NEM UM DIA: A NOSTALGIA DO AMOR PRÓPRIO
Eu escrevi abertamente sobre minha situação romântica atual. Ou a falta dela… E estava sem papas na língua naquele dia.
Cansada emocionalmente e frustrada com a realidade ao meu redor, eu desaguei sobre o tema com tanta fúria reprimida que me permiti o uso de palavrão e o desapego do meu puritanismo temático quando o assunto é minha vida pessoal.
E não me arrependo.
Talvez eu tivesse que ter tentado ser um pouco mais poética, mas ainda assim não me arrependo em nada. Era necessário tal ato impensado em desabafo. O único problema foi o mar de pessoas ao meu redor concluindo isso ou aquilo sobre a necessidade de tudo ter sido escrito como foi.
Pessoas do meu convívio – e algumas nem tanto –, decidiram que poderiam dizer que eu “expus demais a minha vida” e “assumi minha inveja”.
Em partes sim, em partes não. Mas o que ninguém que leu aquele texto perguntou foi: como você estava se sentindo quando jogou aquilo no mundo?
Exceto Djavan. Ele, pouco antes de eu nascer, deixou essa pergunta disfarçada de resposta para que eu pudesse refletir 30 anos depois.
“UM DIA FRIO/UM BOM LUGAR PRA LER UM LIVRO”
Acho que quando penso em Djavan, penso em tristeza e dor. Algo bonito dentro disso… Gosto da melancolia, presente até nas músicas mais bonitas e animadas dele.
A primeira vez que o ouvi foi em “Linha do Equador”, que poetiza lindamente a sensação irrefreável de amar sem esperar nada em troca. Poesia absoluta!
Um absurdo não ser um artista ouvido amplamente pelo mainstream… Mas eu amo! Era criança quando ouvi pela primeira vez, e minha memória sempre falha em qual contexto, mas algo me diz que foi em uma novela.
Por razões abstratas, é o calçadão de Copacabana que surge na minha cabeça quando ouço essa música. Mas quando ouço “Nem um dia”, penso em um dia de chuva sendo visto pela janela de um carro em movimento lento no trânsito.
Imagino algo mais poético e melancólico. Mas não só porque a música sugere isso abertamente na letra. Vejo um dia de chuva, porque causa saudade de uma parte de mim que sei que está sob essa nuvem carregada e pronta para desaguar na cabeça de alguém.
Quando Djavan começa a música, o que sinto é a minha versão criança, escondida num recanto velho e escuro da biblioteca da escola em que estudava, lendo algum livro com uma etiqueta amarela (as verdes eram das crianças, as amarelas dos adolescentes e as vermelhas dos quase adultos, tal qual um semáforo de trânsito da censura literária em um colégio religioso).
E como Djavan canta em ambas as músicas: eu gosto tanto assim dessa versão minha e não a esquecerei nem um dia.
“UM DIA TRISTE/TODA FRAGILIDADE INCIDE”
Assumir a dor de faltar algo em nós é uma dádiva. Acredito sinceramente que essa seja uma qualidade incrível… Adoro assumir quando estou frágil.
Mas não na frente de todo mundo. Não na frente de qualquer pessoa.
E escrever com tanta crueza sobre minha fragilidade veio de uma solidão absurda. A solidão de viver um dia triste por não pertencer a alguém…
Quando Djavan escreveu isso, deu o sentido de ter perdido alguém amado. Mas agora, sem minha fúria da solidão daquele dia, ajudo quem estiver lendo isso a interpretar essa versão por outro caminho: o caminho do amor perdido por si mesmo.
Não pertenço a alguém. Não há homem sequer que queira viver uma vida ao meu lado ou que me admire e me veja com os olhos que Djavan via quem amava. Nem qualquer outro olhar. Mas também não pertenço mais a mim.
A real é que não pertencer a alguém também pode ser não pertencer a nós mesmos. Simples. E triste também!
