CLARICE LISPECTOR: O ESPECTRO EM DUAS HISTÓRIAS

 




Se Marília Gabriela fosse fazer essa introdução, ela começaria a mencionar todas as qualificações de Clarice Lispector antes de dizer seu nome. Quando eu fui escrever sobre ela pela primeira vez, no entanto, foquei em tentar desvendar sua essência antes de sua biografia.


Escrevi coisas como: “Seria impossível sentir alguma coisa sem nome e não lembrarmos de Clarice Lispector, que foi escritora, jornalista e, antes de tudo isso, sentimentalista”.


Também ousei escrever: “Clarice Lispector foi um trovão seco em meio a um mundo com chuviscos de verão […]”.


No site em que compartilhei isso, senti liberdade para escrever sobre ela aos poucos, naquela época em que o ambiente ainda não me dava dores de cabeça… Hoje sinto ainda mais liberdade. E sinto porque é meu espaço, não de outro alguém. E há coisa melhor do que escrever sobre quem amamos em nosso próprio lugar?


E a verdade é que enrolei para escrever sobre Clarice… Tinha medo de não ser capaz de dizê-la tão bem como fiz antes. Mas a verdade é que não há como escrever algo sobre ela que não seja belo, afinal, ela é a rainha das coisas não ditas, das palavras repetidas aos tropeços e das pequenas complexidades verbalizadas aos sopros.


NO EXÍLIO


Em 10 de dezembro de 1920, nascia Haia Lispector (algumas fontes também afirmam que seu nome de batismo era Chaya), sem berço exato em seu país natal, pois seus pais estavam em processo de migração da Ucrânia para o Brasil. Foi na aldeia Tchetchelnik, ainda em solo ucraniano, que veio ao mundo.


Filha de um comerciante e uma dona de casa, Clarice era a terceira filha do casal, antecedida por Elisa e Tania. Com nove anos de diferença de Elisa e 5 de Tania, a infância inicial foi marcada pela busca da paz social que o Brasil prometia… A família judia estava fugindo da Ucrânia por conta da Revolução Bolchevique, que ocorreu em 1917, e mudou todo o contexto do que era conhecido como Império Russo.


Ao chegarem no Brasil, finalmente, depois de dois anos de estrada e dores emocionais em físicas incuráveis, a família adota nomes brasileiros, se arma de uma nova esperança e se estabelece em Maceió, em Alagoas, junto da família da irmã de sua mãe.


Agora se chamando Pedro e Marieta, o casal se estabelece em Recife por volta de 1925, depois de enfrentar complicações com o marido da irmã de Marieta (e isso fica muito bem claro no livro “No exílio”, escrito por Elisa, irmã mais velha de Clarice). Em uma pequena comunidade judaica, Clarice se estabeleceu e aprendeu a ler e a escrever. As histórias em Recife seriam, eternamente, um marco em sua história. 


Sua infância foi contada e recontada imensamente, com detalhes belos, no futuro. Mas foi ainda nessa época que começou a produzir… Com pequenas peças de teatro, ela já engatinhava, na infância, a autora que seria.


NASCENTE LISPECTOR, O MAR INTEIRO DE RECIFE


Como uma cachoeira, grandes autoras não conseguem existir sem dar os primeiros passos de sua paixão na infância. E foi com 13 anos, mais ou menos, que Clarice Lispector se decidiu como escritora. Sabia que queria escrever, e com a morte da mãe há alguns anos antes, ficou ainda mais agarrada a capacidade pessoal de escrever usando emoções como base, não fatos.


Em 1935, aos 15 anos, se muda com as irmãs e o pai para o Rio de Janeiro. Estabelecidos na Tijuca, Clarice passou a consumir romances voltados para o público feminino, e já em 1936, passou a consumir clássicos da literatura nacional. A biblioteca servia de esconderijo para as melhores histórias que ela viria a conhecer, e onde aprenderia o cru do ofício que nascia e borbulhava na própria alma.


Mesmo querendo ser escritora, vindo de família humilde, optou por correr atrás de algo mais viável e seguro e passou a cursar a faculdade de direito, me 1939. Pelo menos até o plano de viver da própria escrita engrenar. E conseguiu!


Já em 1940, com apenas 20 anos, Clarice Lispector nascia para o mundo como autora. Foi com um conto na revista Pan, que era semanal, que sua obra começou a chegar ao público, e não parou mais. Imediatamente já estava trabalhando como redatora e repórter da Agência Nacional.


Elisa e ela foram morar com Tania, que tinha se casado há pouco, e a vida começa a se abrir profissionalmente. Pelo que compreendi nas minhas pesquisas, foi nesse mesmo período que o pai faleceu, por isso as irmãs se agarraram umas às outras, já que agora eram órfãs. 


Nessa fase da vida, Clarice já era Clarice, mesmo que com timidez. Ela frequentava lugares populares entre escritores famosos de sua época e tinha proximidade com nomes como Lúcio Cardoso e Adonias Filho. Como um mar: ela transborda pelas beiradas do continente!


O BRASIL, PARA A BRASILEIRA


Nesses primeiros anos da década de 1940, Clarice Lispector passa a ter muitas coisas para contar… Finalmente se naturaliza brasileira, que era seu maior desejo, assinada pelo próprio Getúlio Vargas, que era o presidente na época.


Mas também ganha seu primeiro registro oficial como redatora, em um jornal chamado “A Noite”, e termina a faculdade de direito. Em 1943, quando todas as emoções estavam crescendo, publica seu primeiro romance: “Perto do coração selvagem”. A obra rendeu o primeiro prêmio de sua carreira, o Graça Aranha, como melhor romance do ano.


Se casa também nesse ano, com Maury Gurgel Valente, que já namorava desde a faculdade, e se muda para Botafogo ao lado dele. A residência dura pouco, em 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, se muda para Belém (por um período de poucos meses) e depois para a Itália, por conta do trabalho do marido como vice-cônsul em Nápoles.


Em 1945 passa de dona de casa e escritora, para funcionária em um hospital. Lá, sua função era ajudar pacientes brasileiros que tinham se ferido na guerra e foi em Roma que soube do fim da guerra. Nessa mesma época, Clarice foi modelo para o pintor Giorgio De Chirico, onde teve sua imagem marcada para sempre como uma mulher com feições felinas lindíssimas: olhos inclinados, maçãs do rosto altas e boca e pescoço bem desenhados. É uma captura excepcional!


Nesse período inicial na Europa — que viria a durar anos —, Lispector publicou seu segundo romance, intitulado “O lustre” e conheceu Fernando Sabino, que viria a ser um de seus mais queridos amigos.


Mas Clarice não foi só isso! Conheceu a Espanha e Itália, morou na Suíça… Foi vivendo. E como tão grande sua existência foi, não se pode simplificar em três atos. Há mais, e mais será contado… 


Olive Marie ♥