MATHILDE KSCHESSINSKA: A BAILARINA ENTRE OS IMPÉRIOS

 




Como bailarina, passei a vida consumindo materiais sobre ballet, em especial, durante a infância e a adolescência. Assistia espetáculos, lia biografias que conseguia ter acesso e pesquisava sobre as melhores bailarinas do mundo. Mesmo sem jamais ter aprendido a tocar piano, sei todas as descrições de partituras e peças; mesmo sem ter assistido pessoalmente minhas bailarinas preferidas, sei identificar as técnicas em que cada uma se destacava melhor. E, como aluna da Royal, Mathilde Kschessinska sempre foi um nome recorrente em meus discursos sobre a arte da dança.


E apesar de amar o recital que leva seu nome, nunca levei muito a sério que a história do recital fosse baseada em fatos reais. Mas enquanto crescia e estudava sobre os Romanov, ficava mais fácil identificar as partes verdadeiras de todas as suas famas.


Com o lançamento do filme biográfico de sua vida, há alguns anos, só fiquei ainda mais interessada… E para alimentar a bailarina que aprisionei dentro de mim, hoje falo sobre esse ícone da história do ballet e do império que é a história russa.


O SANGUE POLONÊS NA MATRIZ DA ARTE


Com sangue polonês, em 31 de agosto de 1872, em Ligovo, nascia Mathilda Kschessinska. Com uma família de bailarinos, Mathilde se viu agarrada à arte hereditária e começou seus estudos na dança quando ainda era muito jovem. 


Seu pai e seu irmão já faziam parte do Ballet Imperial da Rússia, seguindo as normas de Marius Petipa. E com um treinamento que lhe dava força para atuar como dançarina típica e também como uma bailarina clássica, aos 17 anos, Mathilde se formou e ingressou oficialmente para o corpo de baile do império Romanov. 


Por um jogo de sorte, sua formatura foi assistida pela família Romanov inteira, e o herdeiro do trono, Nicolau, se apaixonou por ela à primeira vista. Nascia, então, uma das principais Prima Ballerina da história, não só da Rússia, mas também do mundo.


A ARTE DE JAMAIS PERDER


Apesar de ser reconhecida como Prima Ballerina por causa do seu relacionamento com Nicolau, Mathilde tinha muito talento. Em sua época, foi uma das duas únicas bailarinas capazes de realizar o mesmo passo em sequência por mais de trinta vezes. E somando seu talento com as regalias dadas por ser namorada do futuro tsar, Mathilde se aproveitava para conseguir papéis melhores, horários de ensaios mais maleáveis e algumas outras vantagens.


Ainda assim, quando Nicolau se apaixonou por Alexandra e assumiu o papel de tsar, o lugar de pai amoroso e esposo fiel se fizeram presente. E apesar de várias alegações de que depois de casado ele ainda mantivesse relações com Mathilde, os fatos históricos provam que isso é mentira. Mathilde aceitava o lugar de ex-namorada, mas ficou longe de se afastar da família real.


Depois do término, Mathilde passou a se relacionar, simultaneamente, com dois primos de Nicolau. Ambos sendo duques, Sergei Mikhailovich e Andrei Vladimirovich, jamais souberam exatamente quem era o pai do filho que Mathilde teve em 1902. Até mesmo a criança, depois de adulto, admitiu não saber quem era seu pai.


Mas o que importa nesse período de sua vida, é que com o afastamento dos palcos por causa da gestação, Kschessinska adotou como pupilas Tamara Karsavina e Anna Pavlova. No entanto, a fama de Mathilde Kschessinska de tutora para por aí. Há várias lendas e histórias que rondam seu nome, incluindo a vez em que teria soltado galinhas vivas durante um solo importante de Olga Preobrazhenskaya, na tentativa de desestabilizar a rival. Diz-se que Preobrazhenskaya se saiu muito bem, independente das galinhas.


Petipa também não a apreciava, a insultava em seus diários e recusava aceitá-la como merecedora do título de Prima Ballerina. Mas Mathilde tinha um grande talento para além da dança: ela jamais perdia e se resignava.


CONTRA TODOS OS IMPÉRIOS RUSSOS


Sendo odiada como colega de elenco e repudiada como ex-namorada de Nicolau II, Mathilde se viu imersa na história da Rússia para além de seus amores da linhagem Romanov. Afinal, a mansão que ganhará de presente de Nicolau durante os quatro anos de relação, foi invadida e tomada pelos bolcheviques durante a Revolução Russa de 1917. Foi do balcão da sacada dessa mesma mansão que Lenin, então no comando de todo o Partido e rosto de imponência durante a Revolução, fez um de seus discursos mais famosos. Do balcão dado por Nicolau, como uma prova de amor, Lenin pedia sua deposição, o fim da monarquia e atiçava o povo contra a linhagem Romanov, a Guerra e a fome.


Fugindo para a França a tempo de evitar ser pega pelo novo governo, Mathilde se casou com Andrei Vladimirovich e se aproximou da arte de outro ângulo. Abrindo uma escola que tocou por anos, Mathilde seguia nos palcos em um ritmo mais comedido e mantinha um casamento sem muitas fofocas públicas. Mas Mathilde queria sua mansão de volta, e usando a lei a seu favor, processou o Partido na tentativa de reaver seus bens.


Sua imagem de pessoa aniquilada pela história da Rússia apenas crescia… A casa não foi devolvida, e anos depois ainda seguia com decrepitude, como parte das bases mais importantes do movimento revolucionário.


Sua última apresentação como bailarina no foi palco da Royal de Londres (aquele mesma em que passei a vida estudando), aos 64 anos. Com mais alguns trinta e poucos anos depois de sua última apresentação, Mathilde Kschessinska faleceu em 1971, no início de dezembro, há poucos meses de completar 100 anos.


Ainda hoje, Mathilde é reconhecida como alguém que a Rússia despreza (sejam pró ou contra monarquia), o filme biográfico que recria a história dela e Nicolau foi ofensivo para o povo nos dias que hoje, que recusam a ideia de Nicolau ter amado alguém além de Alexandra e que se escandalizam com a ideia de santos fazendo sexo*.


Mesmo assim, a vida e a obra de Mathilde Kschessinska resistiu ao tempo e merece seu devido reconhecimento. Símbolo de personalidade forte e não permissiva, Mathilde sempre será reconhecida como bailarina de talento e mulher de opinião. Uma figura de arte entre os impérios russos.


Olive Marie ♥


*o tsar, sua esposa e seus cinco filhos, assassinados em uma execução secreta ordenada pelo Partido — os bolcheviques —, foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000. Eles não são considerados mártires, mas sim retentores da paixão. O assassinato dos sete membros da família e mais alguns funcionários mais próximos aconteceu em 1918, no sigilo, depois da Revolução e deposição do trono do tsar, ambas as situações acontecidas em 1917.