ELA VAI VOLTAR: A DOR DA PERCEPÇÃO ERRADA

 




Eu tenho quase 30 anos. Literalmente quase. Faltam só alguns meses… E eu sou virgem.


Cômica observação, apesar de parecer decadente ou escancarada. Até meio triste para pessoas que gostam muito de fazer sex*. Mas a verdade é que é cômico sim.


Em uma sociedade onde mulheres da minha idade acumulam experiências, eu não tenho nenhuma. E não foi por uma escolha sabática. Eu não sou religiosa e jamais escolheria algo assim.


Mas as versões para isso são: ou ser religiosa e ter “escolhido esperar”; ou ser assexual. 


E eu não sou nenhuma dessas coisas. Agora vem a parte cômica: eu sou solteira desde o nascimento por livre e espontânea vontade alheia.


“DEIXA EU TE MOSTRAR/O MELHOR QUE EU POSSO SER”


Há alguns anos, uma pessoa disse que sempre que ouvia a música “ela vai voltar”, pensava em mim. Achei curioso.


O argumento base foi que todas as qualidades que o Chorão descreve na mulher da vida dele, eu tinha. Aquele tipo de comentário capcioso que chega a me fazer rir. Cômico também, tal qual o fato de eu ser virgem.


Estou editando meu fluxo de pensamento aqui… Mas a real é que esse tipo de comentário permeia o meu real e o meu imaginário com uma frequência assustadora.


Pessoas dizendo que sou magnética e bonita, amigos dizendo que é bizarro eu ser solteira porque (supostamente) eu tenho todos os requisitos que todos entendem como “gostosa”. Brincadeiras incômodas que minhas amigas fazem e soam como: “se eu fosse homem, eu te pegava” ou “como que os caras estão perdendo isso aqui?”


Essa última surge especificamente quando as pessoas mais próximas me abraçam.


A moral da história é que a melhor versão que eu posso mostrar de mim mesma nesses momentos é controlar a língua para não sair mandando todo mundo tomar bem tomado no meio do cu.


Não tem graça. Não me conforta. Só me ridiculariza e me deprime mais, além de colocar meus sentimentos ambíguos sobre isso na caixinha do “transar resolveria meu problema”.


“DEIXA EU TE LEVAR/PRA VER O MUNDO, BABY”


Nossas relações estão líquidas. Mais do que eu gostaria de admitir.


Tenho amigas sendo cornas e perdoando, porque decidiram amar aquela pessoa. Tenho amigas sendo amantes e relevando, porque decidiram amar aquela pessoa. Tenho amigas entrando no movimento de celibato porque estão cansadas dos homens. E tenho amigas dizendo que eu sou sozinha porque quero.


RÁ RÁ!


Eu assumo: tenho sérias questões com a proximidade masculina. E quando digo isso não quero dizer que os caras chegam em mim (real ou virtualmente, isso não acontece em cenário nenhum) e eu os afasto. Eu quero dizer que eu tive tantos traumas de bosta enfiados goela à baixo, que vejam só: eu me fecho com asco.


Quando tentei contar sobre o que estava acontecendo para a minha mãe a piada veio pronta: “você tem medo da cobra cega? Mamãe te dá uma agulha de tricô”. Eu quis torcer ela no próprio cordão umbilical que a natureza do parto nos uniu e falar: “não, tenho medo de abrir espaço para tentar ser vista e você se sentir no direito de contar isso para todos ao meu redor e tornar isso uma piada, DE NOVO”.


Não me leve a mal! Eu amo a minha mãe incondicionalmente, mas alguns vacilos são imperdoáveis. E ter que me sentar na minha sessão de terapia e dizer: “bom, meu pai fez eu odiar os homens. Meu irmão me fez temer os homens. Mas a minha mãe… Minha mãe me fez sentir ridícula por querer ser amada por um homem.”


Mas tudo bem: ela me fez sentir isso, porque foi como minha avó a criou… Eu sei que é imperdoável o que ela fez comigo, mas acho ainda mais imperdoável o que a mãe dela fez com ela. E isso é um ponto curioso…


Só o fato de eu ter lido um texto sobre uma mulher dizendo que adora transar, ainda essa semana, já me fez sentir encurralada pela ideia da curiosidade sobre isso. E não porque eu ache que sexo é um tabu. Mas porque eu sei que jamais vai fazer parte da minha realidade.


Dito isso: toda vez que qualquer criatura do sex* oposto se aproxima de mim mais de três passos, mesmo eu sabendo que eles não estão olhando para mim, eu simplesmente dou as costas. Eu estou sempre pronta para dar um soco, ser irônica sobre sua existência ou simplesmente começo a bufar e resmungar da sua presença com uma velocidade perturbadora.


