ANAÏS NIN: ENTRE O VULGAR E O POÉTICO

 




Descobri Anaïs Nin por acaso, enquanto estudava a era “pornô” de Hilda Hilst, apenas porque seu nome apareceu para mim em uma das críticas sobre Hilst. Curiosa, pesquisei sobre a autora e me choquei. Anaïs Nin era um dos maiores nomes da literatura.


Algum tempo depois, quando fui estudar francês, me ponderei para não pedir para a equipe de livreiros que abastecia os livros do curso me arranjarem um livro dela. Afinal, como explicar para a minha mãe, no auge dos meus 16 anos, que não estava interessada no teor dos livros de uma mulher que escreveu sobre sexo? Como explicar que era o psicológico de Nin que eu queria desvendar?


Hoje, colada aos 30 anos, não li nada de Nin ainda, mais por falta de curiosidade do que por vergonha de achar algo constrangedor. Quero saber menos sobre Nin do que quando era mais nova, porque entendo melhor sobre sua psicologia pessoal e suas motivações. Não sou mais uma adolescente que precisa de repertório para argumentar sobre feminismo.


Ainda assim, hoje temos Anaïs Nin, porque ela merece ser mencionada. Especialmente em momentos sociais tão pautados no sexual das pessoas.


A DIARISTA UM TANTO LATINA


Nascida em 21 de fevereiro de 1903, em uma comuna francesa, Nin tinha o primeiro nome Angela e o segundo Anaïs, e pelo menos mais três nomes próprios e dois sobrenomes. A causa disso era sua descendência latina direta. Filha de um pianista cubano, que por sua vez era filho de um francês, e de uma cantora também cubana, Nin viveu uma infância na França apenas por dois anos.


Com a separação dos pais, Nin se mudou para a Espanha e depois para os Estados Unidos, levada pela mãe e junto dos dois irmãos, e foi lá que deu continuidade para seus estudos básicos e onde cresceu. Aos 16 anos, abandonou a escola e decidiu ser autodidata, e junto disso se afastou da religião da família e focou sua busca por si dentro de campos da psicologia, que já davam sinais de interessá-la bastante.


Em 1923, aos 20 anos, se casou com o estadunidense Hugh Parker Guiler, em solo cubano, enquanto conhecia o país de origem de sua família. E foi com Guiler que Nin voltou à Paris, dessa vez para estabelecer residência e se aproximar da psicologia e da escrita.


A Paris de 1924 oferecia uma vida boêmia, aberta para a alma artística, e permitiu a Nin descobrir sobre pornografia literária. Foi lá que sua paixão pela psicologia também aumentou, e Nin passou a intercalar seu tempo entre escrever muito em seus diários (hábito que desenvolveu aos 11 anos de idade), a criar contos pornográficos em troca de algum dinheiro para ajudar no momento de crise financeira, estudar sobre psicologia e se aventurar na cama de grandes nomes da arte e da psicologia da época.


TALVEZ FREUD EXPLIQUE


Interessada ainda mais por psicanálise, buscou auxílio para estudar o tema e se aproximou de Otto Rank, que tinha se afastado de Viena e do círculo dos grandes pensadores da análise psicológica – Freud, entre eles – e começava a se aventurar no tema em território francês.


Apesar de Otto e outros amantes, foi o autor Henry Miller que mais se aproximou de Anaïs Nin naqueles anos de Paris, e Henry e sua esposa da época, June, se tornaram o casal preferido dela. Mantendo uma relação duradoura ao lado de Miller, é fácil especular que talvez June também tenha sido um de seus romances não tão secretos. Junto de Miller e outros nomes da época, Nin produziu contos e cenas eróticas para um colecionador, acreditando que tudo ficaria exclusivamente no sigilo.


Diferente do que parece ao primeiro olhar, Anaïs Nin queria que sua escrita fosse focada em outros temas que não o sexual e só autorizou a publicação desse conteúdo muitos anos depois de terem sido escritos.


Com a chegada da Segunda Guerra Mundial e a necessidade de estrangeiros deixarem o país, Nin voltou para os Estados Unidos junto com o marido e decidiu aplicar seu conhecimento de psicologia em um consultório ao lado do de Otto Rank, com quem tinha tido um caso em Paris. Mas a empreitada durou apenas alguns meses e ela mesma assumiu que abandonou a ideia porque não se sentia apta a fazer o trabalho. Ela queria ser direta, e para isso achou a escrita.


DOIS HOMENS E UM ROSTO ANGELICAL


Trocando o norte dos Estados Unidos pela ensolarada Califórnia, mas ainda casada com o primeiro marido – com já mantinha um tipo de “relação a distância” –, Anaïs Nin se casou com Rupert Pole, um ex-ator hollywoodiano, que tinha mais de 10 anos a menos que ela. 


Mesmo com a idade avançada, Nin mantinha o rosto angelical e já publicava seus romances. Sua carreira na escrita, apesar de parecer apenas focada no pornográfico, unia romances e críticas literárias, e seus diários começaram a vir a público em 1966.


O primeiro volume abordava a vida de Paris dos anos 30, falava de Henry Miller e não tentava imitar a escrita masculina, o que era uma renovação para a literatura feminina de seu tempo. Sendo a pioneira na arte de escrever sobre e para mulheres, Nin também ganhava o título de parte do movimento de pornografia escrita por mãos femininas no Ocidente. Sua obra era celebrada e virou um sucesso, mas excluía o marido Guiler em respeito ao seu desejo de se manter privado.


Com algo que chegava perto do poético, a obra escrita por Nin foi comparada com o movimento surrealista e abriu espaço para que a escrita feminina se tornasse mais ampla e menos parecida com a masculina em seu tempo.


Anaïs Nin faleceu em Los Angeles, no dia 14 de janeiro de 1977, enquanto tentava lutar contra um câncer. Na década seguinte, mais de sua obra veio à público: o livro “Henry e June” foi um sucesso. Hoje, Anaïs Nin segue com menos popularidade do que em seu tempo, mas se mantém no posto de pioneira em escrever para mulheres.


Olive Marie ♥