NOSFERATU: ABANDONO DO BEM

 




Eu sou completamente viciada em ANAVITÓRIA, e é possível saber disso dando uma leve olhada nas minhas playlists de lugares do Brasil e de Portugal. Elas estão lá, cantando poesias que eu amo ouvir.


No novo lançamento delas, que eu já falei sobre, elas abusam de ritmos que elas já usaram várias vezes antes, em seus álbuns anteriores. Mas “nosferatu” parece ter chamado mais a atenção do grande público… O argumento é que é a música mais “completa” do álbum todo. A única que tem um ritmo de começo, meio e fim, sem parecer uma transição ou ser tão curta.


Mas foi a que menos tocou em mim na primeira vez que a ouvi. Precisei digerir “nosferatu” como fiz com várias coisas. E só entendi a causa disso há alguns dias… É uma música de fala de abrir mão e se escolher. E eu ainda não faço isso ao todo.


Só que, também, nenhuma mulher faz. E é por isso que é uma música tão boa!


NOSFERATU


Em romeno, o termo se associa diretamente à existência de vampiros na cultura popular do terror. Mas o termo passou a fazer parte do vocabulário mundial quando um filme foi lançado com esse nome…


A história é um plágio meio satírico do clássico “Drácula”, e foi várias vezes condenado e renegado por vários entusiastas de cinema e críticos. O tom de plágio deixa um gosto ruim na boca, e é para ser assim. A acidez da piada de mau humor está pronta.


Na cultura pop, acabou que o teor de zombaria e de plágio caiu por terra. Ninguém liga. E a imagem central virou queridinho de fãs do tema “vampiros” que se arriscam a ir além de “Crepúsculo” e “Drácula”. Mas não podemos ignorar sua origem.


E quando ANAVITÓRIA faz uma música falando sobre abrir mão de alguém que se ama para poder recuperar a própria essência, fica ainda mais curioso olhar o termo de perto.


A pessoa da música seria um “vampiro energético”? Alguém que drena a bateria social de quem habita ao seu redor? Ou quem canta que abriu mão é Nosferatu? E, se esse for o caso, a pessoa é Nosferatu porque se tornou uma versão barata de si mesmo enquanto estava com quem amava?


As perguntas são tão extensas quanto as possibilidades. Nunca termina… E eu gosto disso. Mas também gosto de pensar que não é bem por aí. E se for o contrário: Nosferatu for a versão original?


A PIADA RECORRENTE DO POP


O pop nacional tem tido piadinhas sobre isso há um certo tempo. Manu Gavassi riu disso quando escreveu o álbum “Gracinha” e disse: “você se leva a sério demais / e eu acho graça / e recomendo duas doses de cachaça”.


E não foi a única!


A Sandy passou anos dizendo que não queria ser associada com a ideia de garota perfeita. Sempre versões de mulheres brasileiras, depois dos 30, dizendo que não querem se levar a sério como pessoas, e que isso não tem nada a ver com o quanto precisam ser levadas a sério em suas carreiras.


Verdade seja dita: se encontrar sendo mulher na sociedade bizarra em que vivemos é ter que saber que sempre vai ser cidadã de segunda classe, que ninguém nunca vai nos levar a sério (na vida ou no trabalho) e que sempre teremos que ter uma versão “social” de nós mesmas. Temos que virar o Drácula: duronas e arrogantes, para ninguém passar por cima.


Mas somos todas meio Nosferatu: muito foco, muita paciência, pouca seriedade auto-analisada e leveza. Isso não quer dizer que sejamos plágios na rua ou em casa. Ambas as versões são válidas. Mas quando decidimos que ser a nossa versão caseira vale mais, todo mundo nos vê como vilãs em versões “pioradas do que somos”. 


Meio poético até!


PRESAS E CANINOS


É um saco ter que escolher uma versão melhor todos os dias. Às vezes só queremos ser o nosso próprio plágio. E eu sei que isso não mostra nas séries de televisão.


Ninguém quer realmente abrir a porta dos próprios segredos e afirmar que cansou de andar na linha, ser politicamente correta o tempo todo e tudo isso. Chutar o balde pode salvar vidas!


Enquanto elas cantam sobre um amor que ruiu porque a pessoa fez um altar para si mesma, e então virou a vilã plagiadora (Nosferatu de si mesma), eu encaro a música por ângulos um pouco mais diversos…


A cultura japonesa diz que temos três versões de nós: a que mostramos ao mundo, a que mostramos para quem mais amamos e a que só nós conhecemos. E é isso mesmo! Todo mundo tem segredos, passado e versões anteriores que não sente vontade de compartilhar. A mente humana é complexa demais para sairmos por aí cedendo a qualquer pequeno pensamento intrusivo.


Nossas versões secretas são mesmo cheias de presas e caninos, porque precisam ser defendidas com todas as forças. Se alguém invade esse espaço, o caos se instala e não estamos mais seguras. E é preciso colocar todo o discurso no feminino, porque homens não passam por isso. A sociedade pega mais leve com quem nasceu homem.


Eu continuo olhando ao redor e encontrando várias análises que podem fazer sentido com isso. Mas a principal está aqui… De resto, quero renascer em um 2026 em que eu faça sentido e me sinta mais forte. Quero abandonar tudo, abrir mais mão de amores do que em 2025, para talvez encontrar paz.


Não vejo a hora de ser Nosferatu.


Olive Marie ♥