Isso me leva de volta ao segundo parágrafo desse trecho: minhas amigas estão aceitando qualquer bosta masculina porque escolheram amar. E eu, de vez em quando, ainda sinto inveja delas porque elas têm o direito e a possibilidade de escolher amar ou não.


Porque elas foram escolhidas. E eu ainda estou levando a mim mesma para ver o mundo.


“MINHA MENTE NEM SEMPRE TÃO LÚCIDA”


A última vez que tentei ser lúcida sobre isso, dei bronca em uma amiga por perdoar a cabeçada (dela) que o próprio marido deu no teclado do computador, e segui a vida feliz pelos próximos dois segundos. Menos de 60 segundos depois eu estava tendo rancor porque ela tem um marido. 


Meu feminismo chorou sangue e uma parte de mim morreu nesse dia. Mas tantas outras partes da minha sexualidade estão tão igualmente mortas, que nem sei se realmente me importa eu ter tido inveja por ela ter uma relação abusiva.


E esse é o momento do texto em que Cami, Nina, Vivi, Ivy, Sam, Sarah e suas pares vão lotar minhas mensagens no celular ameaçando minha integridade física por ter dito isso em “voz alta”, ao mesmo tempo que me oferecem colo por eu ter sentido isso.


Sou grata, meninas! Não parece, mas sou.


Mas a real é que fica foda tentar ser lúcida quando eu digo para alguém que eu sei que não daria certo com ninguém porque “sou romântica” e a primeira coisa que me perguntam é: “você queria ter uma primeira vez com luzes de velas e pétalas de rosa?”


Dá vontade de rir com escárnio e responder que sim, afinal eu poderia usar as velas acesas para enfiar na goela de quem acabou de fazer a pergunta enquanto usasse as pétalas de rosa para temperar sua carne, que eu fritaria e distribuiria em postes de praça pública com a plaquinha: “jaz aqui um/uma engraçadinho/engraçadinha que debochou de uma mulher sem bom humor”.


Aliás, tenho quase certeza de que Lampião tiraria a tripa dessa galera por muito menos… Enfim!


Quando eu conversei sobre como eu sinto falta da possibilidade de ver vista como mulher e de como eu me sinto extremamente inferior, quando me comparo a outras mulheres, só porque eu nunca beijei na boca, minha amiga me mandou uma entrevista de um mano do BTS.


Literalmente: WTF?


“ELA É MULHER DE VERDADE”


Todo respeito do mundo aí, RM — ou seja lá qual for o seu nome —, mas eu quis te dar um soco na cara.


Que nojo viver numa realidade em que um cara se sente confortável o suficiente para dizer que se questiona das razões de sempre precisar estar em uma relação para ser feliz. Que bosta!


Ok, eu fico feliz de ele ser um homem e estar abrindo seu coração. O feminismo brada de alegria toda vez que um homem adulto se sente confortável para falar dos seus sentimentos em público. Porém, é frustrante saber que, assim que eu postar isso, alguém cheio de humor escroto vai fazer piada disso em Singapura. 


(Sim, você está sob vigilância, pessoa em Singapura. Não sei quem você é, mas tenho imagens bem concretas de todas as vezes que você leu um texto meu. E só serei grata se tu for uma pessoa legal. Do contrário: vaza!)


Ser mulher de verdade quer dizer que eu posso falar dos meus sentimentos. Mas também quer dizer que eu vou sentir uma leve vergonha por falar deles, porque eu não sou tão relevante assim e também porque é óbvio que a culpa é minha por estar sentindo desconforto com algo que os homens causaram… Mas esse é um tópico para outro papo reto.


A verdade é que sempre que vejo minhas amigas, encontro todas as diferenças físicas entre nós por eu não ter tido um namorado. Querendo ou não, o sexo faz o corpo feminino se desenvolver. Não sei se é científico, mas toda mulher sabe olhar para outra e identificar se ela transou ou não. O corpo muda, o comportamento muda. Bizarro, mas real!


Só o fato de nem ter beijado na boca já deixa isso claro também. Eu me sinto uma ratinha feia e desengonçada toda vez que uma garota de 15 anos diz que tem um namorado. Não deveria ser normal uma mulher de quase 30 anos assistir comédias românticas e sonhar com qual deve ser a sensação de se sentir amada, enquanto uma garota de 15 anos masca chiclete enquanto escolhe qual vai ser a próxima boca que ela vai beijar.


E sim, eu estou completamente amargurada sobre isso. Mas estou assim porque faltam 6 meses para o meu aniversário e não estou fazendo listas de 30 livros antes dos 30 que eu queria ler. Ou 30 lugares que gostaria de conhecer.


Minha lista é: 30 pensamentos autodepreciativos e auto incutidos preciso tirar da cabeça antes dos 30 anos. E a maioria deles grita: “você não é o suficiente”.


