empurrá-la também. 


Minha resposta rápida e automática foi, exatamente: “peça para o seu pai”. Ela afirmou que o pai não estava em casa porque era caminhoneiro e eu respondi um sonoro: “seus problemas não são algo que eu tenha que resolver”.


História 3: eu estava enfrentando os piores meses da minha vida com uma paralisia nervosa/muscular, no tratamento intensivo de uma doença chamada de Síndrome de Guillain-Barré. Minhas pernas não se dobravam, eu tinha cãibras no corpo todo, espasmos na coluna, degeneração muscular, fraqueza intensa e fazia meses de fisioterapia.


Meu “pai”? Curtindo a Europa enquanto minha mãe se virava com uma filha doente e um filho irresponsável, dependente de um carro em petição de miséria e quase sem dinheiro. Meu “pai”? Cheio de dinheiro em uma conta corrente que minha mãe não tinha acesso.


A engraçadinha da irmã do meu genitor achou de bom tom, enquanto eu me recuperava de uma internação horrorosa, dizer que eu estava “fazendo charme por saudade do irmão dela”. Bom… Há menos de dois anos eu tinha mandado aquela garoa calar a boca… Mandei ela para onde o Sol não bate e sugeri que, se ela quisesse, poderia pegar para si a droga da doença que eu estava enfrentando.


História 4: naquele mesmo ano, enquanto ainda me recuperava, o patife que se dizia meu pai descobriu que a “festa de dia dos pais” da escola seria uma oficina de mecatrônica que criaria a reprodução de um carro e teria uma competição com prêmio e tudo.


A decisão dele? Ir na festinha da escola não para passar tempo com a filha que estava se recuperando de uma doença neurológica autoimune tenebrosa da qual ele não acompanhou presencialmente, mas para montar o melhor carro, participar da competição, ganhar o prêmio e exibir para todos os outros pais suas capacidades como engenheiro mecânico de uma multinacional.


Ele perdeu a competição e eu gargalhei na frente de todo mundo. Foi um dos dias mais prazerosos da minha vida, porque nada superava a cara do ser mais egocêntrico da Terra ao perder uma competição que ele jurava que ganharia antes mesmo de chegar ao colégio. Sem preço!


DADDY ISSUES


Eu tenho daddy issues. O homem que cedeu sua genética para mim e que “me criou”, é o ser que mais desprezo na face da Terra.


As quatro histórias que acabei de contar resumem bem minha relação com ele… Meu pai, como a lei exige que eu o chame, é um homem materialista, mesquinho, antiquado, grosseiro, patife e ausente. Ele é um ser que tenho aversão e rancor. Eu não lhe desejo mal, mas desejo distância.


Quando o isolava como algo “meu”, como quanto mandei a garota do balanço chamar o próprio pai, não era porque o admirava ou algo assim. Era só pelo prazer maldoso de deixar as outras pessoas constrangidas. Como já disse antes: eu sempre devolvo a gentileza da estupidez alheia.


Dito isso: o homem dos meus sonhos é o Kurt Cobain.


Fisicamente completamente distinto daquele homem. Emocionalmente ainda mais distante. Mas a idade… Minha tendência bizarra por achar homens mais velhos atraentes nasceu na infância e depois de anos de terapia eu entendi que minha questão era encontrar alguém que eu achava que serviria como um pai melhor do que o que eu tinha.


Eu não quero ter o meu pai. Daddy issues não é sobre querer necessariamente possuir um homem que se assemelhe a uma figura paterna… Mas é o complexo relacionamento interpessoal sobre desejar algo próximo do que nunca se teve.


Seja para o mal, como eu que sempre achei caras muito mais velhos atraentes pela suposta maturidade e todas essas porcarias, ou para o bem, como garotas que se atraem por caras que sejam versões melhoradas dos pais ótimos que elas tiveram.


O daddy issues afeta, também, as meninas que “jamais aceitariam menos do que o que o próprio pai” fez por elas. Essa é a droga do problema: ninguém escapa.


Eis o ditado: garotas estão procurando homens como os seus pais para se casarem.


ANÁLISE


Vera Iaconelli escreveu um livro maravilhoso. Mas durante todo o processo da história familiar que conta, ela deixa claro como se incomodou por toda a vida por sua mãe ter que se encolher para caber numa relação que não lhe era digna.


A própria Vera assume ter feito o mesmo em prol de um primeiro casamento que ela achava que deveria manter. Novamente: as mulheres estão procurando casar com seus pais.


Depois disso, li o livro “A vergonha”, de Annie Ernaux, que também pontua sua peculiar relação com a figura paterna. Parece um karma!


Precisei de muita terapia para entender que meu daddy issues era uma questão real. Não porque aquele homem me fazia falta verdadeiramente, mas porque eu me culpava por não sentir falta. Ter problemas abertamente com aquela figura de suposta autoridade me fazia sentir culpa por repudiá-lo, então eu buscava encontrar beleza na existência masculina de alguém que o substituísse.


Não como algo doentio do tipo: “quero te chamar de pai”. Mas do tipo: “quero te respeitar como homem, porque todo homem é repulsivo”. Minha amiga L., se ler isso, vai me mandar uma figurinha que temos que está escrito “morte aos homens”. Mas sou sincera.


Assumo meu daddy issues na paz. Não o vejo como algo sexualizado, porque nunca o vi assim — apesar de saber que é assim que as pessoas sempre o enxergam —, mas como algo que eu superei grande parte e que agora luto para compreender de outras formas.


Concordo com meu psiquiatra: está tudo bem eu ter daddy issues, contanto que eu saiba exatamente o que fazer com ele. 


Olive Marie ♥