O MORRO DOS VENTOS UIVANTES: COMO ANIQUILAR A VIDA


 



Já falei aqui de uma amizade virtual que deu errado, eu acho… Conheci a garota por volta de 2019, e viramos “amigas”. Quanto mais a conhecia, mais gostava dela, mas depois de nos encontrarmos pessoalmente, ela me bloqueou.


Obviamente não foi um bloqueio do nada, mas jamais descobri o motivo.


Pouco depois, cada uma entrou em um site de entretenimento diferente e ficamos sabendo disso pela internet, mas nunca mais trocamos mensagens. Ela escreve sobre cultura, se foca em conteúdos clássicos… Eu gosto de escrever sobre a vida.


Na época, o que nos uniu foi a paixão mútua por “O morro dos ventos uivantes”, que ela dizia ser muito fã. Dizia que era seu livro preferido, que aprendeu com a mãe que aquilo era o amor ideal que se deveria buscar. Fiquei, já naquele momento, confusa com o argumento, mas a vida seguiu.


Hoje eu sei que a mãe dela a ensinou que o amor aniquila a vida. E mesmo já tendo entendido isso lá em 2019, a parte sobre isso que não tinha entendido faz sentido hoje: a ideia de fetiche da ignorância masculina.


FAMÍLIA TRADICIONAL = DISFUNÇÃO 


Eu cresci cheia de privilégios, mas a minha casa era um lixo emocional.


A frase preferida do meu genitor era “eu não tenho dinheiro”, quando todo mundo sabia que tinha. Mas seu bordão era uma constante razão de brigas verbalmente violentas. Lá pelos meus 7 anos, as coisas se tornaram físicas e constantes entre meu genitor e meu irmão mais velho…


O hábito que pegaram de brigar, fisicamente, foi um estopim para noites insones, quebra de noção de tempo para mim e o total desprendimento de senso de segurança. Em dado momento, mesmo após o divórcio da minha mãe, nós duas éramos constantemente reconhecidas por policiais da nossa cidade, de tanto que eles iam na nossa casa para impedir que meu irmão nos agredisse.


Dos 7 aos 20 anos, eu reconheci a figura masculina como um eterno poço sem fundo de violência e desgosto.


Mas antes e durante isso, outros impactos das masculinidade da “família tradicional” se mostrava para mim com mais violência e toxicidade, se alastrando ao meu redor, por parentes ou em famílias próximas a minha.


“O morro dos ventos uivantes” é um reflexo disso.


Penoso, cruel, cru e indigesto, mas é. E quando aquela garota, lá em 2019, assumia vir de um lar disfuncional e ainda assim afirmava que o amor de Heathcliff era ideal, entrei em choque.


Como que as pessoas podem achar esse tipo de vida saudável e linda? Como que ele pode parecer ser atraente?


2025 responde…


CATHERINE E BELLA E ANASTASIA E CATHERINE


Heathcliff e Catherine são irmãos de criação, mas se amam como homem e mulher. Ela é branca e ele é “cigano” (algo como um indiano na época em que a obra foi escrita). Eles não ficam juntos e é a soma do preconceito da sua origem com o fato de não poder ficar com Catherine que faz “O morro dos ventos uivantes” ser tão provocativo para seu tempo de publicação.


Li a obra, pela primeira vez, há anos… Mas foi por volta de 2010 que a história voltou a ter destaque para além dos círculos de leitores clássicos. E como a própria capa da edição brasileira da editora Lua de Papel diz: é o livro preferido de Bella e Edward, o casal protagonista de “Crepúsculo”.


E isso é óbvio…


Bella se apaixona por um cara com quem não pode ficar, tem um amigo bonzinho que daria tudo para ficar com ela e tudo isso acontece em uma cidade pequena, fria e chuvosa.


Na versão de Meyer, a empregada fofoqueira, Nelly, é Alice, a irmã adotiva que vê o futuro em possibilidades. Jacob faz as vezes de Edgar, enquanto Catherine vira Bella e Heathcliff vira Edward. E se você conhece as duas histórias, pode intuir o resto.


“50 tons de cinza” é uma fanfic erótica de “Crepúsculo”, enquanto “Crepúsculo” é uma fanfic sobrenatural e jamais assumida de “O morro dos ventos uivantes”.


Estava mais do que óbvio que algo ainda mais sexual ia sair disso… Mas fazer isso vendendo a ideia de adaptação direta…?


Hollywood não surtou, isso é apenas o sintoma do que já vinha acontecendo.


DISCURSO DE ÓDIO


Heathcliff não é atraente. Pelo menos, não segundo Emily Brontë. E eu concordo.


A obra original é trágica, mas Meyer — assim como outras mulheres —, viu a chance de um romance que supera tudo. Até se apaixonar por um psicopata, aparentemente.


E.L. James seguiu o fluxo do que já fazia sucesso… São fórmulas que não requerem muito pensamento, mas que são sucesso garantido e que alimentam certos discursos e discussões. No entanto, como alguém acha que Heathcliff pode ser apaixonante, sendo que ele é a personificação do discurso de ódio?


E 2025 nos deu um trailer que explica e reforça tudo isso, exatamente dessa forma mastigada. É, também, nitidamente estadunidense.


Tudo que é trágico e crítico fica sexualizado, corpos brancos para todo canto e aqui e ali alguma cota racial/étnica para fingir que está tudo bem.


É bizarro e angustiante, mas também é previsível. Qual a novidade disso, depois de todos esses anos de emburrecimento e deturpação da obra de Emily Brontë?


Claramente é revoltante. E eis os áudios que enviei para minhas amigas de prova do quanto fiquei frustrada… Só que é necessário admitir que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.


Nos dias de hoje, qualquer vida é aniquilada. Até aquelas de pessoas que já se foram. O dinheiro — e o sexo — pagam tudo. 


Até a dignidade de uma das autoras clássicas mais trágicas da história da literatura.


Olive Marie ♥