UM AMOR NO PARAÍSO: O DESUSO DA FAMÍLIA

 




Demorei um pouco para assistir “Um amor no paraíso” porque não estava pronta para lidar com o luto de repente. Não de novo, em tão pouco tempo…


2025 está sendo um ano carregado de perdas. Na verdade, os últimos anos têm sido assim. Mas este ano, em especial, tem me dado rasteiras que não esperava ter que enfrentar.


A mais recente foi O, minha amiga de toda uma vida, que perdeu a luta para uma doença há menos de duas semanas. Me resguardei em luto por ela por dias… Mas também o fiz em abril, por uma amiga que sofreu um acidente. E também o fiz em fevereiro, por um membro da família que sofreu um mal súbito. E fiz em janeiro, e em junho também. E, no meio disso tudo, revisitei outros lutos que tive nos últimos anos, abraçando os aniversários de morte com respeito e silêncio pessoal.


Sinto que, “Um amor no paraíso” diz sobre isso ao seu modo. A luta pessoal de cada pessoa pelo luto. Mas também fala sobre o que a palavra “família” quer dizer.


OHANA


Quando assisti “Lilo e Stitch” pela primeira vez, fiquei fascinada pela força que a palavra ohana tinha. Afinal, ohana é daquele tipo de palavra que não existe em outros idiomas, tal como a nossa saudade.


Mesmo que ohana signifique apenas família, o filme deu à ela a força de uma tradução impossível de tocar. É fácil entender o que isso quer dizer. Porque aprendemos ali, em uma infância distante, que família não precisa ser aquela que o sangue te dá.


Mais velha eu entendi melhor o que isso queria dizer. E entendi de um jeito ruim.


Para quem visse de fora, minha família era estruturada e segura. Era deduzido que, se eu tinha um teto sobre a minha cabeça, eu estava segura. Mas não estava. O luxo de uma vida que o dinheiro comprava bem não queria dizer nada…


Tenho memórias vívidas e momentos em que todos os membros da família próxima precisaram de ajuda, e em todas as vezes minha mãe foi a primeira a se erguer da cama e socorrer… O assalto do meu primo que quase acabou em morte; o nascimento da minha prima que foi problemático; a doença degenerativa que matou o meu bisavô; a diabetes que quase levou minha tia-avó; o surto de amnésia complexo que atingiu uma prima minha… Todas aquelas pequenas desgraças do dia a dia que eram sempre superados com um amor incondicional da minha mãe.


Mas quando o jogo virou e a falta de estrutura familiar que nosso apartamento caro escondia vazou pelas bordas, ninguém estava lá. Fui eu que vi minha infância sendo consumida por surtos violentos de álcool, drogas, violência material, abuso psicológico e abuso financeiro lentamente. Minha infância sendo comida, aos pedaços largos, foi encolhendo pela certeza de que ohana, em toda a sua poesia, não existia na minha casa.


O SANGUE É MAIS ESPESSO QUE A ÁGUA


Ao ler isso nos livros de “As crônicas de gelo e fogo”, ri alto e com vontade. A certeza de que isso é uma verdade incorrigível só é possível de sair da boca de pessoas que não crescem em lares como o meu.


Fora a desestrutura caseira que envolvia os quatro membros da minha família, a família direta era também um poço inesgotável de incertezas e absurdos. E quando fomos minha mãe e eu quem pediu ajuda, recebemos as costas.


Apesar do primeiro lapso de boa fé que queriam mostrar aos vizinhos, com supostos acolhimentos, a família direta foi sendo mais explícita sobre o quanto não éramos bem-vindas. Minha mãe porque não era mais o banco financeiro da família, e eu porque desrespeitava as regras de ser uma moça bem comportada, submissa e débil.


Nosso sangue mais espesso foi cuspido aos baldes pelas sanguessugas que chamávamos de família, de lar. E então tudo fez sentido: o sangue é mesmo mais espesso que água, porque é dele que pernilongos e sanguessugas se alimentam, não de água, porque água não sustenta.


Mas sanguessugas e pernilongos são fáceis de aniquilar da vida. A água sempre vamos precisar de goles curtos ou longos para continuar vivendo. E foi a água que nos sustentou em pé.


Amigos e amigas de anos, pessoas que tínhamos conhecido meses antes… Pessoas que viram toda a dor que o sangue causava e serviram de cantil de remédio. Um abraço, um colo, um sorriso. Enquanto do outro lado, a matriarca da família, se empertigava e bradava que “dinheiro não tinha”.


Entendi ali que a lei da selva de pedra é o dinheiro, e que é ele que decide o quanto o sangue vai ser espesso. O nosso, nitidamente, era mais fino que a água mais límpida. E tudo bem.


Há feridas que realmente não são curadas, porque a casca sempre preserva a carne viva úmida. Mas também é curioso que isso tenha outro impacto direto: o desuso da família.


NO PARAÍSO NÃO TEM DEUS


A história de “Um amor no paraíso” deixa claro que não há Deus, pela perspectiva que se espera. Há alguém, um ser poderoso que sabe tudo e ajuda a todos a encontrarem seu destino, mas que existem regras.


O kdrama não é religioso. Longe disso! Mas é reflexivo sobre o que esperamos da morte, sobre reencarnação e sobre amor, dívida emocional e culpa. Nada se mistura, mas tudo se completa. E tudo precisa se completar.


Com uma família que já foi feita de sangue, mas depois se tornou feita de água, a história dos protagonistas é linda e poética. Fala sobre luto e perdão… Mas será que eles precisavam mesmo esperar morrer para curar todas aquelas dores e aflições?


O desuso da família é óbvio. Famílias são, antes de mais nada, desestruturadas e falhas em sua maioria. São como serpentes que corroem várias dores que nem mesmo conseguem se curar aos poucos. É devastador, e tudo bem. Mesmo assim, há salvação. Mas não é implorar à Deus — seja ele o Deus que for — por mais.


A verdade é que o inferno e o paraíso são a nossa própria consciência. É assim que a vida funciona. Mesmo que a fé, independente de qual, aplique outras ideias. Nossas cabeças são nossos guias, e é por isso que há a massiva de que devemos sempre dormir de cabeça fresca.


O kdrama brinca com essa realidade do desuso familiar, quase como uma provocação direta ao que escolhemos sentir enquanto as dores dos traumas familiares não atingem em ondas violentas. A beleza da obra está, justamente, em aceitar o que vier e a lidar com as perdas, inclusive da nossa própria vida, com paz. Sempre haverá uma família, independente se foi a genética que lhe deu ela, ou se foi a vida.


Olive Marie ♥