MARINA TSVETÁIEVA – PARTE 2: QUANDO POETAS DIZEM ADEUS

 




Um dos principais nomes da poesia russa do século XX é Marina Tsvetáieva, que ao lado de Anna Akhmátova, escreveu a história da Rússia Imperial que caia em desgraça. Escreveu sobre dor e sobre luto, as perspectivas de sofrimento do início do século pelo olhar feminino e maternal em cenários de guerra.


E foi durante a Primeira Guerra Mundial que a primeira desgraça da vida de Marina Tsvetáieva surgiu, pelas mãos da morte de Irina, sua segunda filha. Anos depois, seria torturada com a presença do filho na Segunda Guerra Mundial.


Mas entre as dificuldades ao lado do filho e a perda de Irina, foi o seu marido quem a arrastou, lentamente, para baixo…


SEMPRE UM HOMEM A DEVASTAR


Em 1933, Sergei Efron – marido de Tsvetáieva –, começou a trabalhar para a União Soviética em segredo. Seu principal plano era retornar à antiga Rússia e se estabelecer de novo por lá, como parte do projeto União dos Retornados.


Primeiro, Efron convenceu a filha mais velha, Ariadna, a deixar suas revoltas contra a União Soviética de lado e partir com ele de volta ao país natal. Depois de partirem, a solicitação dos novos passaportes soviéticos durou dois anos, e Marina ficou com o filho caçula, Mur, em Paris. Ao fim da espera, Marina e Mur partiram rumo à União Soviética pelo mar, cortando a Europa pela costa junto de um grupo de espanhóis sobreviventes da Guerra Espanhola.


Foi às portas da década de 1940, quando Marina finalmente desembarcou na Rússia com o filho, que a descoberta de uma vida que não deixava de ruir começou a surgir de maneira mais agressiva. A vida em Moscou era miserável, e para piorar, Sergei estava doente e sua própria irmã caçula, Anastasia, tinha sido presa e deportada, condenada ao exílio.


PEQUENAS PRISÕES POR TODAS AS PARTES


Ao se instalar em uma cidade perto de Moscou, na busca de uma vida mais fácil de ser vivida, Marina e Mur moravam em uma datcha (que são casas de verão, muito comuns na Rússia) junto com outra família. Tsvetáieva conseguiu um emprego de tradutora para o francês e começou uma rotina de paz momentânea.


Todos os moradores da datcha eram procurados da NKVD (conhecida posteriormente como KGB), e gradualmente foram presos e condenados a penas diversas. Em novembro do mesmo ano de sua chegada, a datcha estava quase vazia, apenas com Marina e seu filho Mur ainda vivendo nela. E em meio ao seu desespero para sair da situação precária em que estava, que Tsvetáieva buscou ajuda na União dos Escritores – que compartilhavam com ela as mesmas situações.


Pouco antes de se acomodar em um novo lugar – o melhor que tinha conseguido em sua situação atual –, Tsvetáieva teve que lidar com a prisão de Ariadna e o seu envio para um campo de trabalhos forçados. Efron já tinha sido preso também, e a vida dela passou a ser mendigar por um quarto e por comida para o filho, enquanto visitava prisões em burca de atualizações sobre a filha e o marido. Sua influência como escritora não lhe favorecia em nada – em certos momentos até a atrapalhava –, estava sendo ignorada pelo alto escalão do governo e por guardas de baixa patente.


DIZEMOS ADEUS, DIRETO DO FRONT


Sergei foi morto em 1941, sem que Marina desconfiasse. Afinal, a Alemanha invadiu a União Soviética naquele ano, o que forçou Mur a se alistar para defender o país. Pouco depois do alistamento, Marina e o filho se mudaram, com um grupo de escritores exilados do front, para um lugar só. Rumo à República Tártara, a dupla se estabeleceu na cidade de Yelábuga, mesmo sem opções de emprego ou meios de sustento.


Depois de recusar uma oferta de trabalho como tradutora, vinda do governo que teimava em humilhá-la, Tsvetáieva tentou todos os meios de subsistência, e todos sem sucesso. E no auge de seu desespero, em 31 de agosto de 1941, Marina Tsvetáieva escreveu suas últimas cartas. Sozinha em casa, se decidiu por tirar a própria vida.


Foi Mur quem a encontrou, ao voltar para casa do trabalho. E também foi Mur, em seu diário pessoal, que contou o que causou a busca da mãe pela morte: liberdade para sua alma flagelada.


Tsvetáieva, independente de sua grandeza em vida, foi enterrada em uma vala comum. O fim da sua vida, com toda a sua gloriosa força de valores, a afastou da escrita no fim dos dias, mas a salvou do completo esquecimento. E, aos poucos, a memória que deixou tem sido resgatada por fãs de seu trabalho e pela memória de sua história intensa e dolorosa.


Olive Marina ♥