TREMEMBÉ: ATROFIA DO INTELECTO
Assim que lançou a série “Tremembé” eu tratei de dar play ao lado da minha mãe. Como grandes consumidoras de conteúdos sobre crimes reais e a fascinação do estudo da mente, senti quase que uma obrigação em assistir a série. Especialmente porque é brasileira, e o Brasil produz ótimos conteúdos sobre crimes reais, mas sempre de forma independente.
Ter uma grande produção, com nomes de peso no elenco, contando histórias de crimes reais que moldaram a forma como o Brasil consome a desgraça da casa alheia, foi muito emocionante. Mas também foi revelador!
Cresci em uma casa em que meu genitor assistia Datena todos os dias depois do trabalho. Minha mãe assistia séries criminais, de ficção, nas madrugadas dos fins de semana. Meu irmão mais velho consumia filmes de terror e animes de violência. A observação do intelecto de criminosos sempre foi um tema recorrente na minha casa.
Na verdade, sempre foi normalizada a ideia de que o ser humano é vil, cruel, controlador e péssimo. Como reflexo disso, me tornei alguém que não se choca com facilidade com a atrocidade humana.
Só que assistir “Tremembé” me deu um choque de realidade que eu não esperava…
TEM SANGU* ESCORRENDO DA TV
A série passeia por uma suave linha entre ser explícita e ser sútil. Ao mesmo tempo que a brutalidade transborda da televisão, que as cenas de flashbacks são claras, há certo senso ético de não explicitar tanto assim os crimes. Não com imagens abertas, pelo menos.
No entanto, cresci em uma casa que o termo “tem sangu* escorrendo da TV” poderia facilmente ser aplicado. Para mim, eu aguentaria tudo. Mas não aguentei “Tremembé”.
É uma série muito boa. De fato é! Tem uma produção maravilhosa, intocada. É bem roteirizada e elaborada, e eu a assisti até o fim. Mas assim que acabei, me dobrei no chão do box com dores físicas reais. Minha mente em espasmos, meu corpo tremendo por dentro da pele, dores incalculáveis.
Achei que fosse um sintoma físico de algo, afinal minha saúde nunca foi lá muito boa. Mas quando os exames provaram que não, levei o tema para a terapia. Inicialmente não tinha associado os sintomas físicos com a série em si, até que minha psicóloga começou a fazer perguntas e investigar… Eu chorei enquanto relatava aquele domingo em que terminei de assistir.
Eu ouvi algo que não esperava: “você já pensou que o nosso corpo transborda não apenas sintomas psicossomáticos de doenças mais graves? O corpo humano também transforma luto emocional em dor física. E isso não é sobre alguém que morreu.”
Eu nunca tinha pensado nisso exatamente assim. De repente, meu luto de ter perdido alguém que amo há poucos dias daquele fatídico domingo não era tão desolador… A prisão de Tremembé tinha me destruído mais.
LUTO EMOCIONAL X LUTO FÍSICO
2025 não foi um ano fácil. Em janeiro perdi uma tia da minha mãe, em fevereiro um tio dela. Em abril perdi uma amiga que sempre chamei de prima (pela proximidade de nossas mães e pela amizade que fizemos por causa delas), e em junho perdi um amigo de forma trágica. Em setembro minha mãe teve um AVC, e agora, nesse início de novembro, outra amiga, que foi igualmente criada como uma prima-irmã faleceu.
Esse também foi o ano em que suportei coisas que nunca achei que passaria… Quase morri em abril, ao lado da minha mãe, com um curto tão violento na nossa casa que tivemos que fugir na madrugada. Foi o ano em que um ônibus com um motorista imprudente quase causou um acidente de engavetamento em uma rua inclinada, e o carro em que estávamos seria o primeiro a ser amassado. Enfrentei mais demônios emocionais do que esperava… Fiquei mais doente do que antes, tive crises de desmaio, tive acessos de raiva incontroláveis e precisei fazer uma coisa que achei que nunca faria: abrir boletim de ocorrência, duas vezes, para dois homens violentos diferentes, que acharam que poderiam ameaçar minha mãe e eu de morte simplesmente porque somos mulheres e teríamos medo.
