YANICK LAHENS: A ARTE DE SER PRETA
Quando tinha 17 anos, todas as minhas amigas estavam indo para fora do país, fosse para estudar ou trabalhar, mas iam. Uma onda migratória quase biológica, como se todas fossem andorinhas em busca de verão…
As escolhas eram óbvias, em cenários indiscutíveis… P. foi para Nova York, F. foi para Londres, B. foi para Viena, B.S. foi para algum lugar na Irlanda e I. para algum lugar na Polônia. G. foi para o Canadá… Fui uma das poucas a ficar para trás, e foi ficando que acumulei repertório.
Se tivesse partido nessa mesma manada migratória, se tivesse aceitado a proposta de emprego em Paris (ou anos antes ido para Londres estudar, como tinha sido convocada), teria ficado ocupada demais e não teria estudado moda e arte, nem feito trabalho voluntário, e não teria conhecido as pessoas que conheci.
Mas também ficaria ocupada demais para responder a essas mesmas amigas, porque estaria vivendo as minhas próprias aventuras, e não teria tido a chance de dar atenção para V., que era uma das minhas amigas mais próximas e escolheu, na época, um lugar curioso para trabalhar: o Haiti.
Fugindo de todas as expectativas, ela foi para lá e me apresentou Yanick Lahens e sua escrita impecável. Foi V. quem me fez ler alguns contos de Lahens e foi assim que me apaixonei por sua trajetória. Yanick Lahens, descobri, é uma lenda!
NASCER NA HISTÓRIA
Em 22 de dezembro de 1953, nascia Yanick Lahens, em Porto Príncipe. Lahens é uma vit, o que quer dizer que seus pais também nasceram no Haiti, e isso quer dizer que Yanick Lahens é uma mulher preta.
Massivamente, os povos que se mantiveram fortes na cultura haitiana são descendentes de pretos de países africanos (levados ao Haiti por causa da escravidão). A forte influência de países africanos acabou moldando a cultura local, se tornando mais forte que a colonização europeia, e levando o Haiti a ser o primeiro país a discutir sobre liberdade cultural, cultura preta e criar leis e regras para a liberação de seu povo preto.
O Haiti se tornou um molde, e foi sobre isso que Yanick Lahens, ainda jovem, aprendeu a escrever sobre.
É difícil dizer mais do isso sobre sua infância, exceto que ela via as diferenças culturais e sociais de sua cidade natal, especialmente porque o Haiti ainda é permeado por grande instabilidade financeira e preza por uma boa educação buscada na Europa (como a maioria dos países das Américas). E foi em uma dessas oportunidades de aumentar seu conhecimento educacional tradicional que Lahens partiu do Haiti no fim da adolescência.
Se mudando para a França por volta dos 15 anos, Yanick Lahens focou e estudar Literatura Comparada, mas voltou para o Haiti assim que concluiu seus estudos, se instalando em sua terra natal em 1977, já escrevendo sobre a cultura que via pela janela.
SE É PARA FALAR DE RAIZ
Foi a própria Lahens quem disse que só voltou para o Haiti porque podia, que tinha em casa uma rede de apoio que lhe dava segurança para não temer as condições instáveis da economia local. E foi justamente para fortalecer suas raízes que conseguiu divulgar seus trabalhos que refletem o peso histórico de seu povo.
Em uma entrevista dada a UNESCO, Lahens afirmou que a Revolução Haitiana (1791-1804) se equipara a grandes revoluções históricas, como a francesa e a estadunidense. Afirmou também que foi assim que o Iluminismo chegou mais longe, que graças a Revolução, o discurso antirracista e antiescravagista ganhou força e fez do Haiti um modelo histórico que abraça causas raciais.
Lahens foca suas obras em temas como a religião vodu (quebrando estereótipos racistas e intolerantes), a desigualdade e a ascensão da cultura. E apesar de ter suas obras em francês, sua principal busca linguística é manter a narrativa escrita na língua crioula, que tem raízes fortes do francês em sua base, mas que assume unidade na boca do povo haitiano.
Em 2022, Lahens melhorou seu contato com a juventude de seu país, por uma organização particular. O foco do seu trabalho nessa organização é auxiliar os jovens da classe trabalhadora a mergulhar na arte como um refúgio e lhes ajudar a ter mais acesso ao que, antes, era apenas algo da elite.
RESPOSTAS E PONTOS
Perto dos 70 anos, em 2019, Lahens presidiu a cátedra dos mundos francófonos, no Collège de France. Mesmo que não tenha sentido o grande impacto disso na época, é fato de que foi a primeira mulher preta a fazê-lo. E, nessa altura, sua obra já era amplamente premiada.
Até onde sei, Yanick Lahens ainda vive no Haiti e divulga a importância do seu povo para o mundo, por meio da literatura. O Haiti foi o primeiro país preto das Américas a se tornar independente, e Lahens foi a primeira mulher preta do Haiti que fez a Europa entender isso e que provou ao resto dos países americanos que é possível melhorar sua história, apenas mantendo a vivência haitiana em seus livros.
Yanick Lahens nos conta uma história de força e simplicidade, que enxerga as oportunidades vitoriosas da vida como apenas mais um passo. Enquanto isso, mescla sua história pessoal com a história do seu país, deixando — ainda em vida —, um legado incalculavelmente rico e próspero.
Olive Marie ♥
