ANNA AKHMÁTOVA - PARTE 2: COMO ESCREVER TRAGÉDIAS
“Passei 17 meses em filas de prisões em Leningrado (hoje, São Petersburgo). Uma vez, alguém me ‘identificou’ ali. Então, uma mulher que estava atrás de mim, azul de frio, e que com certeza nunca tinha ouvido meu nome, acordou daquele transe característico de todos nós e perguntou em meu ouvido (ali, todos falavam em sussurros): ‘Ah, você pode descrever isto?’ / E eu respondi: / ‘Eu posso’. Então algo semelhante a um sorriso atormentado passou por aquilo que um dia foi seu rosto.”
Isso é o que Anna Akhmátova contou sobre a Guerra, sobre a miséria, sobre a dor. Ela estava descrevendo Leningrado, confessando as dores de se viver naquele lugar, naquele pedaço de história, como artista.
Entre todas as formas de dor que uma alma artística pode suportar, como relações abusivas, perdas de entes queridos, desespero da morte de sua arte: Akhmátova viveu todas. Foi abandonada à própria sorte por tempos sombrios de sua terra amada; e sucumbiu como mãe, amante e mulher. Também morreu como artista. Fadada a tentar esconder seus escritos, Anna Akhmátova já nos os escrevia em papel, apenas os ditava. E foi então que tudo começou a ruir, e como guerreira, ela resistiu.
COMO OS TÁRTAROS CONTAM HISTÓRIAS
Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, algum tempo depois de Stálin já ter assumido o poder da URSS, Akhmátova já não contava suas poesias em forma de escritos. A repressão apenas aumentava, a censura crescia e ela se tornou uma perseguida política. E foi assim que uma de suas tradições mais curiosas começou a se intensificar: recitar sua obra.
Em pequenas reuniões secretas, Anna Akhmátova se unia aos restantes artistas que tentavam resistir ao governo e recitava suas poesias, deixando para que fossem escritas muito depois. E com isso demorou 22 anos para escrever seu último grande trabalho.
“Poema sem herói” consagra a carreira de Akhmátova, tendo sido iniciado em 1940 e só terminando em 1962, ela aborda a passagem do tempo pela visão dos abandonos e problemas da guerra. E vale a menção de que, mesmo com os impactos diretos da Segunda Guerra alcançando a Rússia com força, dentro do país o povo já tinha desistido de guerras civis.
Foi nesse longo período que o povo, insatisfeito com o controle de Stálin, já não tinha forças para causar uma revolta parecida com a Revolução que tinha derrubado os Romanov do trono. E sem forças pessoais, Akhmátova se viu sendo exilada e tendo o filho preso pela polícia, tudo porque sua obra incomodava e gerava represálias. Mesmo em exílio, no Uzbequistão, sua fama não diminuiu entre o povo.
Com o filho exilado na Sibéria, em um campo de trabalho forçado, e ela em outro canto do mundo, Akhmátova ainda teve que lidar com a perseguição e as represálias de grupos de marxistas mais ferrenhos. Para se proteger ainda mais, ela queimou todos os trabalhos que já tinha prontos em escrita e esperou que o silêncio viesse por parte de seus perseguidores, e no caminho de tentar ter paz, Akhmátova ainda se arriscou a tentar dizer coisas boas sobre o governo.
DEPOIS DA ÚLTIMA GUERRA
Em seu trabalho final, depois de já ter passado por todas as dores possíveis dentro desse cenário desolador, a liberdade ditatorial chegou com a dissolução do governo em stalinista, com a morte de seu ditador.
Tendo durado apenas treze anos a mais que o fim de Stálin, Akhmátova viveu o bastante para ver seu trabalho voltar a prosperar e se consagrar. E foi justamente nesse momento da vida, que entendeu que sua obra final resgatava muito de seus sonhos poéticos do início da carreira, enquanto equilibrava sombras e trevas dos seus anos tendo lutado apenas pela própria sobrevivência física.
Foi em decorrência de quatro infartos consecutivos que Anna Akhmátova faleceu em maio de 1966, em uma cidade que lembrava os seus cenários de infância, perto de Moscou.
E foi nesse momento que, talvez, sua obra mais tenha feito sentido em toda a Rússia – para não dizer em todo o mundo. Com sua morte, ficou evidente que Anna Akhmátova era capaz de escrever para as massas, apesar de ter vindo da burguesia, e foi assim que seu impacto cresceu ainda mais.
Apesar de ter feito muito sucesso em vida, foi na morte que finalmente sua obra alcançou alguns países em que ainda não tinha chegado, e também foi nesse momento que sua biografia se tornou uma lembrança clara de que tempos difíceis criam pessoas fortes. E que pessoas fortes, na arte, são as mais sensíveis.
COMO RECITAR TRAGÉDIAS
Acho que a coisa que mais me faz amar a obra de Anna Akhmátova é que ela se rebelou. E não como os trágicos se rebelam, com muita agonia e lamentação. Primeiro ela escreveu com orgulho de se entender mulher em uma sociedade tão machista. Não lhe importava se venderia menos, se os homens fariam chacotas e se as mulheres que também escreviam a veriam como uma pária.
E quando pensamos na Rússia e na sua obra – em especial a obra feminina russa –, entendemos que muito do que ela se permitiu escrever poderia ser visto como piada por todas aquelas outras mulheres que queriam seus espaços na arte. Como ela chega e rouba tudo? Se apodera do direito de ser mulher na poesia, antes de ter se igualado a um homem como mandavam os costumes?
Adoro o fato que ela persistiu assim, que deixou que sua obra seguisse firme da forma que era, e que mesmo em seu sofrimento, se permitiu seguir sua própria vontade e intuição. Mesmo com a dor, mesmo com a perseguição. Mesmo com tudo.
E verdade seja dita: recitar dores é complicado e difícil. Exige mais da alma do que parece, e a longo prazo cobra do corpo também. É opressor e sufocante, e nos deixa deprimidos. Mas talvez pessoas de 1889 estavam apenas destinadas a brilhar. Fosse para o bem ou para o mal, algumas almas muito peculiares nasceram nesse ano e deixaram suas histórias marcadas para sempre no imaginário coletivo e histórico.
De um lado temos o ditador fascista e nazista, Adolf Hitler, que foi cruel e sanguinário, que fez uma história de dor. Em outra ponta temos Charles Chaplin, sendo uma das figuras mais emblemáticas ao debochar do ditador… E na Rússia temos Anna Akhmátova, que viveu o bastante para ver ambos partirem, mas com muito mais dores. Um lembrete constante de que ser mulher é agoniante até mesmo quando não deveria.
A vida dela também parece peculiar por outros ângulos… Pablo Picasso já tinha oito anos quando ela nasceu, e viveu mais do que ela. Provavelmente, seu ego masculino jamais o permitiu conhecer Akhmátova como legítima artista. Anita Malfatti, também nascida em 1889, foi igualmente relevante para o seu tempo, do outro lado do mundo, aqui no Brasil. E também podemos falar de Van Gogh (falecido apenas um anos após o nascimento de Akhmátova), de Frida Kahlo (que nasceu muito depois de Akhmátova, mas faleceu antes) ou de como ela viveu sua infância na mesma época que as irmãs Romanov, mas tristemente sobreviveu a elas.
Dentre todas essas pessoas indiretamente ligadas a ela, que causaram ou sobreviveram a dor, Akhmátova foi uma das mais notáveis. E isso é o bastante para que jamais deixemos sua obra morrer.
♥ Olive Marie