O luto físico, a dor real de perder pessoas que eu amo nem se compararam aos momentos de terror psicológico que 2025 causou em mim. Foi o ano que desisti de publicar meus livros, foi o ano que abri mão de me levar a sério, foi o ano que desisti de várias coisas emocionais… Foi o ano que rompi várias amizades também. E o luto emocional me engoliu mais do que o físico.
Os dois se degladiando para ver quem me derruba primeiro.
Naquela consulta básica e corriqueira, percebi que “Tremembé” teve um efeito completamente diferente em mim do que no resto. E não importa o quanto eu ache todos aqueles crimes terríveis é tudo mais… Não importa o quão boa a série é, nem o quanto eu ache bizarro estarem colocando assassinos como protagonistas e dando empatia para pessoas que não merecem, mesmo que a existência de suas mentes me deixe fascinada.
O efeito que causou em mim não foi de fascínio e nem de incômodo. Eu passei mal! Verdadeiramente mal. E não pelas cenas ou pelos crimes, mas porque eu não consigo mais digerir desgraças. Mesmo as alheias.
A GOTA DE SANGU* QUE FALTAVA
Nunca foi um segredo o quanto eu sempre foi vidrada em assistir conteúdos assim. Consumia conteúdos criminais com uma ansiedade violenta. Posso dar todos os nomes de podcasts, séries e livros sobre o tema que já consumi e indiquei. Mas tudo esgota.
Quando me diziam que consumir tudo isso ia afetar a minha frequência pessoal, eu pensava no lado espiritual da coisa. Apesar de não ser cristã, de seguir uma fé pagã — e justamente por ser pagã —, eu acredito fielmente em pessoas e situações que nos drenam. Sabe aquela pessoa que, só de você ficar perto por uma hora, sente que seu corpo precisa entrar em estado de inércia para recarregar? Pois é… Algumas situações, lugares e conteúdos também são assim.
Mas como eu nunca tinha sentido isso com conteúdos criminais, sentia que tinha meu corpo protegido e que estava segura desse tipo de problema. E, de fato, espiritualmente eu não me sinto perturbada por nada disso.
Mas emocionalmente a coisa não é essa…
Cheguei a conclusão, ao lado da minha psicóloga, que minha busca ainda mais cega por esses conteúdos durante esse ano (que foi quando mais virei madrugadas ouvindo podcasts criminais e consumindo material do tipo), veio de um lugar de insatisfação com a minha vida. O fato de meu 2025 ter virado um filme de terror do cotidiano me fez buscar dores maiores que as minhas como consolos emocionais de que eu não estava tão mal assim.
Mas também foi uma válvula de escape para continuar próxima da minha mãe. Afinal, foi o ano em que eu finalmente chorei e desabafei com ela sobre estar cansada e desesperada, de não aguentar mais o peso dos problemas somado ao fato complexo de que sou a única que cuida dela quando a corda arrebenta. Eu me esgotei!
Como redenção, usei algo que sei que ela adora tanto quanto eu: crimes reais. Isso sempre nos aproximou. Sempre… E então eu finalmente, com vinte anos de atraso, me questionei: “será que, só porque sempre nos aproximou, quer dizer que eu sempre amei?”
Dei um longo suspiro antes de afirmar: não.
Não amo casos criminais. Gosto de tentar entender a mente humana. Gosto da coisa toda da investigação e de como isso é intrigante. Gosto do fato de que essa foi a única coisa que tinha em comum com a minha mãe enquanto crescia. Mas eu não gosto de casos criminais. Eles me causam ansiedade, porque eu fico irritada com os criminosos, com pena das vítimas e insatisfeita sempre com a lei.
Assistir “Tremembé” me fez notar que eu atrofiei meu intelecto nisso a vida toda, só porque eu queria muito gostar de uma coisa que minha mãe gosta. Mas se eu realmente amasse isso, estaria lendo Rafael Montes às toneladas, e não estou. Percebi que consumo esse conteúdo para conversar com a minha mãe, e nada mais.
E, mais uma vez, a terapia me salvou de mim mesma. A questão agora é: a longo prazo, como remediar o mal que eu mesma me causei? Aceito sugestões para explorar nas próximas consultas com a psicóloga… Por agora, só sinto o luto de não ser mais capaz de ter isso para compartilhar com quem mais amo.
Olive Marie ♥
