RUA DOS ABACATEIROS: POESIA DO DESENCONTRO
Passei toda uma vida evitando ouvir certos tipos de músicas… Não apenas por aquela amiga que me causava a sensação de sempre andar em ovos quando o assunto era música. Mas porque tive uma criação engraçada sobre isso também.
Minha mãe sempre ouviu rock clássico. Meu genitor sempre ouviu MPB. Minha mãe vinha de uma família conscientemente elitista, com ideias progressistas, mas prezando pela classe e os bons modos. O sangue europeu clássicos, talvez, era o que alimentava a ideia central. Como tal, a família toda tinha um esquema de pirâmide musical.
Minha avó ouvia Elvis, minhas tias ouviam Beatles e Queen, minha mãe ouvia Pink Floyd. A irmã da minha avó era fã de Rita Lee e Legião Urbana, e por mais que hoje sejam todas velhinhas tradicionais que prezam pelos “valores da família” (com exceção da minha mãe que segue falando a plenos pulmões sobre liberdade realista de direito), existia e ainda existe o pragmatismo musical.
Do lado de lá da fronteira, com uma herança festiva e mais “pé descalço”, tive um tio que dava indícios de ser da juventude contra a Ditadura, um genitor e seus irmãos viciados em MPB que alimentava o duplo sentido contra ditadores e que, mesmo votando na esquerda, tinham discursos racionalizados e intolerantes religiosos (muito vindo de seu sangue radical de uma família pautada em conceitos machistas e racistas).
No contexto familiar, eu podia ouvir Sandy & Junior quando jovem, mas com a idade ficando mais madura, tive que escolher um lado… Escolhi o lado da minha mãe.
Isso alimentou aquela amizade tóxica… Mas fez mais ainda.
“A BELEZA DESSA CASA”
Para mim, música é lar. Assim como ler.
Vindo de uma criação tão pautada em respeito, fé e família (do jeito mais italiano que você possa imaginar), era se esperado que a importância das histórias e dos prazeres viessem do luxo ao acesso. E isso tive em excesso!
Ballet clássico com direito a especialização, cursos de idiomas em escolas próprias, colégios particulares comandados por freiras, acesso a teatro, arte e literatura. Como toda boa garota mimada de uma família que acredita que os bons costumes são feitos de educação social, respeito ao divino e apreciação da arte como elevação espiritual.
Mesmo com toda a miséria financeira que meu genitor adorava pregar, nunca me foi negado, na casa de minha mãe, acesso ilimitado ao conhecimento. Na infância eu sabia reconhecer a diferença de Mozart, Bach e Vivaldi. Na infância eu diferenciava ballet russo do italiano e do inglês. Na infância eu sabia nomear obras de arte por artista, período e relevância. Aceito meus luxos e meus privilégios, reconheço-os. Mas também admito que tive que me podar.
Abri mão de muitas coisas no processo da refinaria da minha alma artística. E parte disso foi deixar a poesia cantada.
Pelo bem da “beleza dessa casa”, me abstive em excesso de ouvir músicas brasileiras que não fossem de protesto ou provocação. Mas então, em um surto emocional, abri o leque da permissão pessoal e passei a falar abertamente sobre músicas que gosto e não sejam relacionadas ao rock.
Para o desgosto da minha avó, defendo a Sandy em cada pequena oportunidade, ouço ANAVITÓRIA em alto som perto da minha mãe e largo mão de críticas quando dizem que era inimaginável que eu consumisse Manu Gavassi. Pois sim…
“AS PESSOAS TODAS JUNTAS / CELEBRANDO FEVEREIRO”
Admiro ANAVITÓRIA mais como poesia do que como música, verdade seja dita. Tenho pelo menos uma música delas para cada playlist com músicas brasileiras que faço, mas faço isso porque parece poesia.
Enquanto ouço Sandy e Manu Gavassi e outras artistas brasileiras pela sonoridade e sentimento amplo que as canções me causam, escolho quase sempre recorrer a Ana Caetano e Vitória Falcão pela poesia. Quando as ouço, parece que estou lendo.
E o novo álbum delas reflete isso ainda mais…
“claraboia” tem uma sonoridade mais calma do que a maioria de suas canções. Suas músicas são mais espaçadas, a maioria se mantém com menos de três minutos e algumas são pequenas pontes entre uma melodia e outra, como uma história bonita a ser contada.
A primeira música do álbum, intitulada “rua dos abacateiros” me soou ainda mais poética. Algo similar ao trabalho suave de Nando Reis, onde nem sempre as palavras se ligam em uma história, mas, quando juntas, contam algo que não poderiam contar quando separadas. Quase como todo o simbolismo do Carnaval.
“rua dos abacateiros” explica como é o processo cíclico da vida… são recortes que fazem ser, que colocam as duas na história dos Estúdios Claraboia, um novo lugar para se fazer música. Memórias delas que são frases soltas e fragmentadas, mas que dizem muito.
“A BELEZA DESSA ESTRADA”
Mesmo sendo simples e aparentemente sem sentido, essa é uma das músicas mais bonitas que já ouvi. Me tocou profundamente!
Há histórias em nós, histórias que podem ser contadas com pequenas frases. Afinal, mesmo sendo livros inteiros, somos poéticos sem perceber, quando nos reduzimos a palavras.
Em entrevistas de empregos temos que resumir nossa eficiência social em uma palavra, na escola (em primeiros dias de aulas) temos que nos dar títulos quase imperiais. Todos nos pedem para nos reduzirmos a uma ou duas palavras. Mas nossas histórias não podem se resumir em uma palavra apenas, então resumimos em frases.
Estamos fadados ao desencontro das poesias pessoais que nem notados… Então me desafiei. Contei quantos versos a canção tinha, e curiosamente tem 27… Tentei resumir minha vida em 27 versos, um para cada ano, excluindo dois anos. Sintetizei, portanto, os meus três primeiros anos de vida no primeiro verso.
Não tem razão compartilhar a ideia que construí, mas faz sentido explicar o quanto essa música dá sentido ao desencontro de existir. E num momento em que existir tem sido penoso. É quase como escolher mais 15 meninas para uma valsa de aniversário que nunca quis dar. É curioso!
Acredito que, depois desse lançamento, o que mais faz sentido é entender que certas músicas são feitas para serem poesia. Não são feitas para serem, necessariamente, músicas preferidas, mas são simbólicas e causam a sensação de completude da arte.
A capa do álbum parece se ligar a canção, e como tal, cria arte visual. O texto tem ritmo poético, e cria literatura. A melodia tem embasamento melódico, e cria arte sonora. O efeito que cria em cada um de nós, reflete arte performática.
“rua dos abacateiros” é sobre a estrada. E a estrada pode ser qualquer uma, diferente para cada um de nós.
Olive Marie ♥
