HOSPITAL PLAYLIST: AMIZADES EM CÂMERA LENTA
Pandemia de 2020 chega e traz o isolamento absoluto, e no meio do caos daquele ano complexo, conheci D. E fiquei surpresa por duas razões: a) era a primeira vez que alguém queria, espontaneamente, ser minha amiga; b) era a segunda amiga virtual que eu fazia na vida e parecia ser completamente sincera daquela vez.
Em pouco tempo, D. me incentivou a começar novos projetos e me apresentou voluntariados. Entrei em um que se propunha a ser um ambiente amigável e bom para mulheres, mas encontrei falsidade, disputa e toxidade. E nesse momento pandêmico, já em 2021, achei curioso que amizade fosse algo tão aleatório, em qualquer contexto que seja… Eu tinha 24 anos e era completamente culpada pela inocência de não entender de onde vinha tanta falsidade em amizades.
E foi nessa época que assisti, pela primeira vez, “Hospital Playlist”. Fiquei fascinada pela amizade dos cinco protagonistas e fiquei tentando entender a razão de tudo isso parecer fantasioso demais no mundo real…
Tenho quase 30 anos hoje e – spoiler! – ainda não entendo muitas coisas sobre amizade, mas 2024 me ensinou algumas coisas também.
“ELA É TÃO GALERA”
Eu mudei de casa duas vezes, em 6 meses, em 2024. A vida se tornou um caos. Mas fora do físico, 2024 me reconectou com versões minhas que eu precisava desenterrar. Isso, por si só, foi fascinante.
Fui ao cemitério pela primeira vez para me despedir da Mari (com um atraso ridículo de 2 anos). Me despedi da casa que morei por 20 anos e onde passei toda a adolescência. Pela primeira vez na vida, enfrentei de frente a minha cabeça quebrada. Dei um basta em amizades completamente desproporcionais. Valorizei meu aniversário pela primeira vez na vida. E fiz uma “amizade galera” completamente online.
Me aproximei de uma pessoa por causa dos livros, pelo Instagram, e fui inocente em achar que ela seria como a D. (com quem, não só tenho uma excelente amizade até hoje, mas com quem compartilho pequenas aleatoriedades cotidianas), porque somos adultas e ninguém ia ser babaca de graça. E estava tudo bem. Compartilhamos nossos infortúnios e pequenas alegrias uma com a outra. Até ela falar mal de alguém para mim, só porque eu parecia me dar bem com aquela pessoa.
Eu não sou santa. Óbvio que eu falo mal de algumas pessoas, mas jamais de alguém que conheço pouco e que não está na conversa para se defender.
Quando ela falou da pessoa, concordei até certo ponto, porque a pessoa realmente parecia alguém que agia daquela forma. Porém, isso não define completamente o caráter de ninguém. E é importante lembrar que TODO MUNDO quer se promover na internet. Ainda mais quem fala sobre livros, porque esse é um ambiente elitista, fechado e competitivo.
Ela deixou claro que eu deveria parar de falar com a outra pessoa, de forma não tão objetiva, mas clara o suficiente para não restar dúvidas de como ela achava que eu deveria agir. Eu apenas fingi não notar, e desde então: soft block.
Online ela continua sendo “galera”. No meu coração eu não acho que ela seja ruim por ficar chateada por tal bobagem. E no meu privado eu finjo não saber que ela fica vigiando as pessoas de quem é próxima online para julgar suas vidas e opiniões. Na vida, curiosamente, a pessoa que ela disse ser péssima, segue próxima de mim, segue querendo saber da minha saúde e está sempre à disposição caso eu precise. É a prova de que oportunismo profissional não tem nada a ver com oportunismo amistoso.
AMIZADES LÍQUIDAS
“Hospital Playlist” narra os perrengues médicos de cinco amigos que se aproximaram durante a faculdade de medicina e agora trabalham no mesmo hospital. Eles são amigos há 20 anos. Quase um literal “ninguém solta a mão de ninguém”.
Decidi reassistir para escrever esse texto, porque há meses eu já vinha pensando nessa coisa de amizade em câmera lenta, e em como tudo se tornou líquido recentemente…
Falamos muito de amores frágeis, de como tudo se troca com facilidade nas relações, de como a arte tem focado em romances apenas sexuais e em como aplicativos de namoro são leilões emocionais de humanos. Mas quase não falamos sobre como amizades também viraram vitrines.
Em “Hospital Playlist” a amizade acontece em câmera lenta não apenas porquê eles se conheceram antes das redes sociais, mas porque há, sinceramente, um interesse genuíno pelo outro e não pelo que o outro pode oferecer.
A alecrim dourado que me deu soft block, recentemente, falou nos stories sobre como nenhuma amizade dela fica. Me questionei se ela nota o quanto somos responsáveis por como as pessoas nos enxergam…
Exupéry foi cirúrgico: somos eternamente responsáveis pelo que cativamos.
NO ENSAIO DA BANDA
No kdrama, os protagonistas têm uma banda de garagem que serve de hobby nos fins de semana. Eles só ficam lá, tocando juntos, apreciando a companhia uns dos outros. E no mundo real isso também existe – mesmo que pareça impossível.
Eu mesma, fora meu clube do livro que aprecia amizades em câmera lenta, tenho pequenos bandos e também pequenas amizades separadas, em que tudo é em câmera lenta. Mas isso não quer dizer que amizades em câmera lenta sejam de baixa manutenção, porque amizades de baixa manutenção tendem a não serem amizades honestas.
2024 me ensinou que amar a companhia de alguém precisa ser em câmera lenta. Os passos de formiga são um deleite para quem aprecia viver o agora com delicadeza. E amizades são feitas de delicadezas.
Sinto que quanto mais o mundo acelera, menos quero fazer parte disso. E quanto mais falo sobre na terapia, mais eu entendo que o problema sou eu e não a tecnologia, as amizades de baixa manutenção ou o ritmo acelerado da vida alheia. Eu sou o problema, porque eu não aprecio pessoas passageiras, eu aprecio o tempo, a qualidade e a sinceridade.
Estou em paz em viver em câmera lenta em um mundo que vive no ritmo 2x. Estou em paz em contar minhas amizades nos dedos de uma única mão. Estou feliz com o soft block, porque isso diz mais sobre ela do que sobre eu, e não são coisas boas que diz. Estou feliz por ter sido amiga da Mari por 25 anos e grata por ter encontrado outras pessoas que me fazem desejar passar mais 25 anos ao lado também.
Quero ficar ainda mais em câmera lenta. E quero que quem não consegue ser assim não esteja ao meu redor, porque seremos tóxicos juntos. E relações precisam ser leves.
Olive Marie ♥