Quando penso com calma, entendo que não pertenço mais nem ao que amava em mim. Não gasto mais tanto tempo lendo, não aprecio minha própria companhia e perdi o gosto por coisas que sempre me foram caras. E estou assim, sem me pertencer, porque passei os últimos anos tentando e orando para pertencer a alguém.
E calma lá! Isso aqui não quer dizer que quero fazer parte do programa “Minha Burca, Minha Vida” ou que desejo que o estado diga que um homem tem que falar por mim. O que quero dizer é que por mais hipócrita que possa parecer, o amor romântico alimenta algo em nós que mais nada alimenta.
E pela falta disso, minha fragilidade incidiu. E novamente: não me arrependo.
“NÃO TE ESQUECEREI UM DIA/NEM UM DIA”
Eu estou aprendendo a valorizar o que fui e o que sou. Entender quem me tornei no processo de não pertencer. E com isso, as interpretações se expandem.
Uma vez eu li algo sobre o amor romântico, em fase inicial, ser o equivalente ao uso de drogas pesadas. Como se estar apaixonado causasse sensações próximas das experienciadas por pessoas que usam drogas “recreativas”.
O cortisol sobe, a dopamina e a noradrenalina afetam áreas de recompensa e vício, e tem toda a questão da inibição do córtex pré-frontal
E isso é complicado! Especialmente porque eu estou dizendo, abertamente, que queria passar por essa experiência perturbadora de quase dependência química.
Mesmo que minha racionalidade esteja pedindo o contrário.
Mas o que quero dizer com isso é que estou tentando não me esquecer no processo. Na verdade, estou tentando me recuperar. Me sentir mais tranquila por não ser uma drogada de amor é aceitar que a vida tem outros planos e que tempo e “momento certo” não é a questão.
Quando escuto essa música, penso na nostalgia de ser eu mesma de novo. De parar de tentar caber, de encerrar a busca pelo pertencimento. No fundo, bem lá no fundo, eu entendo que não nasci para ser amada por outras pessoas. E tudo bem!
Um tudo bem bem sincero até! Reconheço o quanto sou desagradável e mimada, além de mandona, insuportável e intelectualmente preconceituosa e soberba. Eu sou um saco!
E pode ser que a falta “do outro” tenha sido responsável por me fazer ser ainda mais exigente, ambiciosa e intragável. Mas ainda quero ser capaz de abraçar a fragilidade do meu fracasso como ser humano romântico, enquanto vejo com melancolia a nostalgia de ser incapaz de esquecer de quem fui e quem sou enquanto escrevo isso (que já será alguém nostálgica no próximo parágrafo).
“ESPERO COM A FORÇA DO PENSAMENTO/RECRIAR A LUZ QUE ME TRARÁ VOCÊ”
A auto empatia é uma droga. Especialmente porque sou incapaz de consumi-la para benefício pessoal.
A racionalidade que me garante que não posso mais conjurar exatamente quem fui me faz ter faniquito. E que problema isso me causa…
Enquanto pareço descolada e divertida sobre tudo isso, enfrento discussões reais e intensas com pessoas que deveriam estar me ajudando a me acolher. E é aí que eu lembro que todo mundo solta a mão de todo mundo sim. Especialmente quando lhes convém.
A tentativa agora é resgatar algo e fazer da nostalgia uma marca pessoal que faça sentido para mim. Porque eu já sei que sou irrelevante para quem me cerca.
De um modo geral, claro.
Nessa busca por resgatar meu amor próprio, uso Djavan de trilha sonora e restabeleço traços da minha personalidade esquecida.
O novo nome do blog traz essa ideia de usar um título original ao invés da generalidade de uma palavra que era só uma tentativa de encaixe e sentido. A estética nova resgata a minha versão adolescente que escrevia sobre livros na internet enquanto fazia fotos autorais e claras.
Esteticamente estou me reinventando para algo que já fui um dia, e que me recuso a esquecer. E nem serei pretensiosa em dizer que quero melhorar aquela versão minha. Porque não quero. Só quero abrir meus caminhos novamente para o que sempre soube ser.
Olive Marie ♥