Quando eu contei para a minha ginecologista que eu fico muito frustrada quando acham que eu tenho 19 ou 20 anos, e que eu acho que tem algum problema hormonal comigo, ela riu e disse: “não. Você é baixa e fofa, mas também é virgem. Todo mundo está vendo o seu corpo parecer jovem e novo porque, bom, tecnicamente ele ainda é em vários aspectos.”


Mas esse não é um texto sobre sexo. Longe disso! Tenho nem repertório para opinar sobre. Esse é um texto sobre a percepção errada que todo mundo tem de mim. Incluso eu mesma.


“ELA NÃO É DO TIPO DE MULHER/QUE SE ENTREGA NA PRIMEIRA”


Eu estou um pouco cansada de ficar esperando o amor da minha vida. Ele não existe. E não só porque eu imagino uma aparência física do Shiryu com a personalidade do sr. Darcy, mas porque não existe ninguém por aí ansioso para me conhecer e viver uma vida comigo.


E o grande problema de eu não ser uma mulher que se entrega na primeira (e em um sentido diferente da origem da frase que segue o fluxo de interpretação da música), é que eu passei 15 anos esperando que as coisas mudassem.


Ok! Eu fiquei mentindo para mim mesma até hoje. Primeiro porque eu agarrei a ideia até os 22 anos de que eu ainda era nova e seria amada e vista e todas essas porcarias. Depois eu me frustrei completamente e passei a debochar da ideia. Mas, principalmente, eu criei duas versões de mim mesma.


A versão pública e social, falava abertamente que tinha superado isso e que sabia que nada aconteceria e que não teria uma vida como a das outras mulheres. A versão íntima, chorava escondida enquanto comia barras de chocolate. E essa versão íntima também aceitava ir em encontros que as pessoas marcavam para mim porque, lá no fundo — bem no subterrâneo da minha mente mesmo —, eu esperava que as coisas mudassem.


E dos 22 aos 29 anos tem ano para caramba. E eu meio que olhei para isso e me perguntei o que estou fazendo com a minha vida…


Aqui, volto a citar o mano do BTS.


Se um homem se sente confortável em assumir para o mundo que ele é um canalha e que usa seu lado mais emocional a próprio favor para justificar o fato de estar sempre se apaixonando (porque é exatamente isso que ele disse lá: ele sempre precisa estar dentro de uma relação, e quando não está se frustra), por que não posso me sentir confortável de entender que não posso me apaixonar?


Eu posso! Posso ser romântica, a mais incorrigível possível, e chorar quando os casais se beijam no final das minhas comédias românticas preferidas e me emocionar com histórias bonitas dos livros que leio. Posso amar ter nascido no dia de São Valentim. Posso amar o fato de que todo mundo ao meu redor está encontrando os respectivos amores das suas vidas (mesmo sentindo que metade desses caras não mereçam as amigas perfeitas que tenho). E posso fazer tudo isso enquanto sigo em frente e finalmente supero esse sentimento de merda.


Não quero mais fingir que eu não me magoo com isso. Eu me magoo. Não ser escolhida, não ser vista e não ser admirada causa desgosto em qualquer ego. Seja masculino, feminino ou não binário. Todo mundo quer ser emocionalmente valorizado.


Só que agora o plano é: eu vou ser mais simpática comigo mesma e vou aceitar, tranquilamente, o fato de que não vou ter isso na minha vida e que tudo bem sentir inveja e frustração. Eu vou continuar me sentindo menos mulher que qualquer outra mulher, e não vou fingir que isso não está acontecendo. Eu finalmente vou desencanar.


Vou me tornar a versão que mostro ao mundo e não vou mais dizer que isso não me abala, e finalmente não vou mais esperar que o amor surja. Porque ele não vai! Eu acho que superei esse luto, finalmente…


Completei a negação, a raiva, a barganha e todo o resto que toca o luto de um modo geral. Eu aceito. E aceitar envolve não ir mais em encontro nenhum porque eu preciso dizer para mim mesma que gerar entretenimento para os outros às custas de magoar meus próprios sentimentos não vale a pena. 


Vou aceitar que vou me ressentir disso para sempre e vou substituir o vazio de não ser amada pela busca incessantemente de coisas novas que possam me deixar feliz


Tenho sentido que esse novo ano que está chegando vai ser diferente. Não porque isso vai mudar (eu até fiz uma aposta com uma amiga e vou ganhar dinheiro assim que fizer 30 anos e não estiver namorando), mas porque eu tenho tido vontades novas. Eu ando querendo explorar novos hobbies e aprender coisas novas. Estou pensando em empreender coisas novas, e sei que vou acabar substituindo essa falta em coisas distintas. Não diminui a dor, claro, mas abafa os sintomas mais pesados a longo prazo.


Olive Marie ♥