JANE AUSTEN: A MÃE DO ROMANCE MODERNO
Jane Austen é assunto recorrente na minha vida, está tatuada na minha pele e tem sido razão de muitas sessões de terapia ao longo dos anos. Porque Jane Austen escreveu sobre amor, e eu sou uma romântica incorrigível, mas também uma apaixonada por romance.
Longe de compreender ou dar espaço ao amor como todos ao redor o entendem, passei a vida lendo demais e amando demais o que ela criava. Afinal, Jane Austen deixou pouco de si para o mundo a recordar, mas o que deixou parece muito quando pensamos na sua família, na carreira e na sua memória.
Como uma incógnita permanente de personalidade e temperamento, hoje ela é apenas o que a memória de seus parentes quiseram preservar, e como tal, precisa de muito tempo, espaço e discussão para ser compreendida ao todo.
Motivada por suas cartas que li recentemente e depois de reunir coragem o bastante, me atrevo hoje a escrever sobre Jane Austen.
COMO NASCEM AS ROMANCISTAS
Sétima filha do casal Austen, Jane veio ao mundo em 16 de dezembro de 1775, pronta para ser a preferida da maioria dos membros de sua família. Não apenas por ser quase a caçula (ele teve apenas um irmão depois de seu nascimento), mas por ser a mais próxima de todos os irmãos mais velhos. A começar pela irmã Cassandra, com que dividiu o título de tia querida.
Mas antes de ser uma tia amada, Jane Austen teve uma infância rural na região de Steventon, ao lado dos irmãos e indo à igreja aos domingos, para ouvir os sermões do pai, o reverendo Austen. No centro da família estava o pai, pároco de uma congregação anglicana e a mãe, que usava o tempo para administrar a casa e cuidar dos filhos.
Dito isso, é imaginado que Jane Austen teve uma educação tradicional, mas não. Pela grande quantidade de filhos vivos, a família Austen focava mais na união familiar e em economias justas, e toda a educação dos filhos ficava aos cuidados do próprio pai, que tinha obrigações educacionais por conta do internamento que direcionava em casa.
Seu pai dava aulas durante os meses de ensino, abrigando garotos em seu sótão, e por isso as filhas tiveram acesso ilimitado a sua biblioteca particular. Mas a vida não era ruim, afinal, além de ganhar dinheiro com o internato que criou na própria casa, senhor Austen administrou uma fazenda próxima e obtinha lucros com as vendas dos produtos vindos de lá. Cassandra e Jane estudavam em casa como podiam, usando o regimento da época para se tornarem moças elegantes, e com isso aprenderam costura, bordado, música e desenho, e nas horas vagas aprendiam o básico das demais matérias e se igualavam aos irmãos sobre política, história, religião e educação financeira.
Apesar de terem passado por colégios para moças que não eram tão caros, as irmãs Austen acabaram mesmo se educando em casa e usufruindo da liberdade e bom grado dos pais para se elevarem intelectualmente sem medo. Não havia, afinal, na família Austen o terror de seu tempo por mulheres ativamente pensantes, criticamente a inteligentes e sabiamente politizadas.
Foi cedo que Jane Austen também entendeu sobre inclusão e privilégios, já que seu segundo irmão mais velho sofria com epilepsia e surdez, e morava em uma casa próxima a família com cuidados bancados exclusivamente pelo pai. E foi ainda na infância, quando aprendia sobre literatura, história e observava a sociedade ao seu redor (já que tinha privilégio por acessar certos grupos familiares de sua região), que Jane Austen começou a escrever.
A JUVENÍLIA E A JUVENTUDE DE UMA LENDA
Enquanto crescia, Jane Austen usava seus conhecimentos gerais da sociedade ao seu redor para rir de seus iguais e de si mesma em obras curtas e contos, com anedotas divertidas e pontos de dramatização da vida cotidiana que observava e conhecia. Reuniões familiares se tornaram o palco inicial desse seu crescimento autoral e ampliaram sua confiança como autora.
Com uma mãe que escrevia poemas para divertir os filhos e um pai que lhes dava permissão para aprender e sempre tentava lhes proporcionar o melhor para sempre descobrirem mais do mundo, Jane Austen começou sua produção literária muito cedo e pode acumular uma boa quantidade de juvenília durante seu crescimento.
Foi também nesse momento de adolescência que nasceu “A abadia de Northanger” e quando conheceu o rapaz que seria para sempre a memória de seu grande amor, Tom Lefroy. Mas foi apenas depois dos 30 anos que Jane Austen conseguiu publicar seu primeiro romance, com ajuda do irmão Henry e o apoio de toda a família.
Usando do anonimato, Jane Austen teve anos promissores entre os 35 e os 40 anos, publicando suas obras com uma distância de quase dois anos entre cada uma, e recebendo grande reconhecimento a cada novo lançamento. Afinal, seu desejo de ser vista como uma autora anônima não funcionou muito bem e ela alcançou a fama ainda em vida.
Em “Cartas de Jane Austen” é possível descobrir que até membros da realeza inglesa já conheciam-na por seu nome verdadeiro e o sucesso de “Orgulho e Preconceito” já tinha sido razoável.
A MÃE SE TODAS NÓS
Com uma doença silenciosa que se infiltrava no seu corpo ao longo dos anos, causando dores no corpo e problemas de saúde pouco identificados, Jane Austen entendeu sua doença e preparou um testamento simples no fim de abril de 1817, quando já se via abraçada pelo pico mais alto dos problemas de saúde.
Em maio do mesmo ano ela topou se mudar para Winchester fazer um tratamento com acompanhamento direto do médico, e em junho precisou que amiga mais próxima viajasse para junto dela e de Cassandra. Juntas, as três mulheres viram o tempo passar e Jane Austen ficar ainda mais debilitada, com Cassandra — sua irmã, melhor amiga e eterna companheira —, sendo a pessoa que mais sofria com o inevitável fim.
Jane Austen tinha 41 anos de idade em 18 de julho de 1817, e sua morte foi registrada entre às quatro e às cinco da manhã. Era Cassandra quem segurava sua cabeça no colo, quase como um retrato exato da experiência que teve na infância, ao três anos de idade, quando provavelmente segurou a irmã mais nova no colo com o auxílio de um adulto. No livro “Cartas de Jane Austen”, Cassandra escreve como vivenciou a cena da partida de Jane, e é inevitável o choro ao ler o relato.
Com uma partida tão bonita, apesar de dolorosa, a família ficava com a memória da “querida tia Jane”, enquanto o público se despedia em silêncio da mulher responsável por criar o romance moderno. Afinal, entre todos os autores e autoras de romances existentes na Terra, foi Jane Austen quem elaborou as tramas mais famosas da literatura romântica, “inventou” o estilo “comédia romântica” e refinou a existência do que conhecemos hoje como romance clássico.
Olive Marie ♥
